O início da madrugada de hoje (16/12) mostrou, de forma clara, quais são as regras impostas por operadoras e pela própria Apple para o seu mais recente lançamento para o Brasil, o iPhone 4S. Por mais que muitos de nós já haviam previsto que isso iria acontecer, era difícil de imaginar que a avacalhação seria tão grande. Mas, quer saber? Acho que essa análise tem que ser feita de forma clara, objetiva e com os dois pés na realidade.

Antes de qualquer coisa, eu sempre escrevi em meus blogs e disse nos podcasts que a Apple não era essa empresa boazinha, linda e maravilhosa que os Apple Fanboys Xiitas pregavam, e disse por diversas vezes que a empresa “defecava e se locomovia” para o mercado brasileiro. E ontem foi a mais clara prova disso. Antes, quando a Apple não dava muita atenção para o que acontecia em terras tupiniquins, as desculpas eram: “carga de impostos”, “eles não atuam no Brasil”, “você é gordo, velho, feio e anti-Apple”. Pois bem, a empresa viu concorrentes como Motorola, Samsung e LG venderem muito no mercado brasileiro (que está estável, se compararmos com os Estados Unidos e Europa), e resolveu apostar no Brasil. Ah, e nesse meio tempo, troquei um Nokia N8 por um iPhone 3GS. E não me arrependo da troca.

Alguns, de forma tola, imaginaram que os preços seriam mais competitivos e atraentes. Afinal, a Foxconn está chegando, tem a concorrência, alguns incentivos fiscais são aplicados à Apple, e a expectativa era que a empresa iniciaria um lindo casamento com os seus fiéis seguidores. E nada disso aconteceu! Olha só, que coisa! Para a Apple, todos os seus fanboys são ricos o suficiente para pagar, no mínimo, R$ 1.900,00 (preço do modelo 16 GB do iPhone 4S na TIM, no modo pré-pago) para ter um smartphone, que faz o mesmo que o modelo anterior, e que o Siri, assistente pessoal inteligente, que é a grande novidade do novo modelo, não funciona em português!

(pausa para dar algumas boas risadas).

Pra resumir, Apple Fanboy: a Apple não liga pra você, muito menos para o mercado brasileiro de smartphones. Elitizaram no Brasil um smartphone que, nos Estados Unidos, que é o mercado que realmente interessa para eles, é considerado popular.

Veja bem, não estou querendo dizer que a culpa é só deles. A carga tributária ainda existe, as operadoras são gananciosas… tudo isso contribui para o resultado final dos preços praticados. Mas é a Apple quem negocia um “preço base” para os seus smartphones com as operadoras, que depois aplicam a sua margem de lucro. E essa é uma conta que nunca (eu disse NUNCA) fechou, na minha modesta (porém valiosíssima) opinião.

O iPhone 4S mais barato do Brasil custa, pelo menos, 60% a mais do que é cobrado nos Estados Unidos. Aí você coloca 47% (em média) de cargas tributárias, mais custo de transporte e lucro das operadoras, e chegamos aos tais R$ 1.899,00. Até aí, a culpa é só do governo. Se tirarmos o PIS e o ICMS do iPhone 4S, seu preço seria reduzido em, pelo menos, 28%, reduzindo o preço final do produto para R$ 1.367,00. Preço bacana, certo?

Agora, algumas operadoras acrescentaram os seus valores por conta própria. Tem operadora cobrando R$ 2.049,00 pela versão mais básica (pré-pago da Vivo), e mesmo os planos pós-pagos mostram a falta de noção de algumas operadoras. Enquanto umas oferecem o smartphone parcelado, com planos de voz e dados ilimitados a preços reduzidos, outras operadoras forçam o cliente a contratar um plano de dados que pode valer até R$ 270/mês, para ter o direito de pagar R$ 1.249,00 no iPhone 4S. Oras, nos EUA, o mesmo modelo mais caro (64 GB) nos planos com contrato de 2 anos custam aproximadamente R$ 740,00. E olha que os planos oferecem fartos pacotes de SMS, voz e dados. E, diferente, do Brasil, lá, o 3G funciona bem.


(Gráfico extraído do post do Rodrigostoledo.com)

Aí, vem a Apple. E manda na cara de todo mundo o preço “fantástico” de R$ 2.600,00 para a versão de 16 GB do smartphone. E mais “fantástico” ainda é o “mágico” preço de R$ 3.400,00 pelo modelo de 64 GB! É… alguém andou tomando chá de cogumelos na Apple Brasil para um resultado tão bem feito.

O preço é tão abusivo, que vale a pena repetir o exemplo dado pelos twitteiros na madrugada: com esse valor de R$ 3.400,00, você vai até Miami, compra o mesmo iPhone 4S (e mais algumas muambas, para a viagem valer a pena), e volta pro Brasil. Detalhe: sem pagar imposto de entrada pelo smartphone. Afinal, é só colocar o produto no seu bolso, alegar que é para uso pessoal, e pronto.

A tendência é que a Apple sofra com o seu tiro no pé. Samsung e Motorola certamente vão aproveitar esse vacilo da empresa de Cupertino, e venderão que nem água os seus smartphones mais potentes. Principalmente a fabricante sul-coreana, pois em alguns e-commerces da internet, já é possível encontrar o Galaxy S II desbloqueado a R$ 1.600,00 (clique aqui para ver). Você pode falar que o iPhone é melhor que qualquer Android do Universo, que o Siri (mesmo em inglês… ridículo) é foda, e que nada do que escrevi não serve para você. É seu direito. Mas o mundo não é feito só por você (graças à Deus). A maioria das pessoas querem um telefone que simplesmente funcione. A maioria dos usuários não sabe o que iOS, Android, Symbian, WebOS… querem apenas aquilo que atenda as suas necessidades. E, no caso do brasileiro, que não estoure o orçamento doméstico.

Logo, minha crítica vai para todo o cenário criado pela Apple com esse lançamento. Elitizar um produto no país que é o mais promissor em termos de mobilidade no mundo é uma das estratégias mais falidas possíveis. A Apple deixou claro que, para ela, o Brasil é secundário. O que lucrar aqui, lucrou. A concorrência agradece.

Independente de qualquer coisa, fato é que 2011 mostra que todos os envolvidos perderam um pouco a noção das coisas. Alguém precisa tomar alguma atitude, pois tal superfaturamento nos valores de produtos de tecnologia é algo comparado a um assalto na Avenida Paulista numa quarta-feira a tarde. As empresas estipulam seus preços, dando a entender que “se quiser, tem que ser do nosso jeito”, e nenhum órgão regulamentador faz nada. Chegamos ao ponto que somos ridicularizados na imprensa internacional, recebendo o título de “iPhone mais caro do mundo”. Algo precisa ser feito. E o começo poderia ser por nossa própria conta: votando melhor.

E repito o que disse ontem: esse é o meu “tapa na cara” dos adoradores mais chatos da empresa. Para eles, é uma traição um iPhone a R$ 2.600,00. Tudo bem, tem gente que vai comprar? É claro que tem (tem otário para tudo nesse mundo). Mas muita gente vai ficar na saudade, sem poder estourar o orçamento doméstico para poder comprar o tão desejado smartphone.

Me pergunto quais serão as desculpas que eles vão inventar agora para defender a “mágica” e “revolucionária” empresa….