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Bill Gates ainda é um dos nomes mais importantes do mundo da tecnologia. Logo, quando ele fala alguma coisa, temos que parar e prestar atenção no que ele está falando. Mas isso não quer dizer que temos que concordar com ele. Principalmente quando ele afirma categoricamente que os usuários do iPad “estão frustrados”. Por mais tentador que seja apoiar sua teoria, eu tenho que dizer: calma lá, tio Bill! Devagar com o andor!

Por partes. Bill Gates fez a devida afirmação para a CNBC, com a justificativa que os atuais tablets sofrem com a falta das características de produtividade que os PCs oferecem – algo que ele considera ser o principal diferencial do tablet da Microsoft, o Surface, com o Windows 8. Gates acredita que os usuários do iPad estão descontentes com o fato de “não poderem digitar, criar documentos, utilizar o Office”, entre outros fatores que ele (Gates) entende que só o Surface pode oferecer, sem deixar de lado a essência de um PC tradicional.

Caro tio Bill… de novo… devagar com o andor.

Para começar, por mais que eu mesmo entenda que o iOS é um sistema operacional engessado, atrasado e limitado (desculpa, Apple Fanboys, mas o Nexus 7 chuta a bunda do iPad Mini com uma violência assustadora… esperem o meu review no @TargetHD), até eu reconheço que o iPad ainda é o tablet dominante do mercado. Pode não ser mais aquele que vende mais, uma vez que foi superado pelos tablets Android nas vendas do primeiro trimestre de 2013, mas como tablet único (com suas respectivas variantes) ainda é o que mais vende. São mais de 140 milhões de unidades do iPad vendidas até agora, e se as pessoas realmente estivessem tão descontentes, a Apple não teria vendido mais de 19 milhões de unidades do produto nos últimos três meses.

Sem falar que o iPad não é só um tablet. É ainda o tablet referência para muita gente, que não baseia a sua escolha no preço do produto, mas sim pela experiência de uso obtida por ele. Ainda mais se essa experiência é baseada no muito bem sucedido iPhone. Logo, tio Bil… devagar com o andor.

Segundo: o Surface, pelo menos até agora, ainda não engrenou, e já posso afirmar que essa primeira versão da tentativa da Microsoft em oferecer um tablet com funcionalidades de um PC algo que beira o fracasso. Hoje, o Surface detém 1.8% do mercado dos tablets, com vendas de apenas 900 mil unidades das duas versões (Surface Pro e Surface RT) no primeiro trimestre de 2013. Contra 19 milhões do “insatisfatório” iPad. De novo: calma, tio Bill!

Terceiro: quem é que disse que quem usa um tablet quer ficar digitando o tempo todo, ou produzindo textos e planilhas? A Microsoft “força uma barra” com o Surface porque tem o sistema do desktop no tablet. Mas, na prática, um tablet ainda é muito mais um dispositivo para consumo de conteúdo do que para produção de conteúdo. Se você quer produzir um texto ou um post bem elaborado (não é bem o caso desse post), você não vai fazer isso em um tablet, mas sim, em um desktop ou notebook (ou ultrabook).

A maioria das pessoas utilizam o tablet para consumo de conteúdo. Navegação na internet, e-mails, redes sociais, jogos, vídeos, filmes… quem trabalha hoje com um tablet o faz em atividades muito específicas, e até mesmo as pessoas que estão hoje trocando o notebook pelo tablet o fazem para consumir de forma mais confortável aquilo que eles querem da internet, e não produzir um texto sobre as novas políticas econômicas da Dilma.

Já estou falando isso a algum tempo: assim como os desktops abandonaram os lares dos usuários, os notebooks seguem pelo mesmo caminho, com um impacto menor para quem já não conseguem mais viver sem um notebook (o meu caso, já que produzo conteúdo). Em um futuro não muito distante, os tablets serão os computadores principais de muitos usuários que não se importam em ter um teclado físico para escrever o dia inteiro. E, se algum dia precisarem, vão comprar um case com teclado, e usar o Google Docs. E pronto: problema resolvido.

O mundo está mais mobile, e todos nós estamos salvando os nossos dados na nuvem. Talvez o temor do tio Bill e ver os usuários domésticos deixando de lado o disco rígido e optando pelo cloud em tudo e para tudo. E aí, até mesmo o Windows é colocado em xeque. Ainda acho que o processo de fim do notebook da casa dos usuários vai demorar um pouco. Afinal de contas, existe uma geração inteira que não vive sem um teclado físico, e escrevem o tempo todo por algum motivo. Porém, as novas gerações (ou as senhorinhas que antes compravam um computador para falar com a neta no Skype) já entenderam que, para fazer o que fazem na internet, um tablet é mais que suficiente.

E aí, quem vai dançar é o Microsoft Surface. Que tem teclado, Windows e custa mais caro.

Não é mesmo… tio Bill?