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Talvez eu não precisasse escrever sobre essa música. Bastava deixara a letra para vocês, e pronto. Porém, de forma quase tola, eu venho aqui dizer que me identifico completamente com cada palavra dessa canção.

Eu não ando. Eu corro. Vejo tudo e todos passando por mim em alta velocidade. Eu gosto de seguir em alta velocidade. A adrenalina me excita. Me impulsiona a passos maiores. É dessa forma que me sinto vivo.

Apesar de afirmar por algumas vezes que eu gostaria de ver o mundo de forma mais calma, observando a paisagem e o caminhar das pessoas, eu confesso que eu não consigo. Não nesse momento da minha vida. Quem sabe no futuro. Sei que um dia eu vou aprender a ver o mundo e a minha vida com olhos mais tranquilos, em velocidade de cruzeiro. Apreciando as árvores ao meu redor, o céu azul e a simplicidade das pessoas que caminham tranquilamente, aproveitando cada segundo.

Mas nesse momento, eu não sou assim. Eu não consigo ser assim. Eu não posso ser assim.

O tempo passa rápido demais, e eu já perdi muito tempo na vida.

Perdi tempo em esperar que as coisas acontecessem. Perdi tempo em não tomar iniciativas que me levariam para um lugar melhor. Perdi tempo em dar ouvido para as pessoas erradas. Perdi tempo em valorizar quem não tinha tanto valor assim.

Eu estou sempre correndo. Correndo contra o tempo e o espaço. Correndo contra o tempo perdido de minhas realizações, em busca de objetivos, metas… sonhos. Eu confesso que luto para não correr demais a ponto de não mais ter tempo para sonhar. É conflitante isso: passo boa parte da minha vida correndo atrás de meus sonhos, e isso está tirando o tempo de pausa para que eu tenha novos sonhos.

Eu tenho sonhos. Ainda não parei de sonhar. E, por isso, entro em outra corrida desenfreada para não perder em mim o desejo de ter e realizar meus sonhos. Corro todos os dias para impedir que os eventuais obstáculos do caminho em forma de pessoas não tenham a oportunidade de massacrar meus sonhos.

Eles já fizeram isso no passado. Hoje, não fazem mais. E ando depressa para me certificar que não farão isso de novo.

Eu sei. É fuga. Fujo sim do meu passado.

Muitas coisas foram boas. Mas outras tantas foram muito ruins. Eu sei que o passado fica no passado, pois lá é o seu lugar. Mas… quando ele se materializa em um pai que acha que sabe tudo, em irmãs arrogantes e omissas…. enfim, deixa eles para lá. Não posso culpá-los por serem assim. A culpa é minha.

A culpa…. é somente minha. Por isso, fujo de mim mesmo.

Eu me culpo por não ter tomado medidas radicais antes. Por não ter virado a mesa antes. Por ter me omitido quando testemunhei os problemas acontecendo. Por ter aceitado que o problema era eu, quando na verdade, todos eram problemáticos.

Eu fujo de mim mesmo. Para me dar uma nova chance de ser feliz. Fujo daquele eu covarde, egoísta, ingênuo e babaca, que tinha medo de tudo, e que queria agradar a todos. Fujo de um eu que merece ser morto e enterrado no passado, que não vai voltar para acabar com quem eu sou hoje.

Não queria mais viver em uma realidade onde me sentia esquecido pelo mundo. Eu queria mudar. Queria na verdade fazer as coisas para ser feliz. Hoje, não me preocupo se serei lembrado. Em alguns momentos até agradeço por ser esquecido. Para mim, hoje vale muito mais ser lembrado pelos poucos e bons amigos.

Eu sigo em frente. Determinei minhas estradas nos últimos anos, deixei minhas marcas no caminho, e voltei algumas vezes para o lugar de onde eu parti. Algumas vezes fiz acertos de contas com quem me feriu. Outras eu pude receber o abraço apertado, cheio de saudades, de quem sempre me pergunta quando vou voltar.

Mas hoje eu sei que partir foi a melhor decisão. Foi o meu grito de liberdade diante de todas as prisões que eu mesmo criei em minha mente. Eu não fugi de ninguém. Antes de partir, enfrentei todos os meus problemas pendentes, e deixei bem claro que estava indo embora por escolha minha.

Ir embora fez com que eu não devesse nada para ninguém.

Eu sigo em frente. Na estrada. Em alta velocidade. Mas não sei onde vou parar. As incertezas do caminho também oferecem um mundo pleno de possibilidades. Várias moradas para ficar, novos amigos a se conhecer, muitas lições para aprender. Abraçar o incerto da vida me deu a liberdade de sentir, pensar, falar e agir… que era algo que eu sempre sonhei ter. Foi o maior presente que eu dei para mim mesmo.

Ter o controle do meu próprio destino.

É curioso… ao mesmo tempo que tenho pressa, e que ando com pressa sempre… eu não tenho mais a pressa de chegar a algum lugar. Porque eu sei que, em algum dia, em algum momento, eu vou chegar.

Sozinho? Não. Eu sou sozinho, mas não me sinto sozinho. Ao pegar a estrada da minha vida, conheci pessoas incríveis, que me acompanham sempre. Seja no smartphone dentro do bolso da calça (obrigado, WhatsApp, pela graça alcançada), seja no coração, que é onde eles moram. Me escutam sempre. Me apoiam sempre. Me mostram sempre por que não devo desistir. Por causa dessas pessoas não fico mais sozinho na escuridão, apesar de que as principais decisões da minha vida eu tomei durante as madrugadas de insônia.

Provavelmente porque eu precisava da escuridão para melhor identificar a luz que iluminaria minha estrada.

Eu fugi sim. Fugi de mim mesmo. E tinha todo o direito de fazer isso. Pois o que eu mais queria era mudar. Decidir por mim. Ter de volta a liberdade de assumir o controle do meu próprio destino.

Mudar é uma forma de fugir do seu eu que você não gosta. É uma forma de se amar. É uma forma de dizer sim para você, sem medos, receios ou mágoas. É se aceitar como humano errante, que precisa progredir por si. Ser feliz por si.

Me desculpe. Vou parar por aqui.

Preciso voltar a prestar atenção na estrada.



“120… 150… 200 km por Hora”
(Roberto Carlos, Erasmo Carlos)
Roberto Carlos, 1970


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