Compartilhe

Eu tentei não escrever sobre isso. Mas foram 80 tiros.

Um pai de família. Um músico, como eu sou. Gente decente. Negro. Estava com a esposa e o filho de apenas sete anos dentro do carro. Estava saindo do trabalho e levando a família para um chá de bebê. Povo negro. Preto. Pobre. Trabalhador. Cuidando da sua própria vida. Dirigindo o seu carro.

Ele morreu. Aos 51 anos. Seu carro foi alvejado com 80 tiros vindos de oficiais do Exército brasileiro. Eram suspeitos? Não. Talvez fossem suspeitos por terem cinco pessoas negras dentro de um carro branco. Pelo visto, esse é o critério para as “autoridades” determinarem um suspeito, uma vez que está ficando cada vez mais claro para mim que as autoridades do Exército brasileiro não contam com serviços de inteligência ou oficiais aptos a investigar antes de atirar.

80 tiros. Não foi um equívoco. Não foi um acidente. Foi uma chacina, sem qualquer tipo de critério.

E não me venha com o discurso de “se fosse gente de bem, não estava passando por ali”. A via é pública. O ataque foi durante o dia. Não encontraram armas no carro. No máximo uma criança de sete anos de idade com medo de morrer.

Hoje, vivemos em um tempo onde as autoridades estão com a arma na mão e autorização para atirar para matar. E quem é negro, como eu, se tornou alvo deles. Eu posso dizer isso com propriedade: aqui em Florianópolis (SC), antes mesmo de ser um morador da cidade, eu fui considerado “suspeito” porque eu estava dentro de um Uber, à 1h da manhã, com um motorista negro, acompanhando uma senhora branca de 73 anos de idade até o apartamento dela (onde eu também estava hospedado).

Quando eu disse que eu era jornalista de São Paulo, os policiais que abordaram o carro exigindo que eu descesse do carro e me afastasse da senhora mudaram o tom do discurso. Mas aí, já era: a abordagem foi sem motivo ou argumento. A abordagem já era preconceituosa.

Talvez seria algo mais agressivo se uma senhora branca de idade não estivesse na abordagem. Mas como eu era considerado suspeito mesmo vestido com traje social…

80 tiros. O Exército não se enganou. Escolheu um alvo e atirou. E o fez porque eram cinco negros dentro de um carro branco. Seguiram as ordens de um superior que acredita que o negro deve ser marginalizado, humilhado e exterminado. Por ser negro.

Ah, e antes que venham falar qualquer outra asneira… fiz o mesmo com a chacina contra Marielle Franco, e faço o mesmo agora. Eu pergunto: quem deu a ordem? Quais eram os interesses? Por que temos autoridades de segurança tão burras e violentas?

Não é só racismo. É ignorância. E em vários níveis.


Compartilhe