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O Rappa | A Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero) | Lado B, Lado A | 2000

às vezes eu falo com a vida
às vezes é ela quem diz
qual a paz que eu não quero conservar
pra tentar ser feliz

Esse é o meu videoclipe definitivo na MTV Brasil. Nenhum videoclipe nacional é tão impactante e tão bem sucedido quanto “A Minha Alma”. Foi lançado no auge do videoclipe nacional, em um momento onde as gravadoras injetavam muito dinheiro para produzir clipes como esse. E, nesse caso em especial, é o que posso chamar de videoclipe perfeito.

A proposta de apresentar toda a narrativa em preto e branco reforça a proposta de videoclipe documentário, aumentando ainda mais a imersão de quem está vendo nas ações do clipe. Além disso, a banda quase não aparece (mais: não aparece tocando ou cantando a música), e isso foi perfeito. Apenas trilhou as cenas, com um testemunhal de um dos problemas mais graves da nossa sociedade: a violência. Que, em muitas vezes, acontece à troco de nada. Ou quase nada.

Eu confesso que tenho mais medo de levar um tiro do que de morrer. Para não levar um tiro, eu ando direito, e tento não me envolver com as pessoas erradas. Porém, nunca sabemos quando que o tumulto vai acontecer e onde. Isso me preocupa, mesmo morando em uma cidade do interior. Aliás, morar do interior não me deixa livre da violência. Ela só é mais focalizada em situações específicas. Mas ela existe, infelizmente.

Três detalhes tornam esse clipe muito especial para mim. O primeiro é que a banda O Rappa contou com atores e membros da comunidade para participarem das gravações. Nenhum grande ator foi chamado para participar do clipe, pois a banda queria que tudo acontecesse de forma natural e orgânica. E isso gerou consequências (e o meu segundo item): a cena de quebra-quebra que aparece no videoclipe, em um determinado momento, se tornou um quebra-quebra real, já que a maioria das pessoas no local não sabiam que era uma gravação de um videoclipe. A polícia e os bombeiros foram chamados para contornar um caos que se tornou real.

E o terceiro, e o que mais me fez gostar desse clipe: a entrega daquelas pessoas para a realização do videoclipe.

Uma das “atrizes” do clipe era uma das mães da própria comunidade. Em uma das cenas, ela encontra o seu filho que foi morto por um dos policiais. É claro que ninguém morreu ou se feriu nas gravações, mas a mãe se envolveu tanto com a situação, que ela se emocionou de verdade. Permaneceu chorando de forma sofrida e copiosa depois que a cena terminou, e por muitos minutos. Precisou ser amparada para sair do local da gravação.

Ou seja, é o sinal claro que a arte imitou a triste realidade daquele local.

É, para mim, o videoclipe que, de tempos em tempos, precisa ser visto, para que todos se lembrem que esse quadro precisa ser mudado.

 

A MTV Brasil chegou ao fim. Depois de 23 anos ajudando a formar duas gerações de fãs de música, o canal original chega ao fim, para iniciar uma nova fase como canal da TV paga, se chamando apenas “MTV”. Me permito ser saudosista, pois vi e vivi essa história nascer, crescer, evoluir e decair, passo por passo. Não vou aqui dizer que a MTV do passado é ou será melhor que a que está por vir. Mas que essa nova fase represente o efetivo renascimento de uma nova fase até mesmo no cenário musical brasileiro.

Eu sei que a “geração millenium” (público-alvo da nova MTV) não vai voltar a ver os seus videoclipes preferidos na TV. Mas que a MTV seja um ponto de referência para que o grande público encontre entretenimento e música, com a chancela de uma das marcas mais fortes do mundo.

E, quem sabe, que ela volte a ser um pouco a “Music Television”. Nem que seja por algumas horas por dia.

Quem gosta de música em qualquer lugar vai agradecer, e muito.

Para saber os critérios dessa escolha, clique aqui.