Ontem (30/01), um assustado Thorsten Heins (se bem que eu acho que a cara dele é sempre aquela) apresentou ao mundo aquilo que podemos chamar de “tiro de misericórdia” da BlackBerry (que antes era conhecida como RIM). Com uma boa quantidade de novidades, um sistema operacional concebido “do zero”, e dois novos smartphones, a empresa de Waterloo quer reconquistar parte de um mercado que um dia foi seu, além de tentar a (muito) difícil missão em achar algum espaço junto ao público que hoje abraça os sistemas iOS, Android e Windows Phone.

A primeira novidade é a mudança de nome. A empresa deixa de ser conhecida comercialmente pelo nome RIM (Research in Motion) para assumir a marca mais forte, aquela que fez ela se tornar conhecida no mundo todo: BlackBerry. E faz todo o sentido. Primeiro, RIM é um nome que lembra um órgão humano. Segundo, não faz muito tempo que muitos de nós nos referíamos ao BlackBerry como sinônimo de “smartphone diferenciado”. Nenhum outro smartphone era como o BlackBerry, que usava uma rede de dados própria, era uma rede mais segura, mais cara, porém, ilimitada, e os seus dispositivos era quase um sinônimo de que você era alguém importante. Ou que, pelo menos, queria se fazer importante com os seus dados, mostrando ao mundo que “não posso deixar de receber meus e-mails em hipótese alguma”.

A segunda mudança da BlackBerry está na sua filosofia de negócios. A empresa não abandonou o mercado corporativo, mas não aposta exclusivamente nesse mercado. Entendeu finalmente que precisa buscar o usuário casual, aquele usuário que gosta de smartphones simples, com recursos e funcionalidades de fácil acesso. Por isso, coloca como seu carro-chefe o BlackBerry Z10. Vendo de longe, acho o smartphone bonito, elegante na sua proposta, prático em algumas funcionalidades, e com um sistema operacional razoavelmente leve. Mas eu sou suspeito para falar. Eu sou geek: gosto de praticamente tudo que tem uma tela colorida, ícones e consegue acessar a internet. Logo, não sou referência. A pergunta é: será que esse smartphone, com um sistema operacional totalmente repensado, pode ser o suficiente para que a RIM consiga se recuperar no segmento mobile?

Pelo smartphone, sozinho, tudo indica que sim. Só que a RIM BlackBerry (até eu me acostumar…) esbarra em uma pedra gigante: oferta de aplicativos e conteúdo multimídia.

Hoje, eles anunciaram que, quando o Z10 e o Q10 (o segundo smartphone da BlackBerry, também com BB10, mas com teclado QWERTY físico combinando com uma tela sensível ao toque) chegarem ao mercado lá fora (primeiro no Canadá e Estados Unidos, depois nos demais mercados), a BlackBerry World, loja de conteúdos para os dispositivos já contará com mais de 70 mil aplicativos cadastrados. É muito para uma loja nova, mas é pouco para um universo mobile já consolidado. Não é nem 10% daquilo que o iOS e Android já oferecem em suas respectivas lojas, e muito atrás ainda da loja do Windows Mobile, que eu considero bem incompleta diante dos dois primeiros.

Mesmo com todos os incentivos que a BlackBerry está ofertando para os programadores portarem os seus apps para a nova plataforma, o termo “time is money” certamente vai entrar nessa equação. Mesmo que as empresas ofereçam SDKs que agilizam o processo, um bom programador demora horas, dias, semanas de trabalho diante do computador para ajustar cada linha de comando do seu aplicativo para a nova plataforma. E só ele sabe quanto isso custa. Agora, para uma plataforma do tamanho da BlackBerry 10, que acabou de nascer, esse valor vai ter que ser reduzido, uma vez que quase ninguém tem o smartphone. Diferente da oferta do Android, que é gigantesca. E não sei se os programadores vão querer perder o seu tempo adaptando os seus aplicativos para “praticamente ninguém”. Mas, quando o tempo passar, isso deve mudar. Só não sei se a BlackBerry vai ter muito tempo.

Tudo bem que algumas críticas sobre o produto já chegaram. Alguns jornalistas mostraram em testes o quão ruim é a câmera do BlackBerry Z10 diante dos seus principais concorrentes, mostrando que a BlackBerry se esqueceu de um item considerado vital para o novo público consumidor que eles querem alcançar. Mas, como estamos ainda no “recomeço”, como bem disse o CEO da empresa, vamos dar um desconto, e algum (pouco) tempo para que eles possam corrigir essa e outras falhas que certamente vão aparecer no decorrer das próximas semanas.

Não posso dizer que não gostei do que vi. Gostei do BlackBerry 10, do BlackBerry Z10, e acho que são propostas bem interessantes para o mundo mobile. Porém, eles podem cair no mesmo caso do Palm OS, que todo mundo elogiou, todo mundo disse que era bom, mas pelo fato de só ser vendido em sete países do planeta, ele foi um fracasso gigante, sendo retirado do mercado poucos anos depois. Não creio que seja o caso da BlackBerry. Se eles vão fazer propaganda até no Super Bowl do próximo domingo, não acredito que eles vão restringir a oferta dos produtos aos mercados que só eles acreditam ser mais lucrativos. O lançamento é global.

Mas… sera que tem espaço ainda para ele no mundo mobile?

É uma pergunta que só o tempo vai responder. Não havia espaço para o Windows Phone, e quase três anos após o seu lançamento, ele encontrou o seu espaço. Da mesma forma que ninguém imaginava que o Symbian fosse morrer um dia, e ele simplesmente desapareceu. Não me atrevo a afirmar nada. Apenas torço que o BlackBerry 10 dê certo, de verdade. Afinal de contas, toda concorrência é saudável. E quanto maior a concorrência, melhor para o usuário.