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Quando as pessoas saem por aí falando (e escrevendo) que o HTC First é um fracasso (e eu não nego isso, porque é mesmo), muitos culpam apenas e tão somente o Facebook Home e sua existência. Afinal, o software consegue centralizar todas as experiências do smartphone no mundo do Facebook, limitando o smartphone à proposta de Mark Zuckerberg, e nada mais. São argumentos jutos, mas não podemos nos limitar à isso.

O Facebook Home foi um passo arriscado e, hoje (eu reconheço) não bem sucedido. Concentrou tudo aquilo que as pessoas gostavam no Facebook, e colocou na interface. Porém, removeu tudo aquilo que as pessoas gostavam no Android, e não deu nenhuma satisfação para ninguém. E as pessoas não gostam disso. Porém, se voltarmos para o ano de 2010, vamos ver que a HTC também tem a sua parcela de erro, repetindo inclusive alguns dos erros cometidos pela Microsoft com os lançamentos dos modelos Kin One e Kin Two.

Os dois smartphones da Microsoft foram descontinuados muito rapidamente, e apostavam na mesma proposta executada pelo HTC First: ser um smartphone completamente social. A linha Kin tinha a sua própria interface de usuário, que voltava para o lado “social” da coisa de todas as formas possíveis: simples para postar mensagens nas redes sociais, acesso rápidos aos contatos, rápido compartilhamento de fotos para qualquer site, entre outros recursos.

Era o “tudo pelo social”. Literalmente. A única diferença entre a proposta do passado e a do presente é que a Microsoft não tinha medo de admitir que o produto era iminentemente  voltado aos adolescentes e jovens adultos, enquanto que a HTC/Facebook apostou na ideia que todos usariam a Facebook Home, independente da faixa etária.

Amigos, vamos ser francos e diretos. Os usuários mais novos usam a tecnologia com uma perspectiva diferente dos usuários mais velhos. Com os meus 34 anos de vida, tenho a minha própria forma de observar o mundo da tecnologia, que é bem diferente daquela que minha esposa, que é bem mais velha do que eu, possui. Do mesmo modo os meus sobrinhos, que na média, estão com a metade da idade que eu tenho hoje, acabam vendo o mundo dos gadgets e computadores de uma forma muito diferente da minha. Logo, é impossível que todos usem a mesma tecnologia, da mesma forma. A tecnologia pode ser a mesma, mas os focos serão diferentes, e a própria história da tecnologia mostra isso.

No caso do Kin One e Kin Two, os dois smartphones jamais alcançariam sucesso, pois os projetos gritavam “desespero” para os quatro cantos do mundo. Por mais que os usuários hoje estejam obcecados pelas redes sociais, isso não quer dizer que esses mesmos usuários querem dedicar todo o seu tempo no smartphone para as redes sociais. Até porque um smartphone vai muito além disso. Eu já fico bem menos tempo no Twitter do que eu ficava antes (apesar de mantê-lo aberto o tempo todo aqui), e não uso o Facebook com essa frequência toda (só tenho pela formalidade).

Nos smartphones com Android e iOS, o Facebook e o Twitter são aplicativos que recebem destaque em relação aos demais, mas são apenas aplicativos. Não podem consumir toda a experiência de uso do dispositivo. No caso do HTC First, você tem o acesso garantido aos demais aplicativos do dispositivo, mas você ainda tem o envolvimento da Facebook Home no momento que você fecha um aplicativo. Ou seja, é um smartphone que é o tempo todo social, mesmo que você não queira.

Isso é simplesmente inaceitável. Ninguém vai suportar isso por muito tempo.

Você até pode argumentar que os smartphones hoje são sociais de alguma forma, uma vez que eles são dispositivos de comunicação. E eu te digo: também são isso. E digo mais: em um smartphone “normal”, ele só é um dispositivo de comunicação na hora que você quer que ele seja, sem forçar a barra. Se você quer simplesmente ouvir uma música, ou jogar um game, ou ver vídeos, o seu smartphone deixou de ser um dispositivo de comunicação social, para ser um gadget de entretenimento. Simples assim.

Logo, até eu admito que errei na aposta. Na teoria, a Facebook Home parecia muito interessante no seu conceito, uma vez que os viciados no Facebook iriam adorar ter um telefone centrado nele. Mas, na prática, quando você vê que nem mesmo os viciados no Facebook aceitaram a proposta, você percebe que alguma coisa está muito errada. E estava. Não ter a possibilidade de poder se livrar dessa interface na hora que você quiser é um grande tiro no pé da Facebook e da HTC.

Logo, muito provavelmente, estamos diante de mais um #fail histórico do mundo da tecnologia. O produto já está tendo o seu lançamento em alguns mercados. Mais um pouco ele vira peça de colecionador. Assim como aconteceu com o Kin One e o Kin Two, da Microsoft.