Todo mundo se lembra onde estava em 1 de maio de 1994.

Todos nós esperamos ele sair do carro e simplesmente caminhar. Porém, nenhum de nós somos capazes de realmente dimensionar o que é bater um carro a 300 km/h. E quem bateu e sobreviveu para contar pode ser chamado de super humano. Mas não sair do carro naquele 1 de maio de 1994 não deixou ele menos super do que já era. Só mostrou que ele era tão mortal quanto eu e você. E, em função disso, se tornou eterno para todo o mundo.

Eu sempre fui fã de Formula 1 e do automobilismo em geral. E continuo a ser. Diferente do brasileiro médio (que só assiste esporte que tem brasileiro ganhando), eu continuei a acompanhar as corridas, pois alguém precisava testemunhar como essa história iria continuar. Talvez eu estivesse frio demais para o impacto de tudo o que aconteceu naquele final de semana em Ímola, apesar de ter plena consciência que aquele foi o final de semana mais trágico da história da categoria.

Vou confessar que eu cometi um grande erro. Uma das poucas coisas que justificariam da minha parte uma volta no tempo e um resgate de atitude, para melhor compreender o sentimento do coletivo. Algo que eu deveria ter feito inclusive com aquelas pessoas que são afetivamente mias próximas de mim.

Eu não chorei a morte de Ayrton Senna.

É claro que eu fiquei em choque com tudo o que estava acontecendo, mas não senti a dor de uma nação inteira. Em minha mente, estava a racionalidade de entender que o automobilismo é um esporte de risco, e que as possibilidades de você sair do carro sem vida são enormes. Na verdade, me revoltou mais a corrida acontecer mesmo com a morte de Roland Ratzenberger no dia anterior, mas todos me convenceram que a vida tem que continuar, o show não pode parar e as corridas devem acontecer até mesmo para honrar aqueles que deixaram o sangue na pista.

Até que um dos nossos foi embora.

Na época, eu só pensava que um dos mais talentosos pilotos da história perdeu a vida por uma fatalidade. Uma curva, uma peça que quebra no carro, uma barra de suspensão que pega exatamente no ponto mais débil do capacete. Não existem culpados. Tudo aquilo tinha que acontecer. Ayrton Senna tinha que perder a vida naquela pista, naquele 1 de maio de 1994.

Isso se chama destino. Acredite você ou não, ele existe. E a morte de Ayrton Senna é uma prova disso.

O tempo foi passando. A vida foi ensinando. A Formula 1 foi contando a sua história depois desse trágico final de semana. Eu vi Michael Schumacher dominar a categoria de forma plena, Sebastian Vettel conquistar quatro títulos, e hoje vejo Lewis Hamilton a caminho de ser o melhor de todos os tempos nas estatísticas. Os 25 anos de Formula 1 que eu testemunhei foram incríveis. É uma pena que muitos de vocês não viram isso.

Mas eu entendo cada um de vocês.

Recentemente, eu procurei no YouTube as matérias sobre a comoção nacional após a morte de Ayrton Senna. Eu estava lá. Eu vi tudo isso. Mas com a irracionalidade dos meus 15 anos era impossível dimensionar o quanto todos perderam com essa morte. O Brasil parou, eu sei. Mas eu não imaginava que uma nação inteira pudesse sofrer tanto.

Ayrton Senna representava para muitos brasileiros o Brasil que deu certo. Era o espelho para quem luta e quer vencer, pois não desistia nunca e não entregava os pontos. Muita gente encontrou naquele piloto uma fonte de inspiração para seguir em frente, apesar das dificuldades, pois entendia que aquele era um exemplo em como prosperar.

E sem essa referência… o que o povo brasileiro iria fazer? Acreditar em políticos corruptos? Acreditar em jogadores de futebol intelectualmente rasos?

Eu devia ter chorado junto com a minha mãe, que chorou a morte de Ayrton Senna por três dias. Ela via nele muito mais que um piloto. Era um ídolo, um filho. Tudo o que eu fiz foi tentar consolar ela, dizendo “é assim mesmo, é um esporte de risco…”. Como eu fui frio com ela!

No final das contas, foi horrível chorar sozinho diante da tela do computador que rodava vídeos no YouTube, exibindo uma matéria atrás da outra sobre a comoção do povo brasileiro. Foi horrível não ter quem abraçar para processar o sentimento de perda. Na verdade, foi necessário o processo de envelhecimento e algumas perdas pessoais para compreender e assimilar o que representou a perda de Ayrton Senna para todos nós.

25 anos depois da morte de Ayrton Senna, e parece que foi ontem. Foi algo tão impactante na vida de todos nós, que a impressão que eu tenho é que 25 anos passaram muito rápido. Muitos de nós simplesmente não conseguiram processar esse sentimento. Eu, inclusive. E eu nem era tão fã de Ayrton Senna assim (sempre gostei mais do Piquet).

É claro que hoje eu choro a morte de Ayrton Senna. Eu não sei quanto tempo vai levar para essa dor passar. Talvez nunca passe. E isso significa que até para mim esse cara foi gigante. Seu legado de três títulos mundiais mostrou para a minha geração que “sem luta não há vitória”. É um mantra que eu vou carregar comigo até o fim da vida. Além do legado para o esporte: não apenas inspirou pilotos como Schumacher, Vettel e Hamilton (e tantos outros que vieram depois), como também reforçou a segurança de um esporte que, no passado, era considerado um flertar com a morte. Depois de Senna, apenas uma vítima fatal nas corridas de Formula 1 (Jules Bianchi, GP do Japão, 2014).

Eu espero sinceramente que um dia o meu cérebro e o meu coração apaguem de uma vez por todas as imagens de 1 de maio de 1994. Até lá, vou seguir solidário com as lágrimas derramadas pelo povo brasileiro por perder Ayrton Senna. Eu não me lembro mais quantas vezes eu agradeci por sua passagem pelo mundo do automobilismo.

Com Senna, meu vício pela velocidade só aumentou.

Sem Senna, sempre vou ter a impressão que falta um carro no grid.

Lembrando: só o brasileiro sabe o que quer dizer a palavra SAUDADE.