ayrton in car

Eu me lembro desse dia. Eu e todo mundo que gosta de automobilismo. O duro é que eu me lembro como se fosse hoje. Acho que como todo fã de F1, eu estava assustado com os acontecimentos daquele final de semana. Tudo estava acontecendo muito rápido, não só na pista, mas fora dela. Na verdade, tudo o que aconteceu no final de semana de 1º de maio de 1994 aconteceu muito rápido. Tudo terminou tão rápido.

Eu tinha um ritual. Eu acordava às 8h da manhã nos domingos de corrida. Assistia ao Globo Rural (por incrível que pareça), e procurava não fazer barulho para acordar meus pais e minhas irmãs. Esperava pacientemente a corrida começar. Naquele dia, eu estava impaciente. Não pelo o que estava por vir, mas pelo o que já havia acontecido. A brincadeira estava perigosa demais, e isso estava na cara de todo mundo.

Naquele dia, eu me lembro que, às 9h17, eu vi o que aconteceu, saí correndo para a cozinha, e contei para a minha mãe. Ela, sem ver a corrida, sentenciou o que aconteceria pouco mais de quatro horas depois. Particularmente, eu não queria acreditar que aquilo tinha acontecido, daquele jeito, naquele momento. Ok, a Tamburello é uma curva perigosa, é praticamente uma curva do Indianapolis Motor Speedway em um circuito misto. Mas era fácil fazer aquela curva.

Tanto, que tanta gente bateu, em acidentes igualmente feios, e (quase) todos sobreviveram.

Mas não ia ser assim.

Foi tudo muito rápido. A volta 7, a perda de controle, a desaceleração, a batida, a desaceleração. Talvez o que não tenha sido tão rápido assim foi o atendimento em pista. Mas hoje eu entendo que isso não teria adiantado de muita coisa. Tudo aconteceu ali, na Tamburello. Por mais que Bernie Ecclestone diga que não. Quem viu, sabe disso.

Eu me lembro do dia 1º de maio de 1994 como se fosse hoje, mesmo 20 anos depois. Minha mãe, que passou anos da minha vida me acordando de madrugada para ver os GPs do Japão e da Austrália, que nessa época já nem me acordava mais (porque meu relógio biológico gritava F1 aos domingos), ficou inconsolável. Meu pai, que ajudou a alimentar esse vício chamado F1, estava pasmo. Minhas irmãs, que pouquíssimas vezes viram F1 na vida, tentavam encontrar explicações para o que aconteceu.

Eu, simplesmente, fiquei pasmo.

Desde 1986 a F1 não via a morte de perto. E em um final de semana, vimos várias. Não só os dois pilotos: espectadores na largada e um mecânico foram vítimas de acidentes extras na corrida vencida por Michael Schumacher. Aliás, poucas vezes vi um germânico chorando como criança como naquele dia.

Em 1º de maio de 1994, vi torcidas rivais como as de Palmeiras e São Paulo se unirem para homenagear um ídolo em comum. Me lembro muito bem disso.

O tempo passou. Rápido demais. Rápido como ele era.

20 anos se passaram, e apesar de sempre torcer mais por Nelson Piquet (desculpa, mundo), é impossível não sentir um certo peso no peito ao lembrar do dia de hoje. Ayrton Senna foi embora desse mundo aos 34 anos de idade, com 3 títulos mundiais de F1, 41 vitórias em 161 corridas, 66 poles, 2.982 voltas na liderança, e deixando um vazio insubstituível em milhões de brasileiros e fãs da F1 ao redor do planeta.

Senna foi um daqueles que ajudam a tornar esse esporte apaixonante. Revolucionou com um estilo agressivo, impulsivo, desafiador. Um dos melhores pilotos que esse esporte já viu. Sua história na F1 durou 10 anos, mas será contada por todos nós para sempre. Jamais será esquecido.

Não abandonei a F1 depois da morte de Senna. Vi todos esses 20 anos passarem diante dos meus olhos. Vi a Williams ser perfeita de novo, Schumacher criar uma dinastia, Alonso ser bicampeão, Vettel dominar a F1 com uma incrível Red Bull. Eu sempre gostei mais do esporte do que dos pilotos. E sou grato por ter continuado. Mas tudo isso passou depressa demais diante dos meus olhos. Parte desse gostar ainda ficou em 1º de maio de 1994. E não saiu mais de lá.

Hoje, 20 anos depois, a F1 tem uma geração brilhante, com Alonso, Vettel, Hamilton, Rosberg, Massa… ótimos pilotos. Mas sentimos falta de Ayrton Senna. Porque 10 anos foram muito pouco.

E porque 20 anos passaram rápido demais.