Compartilhe

Essa é uma carta dividida em duas partes. Ela começa no futuro, e termina no presente.

Em 1º de Julho de 1995… 

Meu filho,

Você cresceu. Está se tornando homem. Ainda não é um ser completo, mas sei que está a caminho. Por outro lado, estou preocupada com você.

Estou preocupada comigo também.

Eu sei que eu errei! Sei que fui inconsequente, intempestiva e até agressiva com você. Sei que não soube olhar para os seus anseios e suas dores. Sei que fui ansiosa com suas falhas. Sei que me esqueci do tempo em que eu passei por tudo o que você está passando agora. E não me preocupei em dizer que tudo isso vai passar.

Por outro lado… eu não quero que você sofra o que eu sofri. Não quero que passe pelos mesmos problemas que tive que enfrentar pela minha pouca experiência de vida. Quando você nasceu, eu já tinha suas irmãs, mas não sabia lidar com um homem novo na minha vida. Sempre achei que seu pai seria o meu único e verdadeiro amor. Mal sabia eu que ele não era nem único, nem verdadeiro.

Chegou você… e eu me apaixonei perdidamente. Um sentimento muito nobre invadiu meu coração.

Eu não queria te perder, mas… sinto que estou te perdendo. Perdendo para o mundo, para a vida, para seus amigos e até para o seu primeiro amor. Eu fiquei com medo. Me apavorei em me ver mais uma vez só, perdendo de novo alguém que amei por conta de terceiros.

Então, eu agi errado com você. Te machuquei física e emocionalmente. Me perdi no devaneio de querer você por perto até o fim, quando na verdade eu tinha que te dar a maior prova de amor que eu poderia te oferecer para ter você comigo para sempre: te deixar livre.

Por favor, entenda, meu filho… eu não fiz tudo isso para me vingar de você. Eu fiz tudo isso por medo. Eu sofro com a velhice, com o abandono e com a indiferença. Sofro em sentir que não sou mais uma influência na sua vida, em ver que não tenho mais o que te ensinar.

Em saber que você vai sofrer e aprender com os seus próprios erros. E eu não vou poder fazer absolutamente nada para evitar tudo isso.

Por favor, filho, não me entenda mal. Eu não estou me vingando ou te amaldiçoando. Estou apenas dizendo uma verdade da vida. Ela vai bater com muita força em você, e eu não vou poder te defender dela. No passado, eu virei uma leoa, comprando suas brigas, te defendendo de quem te ofendia e até me expondo para ver o seu bem. Hoje, você cresceu, e tenho que aceitar que é você quem vai fazer isso.

Suas atitudes sensatas e, principalmente, as insensatas, trarão consequências. E tudo isso é o reflexo do que você aprendeu comigo também. Eu me sinto responsável pelo seu sucesso ou fracasso na vida, mas me sinto mais responsável ainda por você ser ou não uma pessoa de bem.

Filho, por favor, olha para mim! Eu não minto! Eu te amo muito, mas não posso evitar de te pedir, de implorar… se cuida! Tome cuidado com seus pensamentos e atitudes. Pela última vez, ouça sua mãe… tente não se machucar pelas estradas que vai seguir. Se você se machucar, vai me machucar também.

Eu sei… você está furioso comigo… mas tenho certeza que você vai me perdoar.

Porque seu coração é feito de amor, assim como o meu. Eu me enchi de amor para me submeter aos sacrifícios que trouxeram você ao mundo, e com muito amor te ensinei o melhor de mim, para que você aprendesse através do amor. Sei que falhei em muitas coisas na vida, principalmente aquelas que te fizeram sofrer através das minhas decisões tomadas com insensatez e medo. Mas não falhei na nobre arte de amar você.

Meu filho… você é o homem da minha vida. O grande amor que eu guardei para um homem que um dia será especial. Para mim, e para muita gente.

Filho… obrigada por mudar minha vida. Profundamente. Obrigada por me salvar de mim mesma.

Obrigada por tornar realidade o que eu escrevi para você, 16 anos antes dessa carta…

Em 1º de Julho de 1979…

Meu filho,

Você chegou. Você nasceu! Você é meu!

Eu pedi tanto que você nascesse! Eu pedi à Deus por você. Quando soube que você estava chegando, eu já comecei a te amar. E minha vida começou a mudar sensivelmente.

Para você chegar, eu tive que banir da minha vida o sal e o café. Por você, e por mim. Se eu não fizesse isso, não iríamos nos conhecer. E eu queria conhecer o novo amor da minha vida.

Você agora está nos meus braços. Sinta o meu calor. Sinta o meu amor. Me deixa sentir o seu calor também. Me deixe sentir o que você tem de mais puro para me oferecer. Me inspire com a sua pureza de ser, com a beleza de sua pequenez. Com a sua alma que ainda vai se desenvolver.

Desde já, obrigada por entrar na minha vida. Nós vamos viver uma aventura fantástica juntos, onde eu espero poder te ensinar algumas das coisas boas que aprendi depois tantos anos de vida nesse planeta. E eu quero aprender com o seu pequeno grande coração.

Quero reaprender a amar. Amar de uma forma nova, diferente e inesquecível.

Você já tem duas irmãs. Meninas brilhantes, que amo do mais profundo do meu ser.

Mas você é diferente! Você é o pequeno grande homem que eu sonhei pela minha vida toda. Você é aquele homem que eu vou amar até o fim dos meus dias. Aquele que eu vou cuidar, proteger, velar o sono, dar saúde, educação, carinho… amizade, respeito, cumplicidade… amor!

Você é o meu mais novo e sincero amor!

Vamos brigar? Sim! Muitas vezes. Eu vou te machucar e te decepcionar muitas vezes. Mas tenha a certeza que, em meu coração, eu vou te amar desesperadamente. Vou sofrer com você ao ver suas lágrimas correndo pelo rosto, vou vibrar com suas vitórias. Vou te abraçar apertado, também para colar os pedaços que em mim estarão quebrados pelas suas dúvidas, inseguranças e tristezas.

Tenha em mim a sua fortaleza. Aquela velha árvore que não vai cair, não importa a tempestade. Apenas para te proteger. Apenas para oferecer minha sombra.

Apenas para você sempre voltar e descansar nos meus braços.

Obrigada, meu filho…

Obrigada por você chegar. Obrigada por querer ficar. Obrigada por ser uma parte de mim que vai me superar.

Eu repito: eu vou realizar meu sonho de aprender com o seu pequeno grande coração.

Vou ser mulher duas vezes. Por amar o homem mais espetacular da minha vida.

Trarei sempre em mim o orgulho de dizer para quem quiser ouvir, a qualquer momento, em qualquer lugar…

“Esse vencedor que vocês estão aplaudindo… é o meu filho!”.

Com o carinho de quem vai te amar por toda a eternidade…

Sua mãe.

“1º de Julho”
(Renato Russo)
Cássia Eller, 1994


Compartilhe