Todo mundo ficou sabendo que Adam Orth foi demitido. Se você não sabe quem é ele, vale uma breve introdução: ele era diretor criativo da Microsoft, e resolveu emitir suas opiniões sobre um futuro Xbox 100% conectado, criticando de forma enfática aos usuários que não gostaram muito da decisão que a sua empresa até então estava para tomar (digo “até então”, porque Orth praticamente confirmou que isso vai acontecer). O problema é que Orth foi mais enfático do que deveria. E acabou demitido por isso.

Para resumir: ele fez isso (clique aqui para ler), que resultou nisso (clique aqui para ler).

Tirando o fato que Orth foi um babaca, vamos agora pensar no que realmente é importante nesse assunto: a possibilidade de um Xbox totalmente online. E, ao meu ver, isso pode ser um suicídio da marca Xbox como conhecemos, com grandes chances de ser um fracasso. Mas quero deixar bem claro que esse conceito destinado à derrota vale para O XBOX. E vou explicar a seguir.

Não sou contra os jogos via streaming. Acho que isso pode dar certo, mas para plataformas específicas. Já existem empresas (que não se chamam EA) que fazem isso muito bem. Para a Microsoft, que depende da competência de terceiros para isso dar certo, pode não funcionar. Para começar, eu não mexeria em time que está ganhando. A própria Microsoft está sendo vítima de uma de suas mudanças mais radicais com o Windows 8, que por mais que eu compreenda que seja um conceito pensado para funcionar daqui a alguns anos, quando esse conceito de “ecossistema integrado” estará maduro e concluído, nesse exato momento, não está funcionando. As pessoas não abraçaram o Windows 8, e o mercado de PCs teve a maior retração desde o início dos estudos do IDC, em 1994.

Ok, os tablets e smartphones viraram fortes competidores dos computadores. Mas muito da culpa para a queda das vendas está no Windows 8.

A Microsoft ainda reina nos videogames. E reina pela sua própria competência. Se recuperou do fracasso do primeiro Xbox, e emplacou o Microsoft Kinect, que deu uma sobrevida ao console, reinventando a roda dos videogames. Agora, por que mudar as regras do jogo logo agora? Pra quê ter um Xbox que OBRIGA o usuário a ter o console conectado à internet o tempo todo para jogar? Eu entendo que faz parte da luta da empresa contra a pirataria, e até mesmo para inserir o jogador para uma nova fase dentro do universo dos videogames. Só não entendo a obrigação disso. Ainda não faz sentido.

Não temos conexões de internet competentes em todos os continentes do planeta. E nem falo do Brasil, onde nós bem conhecemos como a nossa internet é um lixo. Falo de outros mercados emergentes e até mesmo dentro dos Estados Unidos, que também não tem a melhor internet do mundo. A questão das comunidades rurais e países onde a média de velocidade por conexão é inferior a 1 Mbps foi muito bem levantada pelos internautas que discutiram com Adam Orth via Twitter. Quer dizer que esses podem ficar excluídos do direito de explorarem todo o potencial do novo Xbox por causa da obrigatoriedade de manter o Xbox o tempo todo conectado?

E quanto aos usuários que só contam com a internet móvel em casa? Vale lembrar que muitos usuários de baixa renda, ou de determinados locais acabaram adotando como conexão principal a banda larga móvel, abrido mão da internet residencial. Os motivos são diversos para essa decisão. E eles também ficarão excluídos da experiência de jogar no novo Xbox?

Além disso, vale lembrar mais uma vez que a Microsoft vai ter que depender da competência dos seus parceiros para que o negócio funcione de forma aceitável. Um dos parceiros da Microsoft é a EA, que não é competente para cuidar dos próprios serviços (vide o que aconteceu no lançamento de SimCity). Que dirá em uma tecnologia em parceria com outras empresas.

Logo, é aconselhável que a Microsoft pense muito bem nos seus planos futuros. Eles são líderes em um mercado que é mais lucrativo do que o cinema. Contam com o console mais vendido do mundo, e recuperaram a confiança e prestígio de muitos gamers que consideraram o primeiro Xbox um fracasso. Conseguiram o mais difícil, que é limpar o seu nome junto a um grupo de consumidores exigentes.

Se eles não fizerem direito, correm o risco de jogarem tudo por água abaixo. E aí, recuperar novamente o prestígio, vai ser uma missão muito complicada.