O Brasil está ficando mais sem graça. Enquanto temos políticos corruptos, cantores com repertórios infelizes, pessoas sem caráter e programas de televisão com gosto duvidoso, Chico Anysio nos deixou, aos 80 anos de idade, e depois de 65 anos de carreira. Por 65 anos, o filho de Maranguape fez o povo brasileiro feliz. Fez o povo brasileiro se esquecer por muitas vezes das injustiças, mazelas e dificuldades, para rir de si mesmo. Rir dessas mazelas. Ver graça na sua própria desgraça.

Foram mais de 200 personagens que refletiam as diversas facetas do brasileiro. Se Chico Anysio nascesse na França, não conseguiria uma multiplicidade tão grande de personagens. Afinal, o francês é chato por natureza. Chico Anysio tinha que ser brasileiro. Só aqui ele teria um material tão grande para construir um universo de personagens que poucos gênios da comédia no mundo conseguiram. Principalmente com tamanha sensibilidade. Sim, amigos. O trabalho de Chico era, principalmente, sensível.

Todos os tipos de brasileiros foram retratados por Chico em 65 anos. Ele viveu mais de 200 vidas em uma vida só. Eu me lembro quando eu era pequeno que, ao assistir o seu programa, o que mais chamava a atenção era a sua capacidade de se transformar em outras pessoas. Em viver outras vidas. Vidas que passavam a criatividade de uma mente viva, intensa, pulsante. Chico Anysio tinha uma missão clara: fazer o povo brasileiro sorrir. Cumpriu essa missão com a ajuda de um “exército do humor”, mostrando ao brasileiro que ser uma pessoa comum não impedia que essa pessoa não fosse especial.

Cada personagem era especial. Cada personagem era único. Cada alma criada por Chico era perfeita na sua simplicidade. Com Chico Anysio, aprendemos que a graça da vida está nas ações simples: em um professor de mobral, em um dono de uma fazenda, um ator excêntrico, um prefeito de uma cidade cheia de malucos. Sim… a maluquice é simples. Somos todos malucos. Somos todos excêntricos. Chico Anysio mostrou que cada brasileiro é um universo em potencial do humor. E somos gratos por isso.

Hoje, o Brasil está mais triste. Hoje, uma parte da alegria de seis gerações partiu, e ficamos órfãos da alegria da simplicidade. Mas, melhor do que sentir saudades, é aplaudir de pé um dos melhores humoristas de todos os tempos. E isso, ao redor do planeta. Chico Anysio vai para a eternidade como “o homem das 200 vidas”. E feliz daquele que teve o privilégio de presenciar um gênio entre nós. Que fique a feliz lembrança daquele que me fez feliz, por me fazer rir do meu cotidiano.

Descanse em paz, mestre Chico!