Não me culpem. Estou fazendo apenas uma leitura de como vi tudo aquilo que o Google anunciou ontem (29), em forma de comunicado de imprensa, uma vez que o furacão Sandy impediu que houvesse um evento oficial de lançamento. Entre as novidades apresentadas, temos um recado claro da gigante de Mountain View: não estamos mais para brincadeiras, e queremos fazer barulho no mercado mobile.

Não me entendam mal. Não estou aqui afirmando que o Nexus 7 ou o Neuxs 10 serão os novos tablets dominantes do mercado. Porém, pode causar alguns estragos “em cascata”. Vou explicar: o sucesso do iPad resultou no sucesso dos tablets no mercado de eletrônicos de consumo. Antes, ninguém sabia o que era um tablet. Hoje, a maioria das pessoas continuam não sabendo direito o que é, mas ao menos sabem o que é um iPad, e buscam ou o modelo da Apple, ou soluções que fazem alguma coisa próxima ao que o iPad faz, mas custando menos.

Da mesma forma pode acontecer com os modelos Neuxs 7 32 GB (com 3G e WiFi) e o Nexus 10 apresentados ontem pelo Google. Os lançamentos são atraentes nas configurações e no preço. Afinal, oferecem um hardware muito melhor, um sistema operacional atualizado e em estado puro (Android 4.2 Jelly Bean), e com um preço inferior ao seu principal concorrente. O mesmo já tinha acontecido com o Kindle Fire (o primeiro), lançado pela Amazon a US$ 199, mas o tablet não era tão poderoso quanto o Nexus 7.  E é aí que está a “trollagem”.

Veja bem: tanto Google quanto Amazon já afirmaram que eles não visam lucros com as vendas dos produtos, e sim com o consumo de conteúdos agregados, principalmente com o aluguel de fotos, vídeos e games. Basicamente, segue a mesma receita que a Apple adotou, e que deu certo. A diferença está na agressividade dos produtos, oferecendo um hardware muito mais robusto que o iPad, e com um preço menor que a opção da Apple.

O caso mais emblemático é o do novo Nexus 7, com 32 GB de armazenamento, processador NVIDIA Tegra 3 com quatro núcleos de processamento, conectividades 3G e Wi-Fi e Android 4.2 Jelly Bean, que custa US$ 299, contra o iPad Mini, com 16 GB de armazenamento, processador A5 dual-core, iOS 6 (sem Google Maps) e conectividade Wi-Fi, por US$ 349. Ok, vamos ser justos e retirar o 3G do Nexus 7, e o seu preço cai para US$ 249. Ou seja, US$ 100 a menos que o concorrente. Isso, para mim, é trollagem.

No caso do Nexus 10, a diferença de hardware é menor. O modelo fabricado pela Samsung se destaca mais pela sua tela com maior densidade que o iPad de quarta geração (299 ppp contra 264 ppp, respectivamente). Mesmo assim, o novo tablet com tela de 10.1 polegadas tem preço de US$ 399, contra US$ 499 do novo iPad. Trollagem, de novo.

Não se enganem. Não estou discutindo apenas a questão de preço. Estou discutindo as possibilidades oferecidas para um tipo de consumidor que, na maioria dos casos, vai perguntar para o funcionário da loja: “esse aqui, que é US$ 100 mais barato, faz a mesma coisa que o iPad?”, e o vendedor vai dizer que “sim”. E não estará mentido. E não venha me dizer que “ah, mas o iPad tem mais de 275 mil aplicativos disponíveis…”, pois isso só valeria se cada novo comprador do iPad recebesse um gift card de US$ 100 para gastar na Apple App Store.

E não é só isso. O tal do ecossistema de produtos que a Apple tanto pregou, começa a se fazer valer nos dispositivos Android. Em proporções diferentes, evidente, mas com o mesmo efeito prático. Todo mundo sabe que o mundo dos smartphones é dominado hoje pelo sistema Android, e assim como já aconteceu com os dispositivos Apple, é mais que natural que as pessoas busquem outros dispositivos que se comportem da mesma forma que aquele que ele já possui. E, se você observar os resultados do último estudo trimestral da IDC, vai ver que os tablets Android combinados já contam com 41% do mercado. Essa distância para o iPad já foi bem maior, e com lançamentos como os novos modelos de tablets Nexus, não só o Google sai ganhando com as vendas de seus produtos, mas os demais modelos com Android também acabam sendo beneficiados indiretamente.

É uma pena que o furacão Sandy impediu o evento de ontem em Nova York, pois se o evento ocorresse normalmente, esse escárnio contra a Apple seria ainda mais evidente. Vale lembrar que, na apresentação do iPad Mini, Tim Cook fez todo o esforço do Universo para provar que o seu novo produto era melhor que o seu principal concorrente. Logo, seria muito válido se Eric Schmidt respondesse tudo isso com um “o Android é o sistema que mais cresce no mundo dos tablets, e o Nexus 7 oferece muito mais que o nosso concorrente, custando US$ 50 a menos”.

Por fim, o Google mais uma vez mostra que está na briga. Não será o maior vendedor de tablets do mercado, mas dificilmente os novos modelos não serão sucesso de vendas. É bom a Apple começar a se coçar. A desculpa do “já retemos o nosso público, e não precisamos inovar mais” está colando cada vez menos. A concorrência chegou de vez.