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Essa coisa linda que você vê acima responde pelo nome iPhone 5c. E ele não é um iPhone de baixo custo. Ele é o iPhone 5 repaginado. E isso precisa ficar bem claro logo de cara.

Através do lançamento desse smartphone, a Apple, Tim Cook, Phil Schiller e toda a patota de Cupertino mandou dois recados: o primeiro é “não damos a mínima para os mercados emergentes” (uma vez que esse iPhone custa US$ 700 na versão mais barata na China), e o segundo, para os adversários, que é “não temos medo de vocês” (mas pintamos o nosso iPhone de várias cores, tal como vocês fizeram… mas não temos medo de vocês).

A ideia de um iPhone de baixo custo tinha como teoria (na mente de especialistas, analistas, jornalistas e blogueiros) frear o progresso dos smartphones da linha Nexus, que são muito baratos, e oferecem mais que o iPhone oferece hoje. Mas… pra quê se preocupar com a Google, se o inimigo de verdade é a Samsung? Afinal de contas, o principal argumento de Phil Schiller para responder o domínio massacrante do Android no mercado (80% dos dispositivos móveis do mundo rodam hoje o sistema da Google) é repetir, por diversas vezes, “esse telefone é livre de Android”. Muito bem, Schiller. Fica aí com 11% do mercado e se dê por feliz. Agora, volta a elogiar o seu smartphone concebido pelos membros da família Restart.

Aliás, onde estão os fanboys que tripudiavam as outras marcas por fazerem smartphones de plástico? Não só a Apple descontinuou rapidamente o iPhone 5 (que descanse em paz), mas também achou uma solução mais barata PARA A APPLE. Ou vai me dizer que policarbonato é mais caro que qualquer metal que você encontra por aí?

Com isso, a Apple matou dois problemas com um lançamento: reduziu os custos de produção de um produto por outro mais barato de ser fabricado (aumentando assim os seus lucros – até porque o iPhone 5c custa, em alguns casos, mais caro que o iPhone 5, ambos desbloqueados), e apresentou um produto novo, com um formato novo, e cheio de cores. Porque é isso que eles entendem que as pessoas querem!

Telas maiores? Pra quê? Até porque o iOS 7 é todo pensado em uma tela que é maior… na vertical! É tudo o que os usuários da Apple precisam. Até porque a Samsung mente quando informa que vende milhões de unidades dos telefones da linha Galaxy que, curiosamente, tem uma tela “só um pouco maior” que a do iPhone. Mas só um pouco.

Aliás, parabéns, Apple. Vocês conseguiram esconder tudo dos chineses. Só que não! 99% das informações anunciadas no keynote já eram de conhecimento público. iPhone de “prástico”, iPhone dourado (que brega isso), identificador biométrico… tudo já era sabido. Talvez o que ninguém sabia antes era como tudo funciona, e essa parte até foi interessante, pois era uma novidade. Mas na informação. Em termos de inovação? Zero.

E pior: os preços dos produtos foram uma amarga surpresa. Principalmente no caso do iPhone 5c.

Sabe, algumas pessoas acham “normal” as ações da Apple despencarem quase 10% em dois dias por causa de um anúncio de um novo produto. Mas no caso do iPhone 5c, tudo levava a crer que, pela proposta de construção com materiais mais simples, entendia-se que o produto seria um iPhone “de baixo custo”, com valores menores para a versão sem contrato de permanência com operadoras de telefonia móvel… ledo engano.

Antes de seguir, devo lembrar aos amigos que, pela primeira vez na história, a Apple atualizou um iPhone, e a versão atualizada é “ligeiramente mais cara” que a versão anterior. Seria por causa do identificador biométrico? Ou para pagar o iPhone dourado?

Voltando… o iPhone 5c custa o mesmo do iPhone 5, é a mesma coisa nas suas especificações básicas (incluindo o processador), e tem uma carcaça de policarbonato (que, de novo, tem menor custo de fabricação que uma carcaça metálica). Logo, é um iPhone “de baixo custo” para a Apple, e não para você. Quem está lucrando na venda por unidade desse produto é a Apple, não quem vai comprar esse novo modelo.

Sem falar que o valor de mercado do iPhone 5 despencou, pois foi descontinuado. Ou seja, recebe atualizações de software, mas fica no mesmo status de relevância que o iPhone 4, que também foi descontinuado. Sem falar que, com o passar do tempo, a manutenção desse seu iPhone 5 vai ficar o olho da cara. Ou seja, boa sorte daqui pra frente.

E isso porque eu não estou falando de inovação. Só estou falando de estratégia de mercado.

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Mas o que realmente deixou a maioria dos analistas chocados (e talvez alguns acionistas suando um pouco mais frio) foi a inacreditável banana que eles deram para o mercado chinês. De novo, parabéns, Apple. É preciso ter uma explicação realmente muito boa para ignorar, de forma quase patética, aquele que é o mercado emergente mais cobiçado do mundo, ainda mais com o mercado ocidental de smartphones muito próximo de chegar ao ponto de saturação. Ou seja, a Apple pode escolher os seus clientes. Os demais, não podem.

Olha, eu não escolho meus clientes. Se vejo uma oportunidade de negócio, eu aproveito essa oportunidade.

Para a Apple, “baixo custo” pode ser “refugo”. Ou “tecnologia de três anos atrás”. O iPhone 4 será oferecido de graça na China (com contrato de permanência de 2 anos). Quem quiser, pode ir lá e pegar. Mas além de ser escravinho da operadora por 2 anos, o usuário vai ficar com um smartphone com um hardware de 3 anos de defasagem, e por mais que o iOS 7 seja compatível com o dispositivo, é um produto que já está muito desvalorizado.

Engraçado… para a Google, “baixo custo” é um smartphone novinho, com um hardware mais poderoso que o iPhone 4, com um sistema tão competente quanto o iOS (só quem é burro acha Android um lixo), que já contempla todas as possibilidades do iPhone… bom, “só um pouco diferente” do que a Apple oferece. Mas.. quem liga pra isso, né? “Estamos dando o smartphone de graça. Logo, não reclama. Cavalo dado não se olha os dentes”, diz Phil Schiller.

Podem ser apenas detalhes. Mas são detalhes que todos observam. Aliás, só não vê isso quem não quer: os fanboys, que acreditam que “a Apple é foda, e o resto é um lixo”. Tá certo, então. Só um detalhe: se fosse tudo isso, jamais ela sucumbiria ao desejo de iPhones coloridos.

Mais: a p**ra dessa capinha colorida, cheia de furos, JAMAIS SERIA LANÇADA. Esse lixo abaixo foi o motivo de Steve Jobs revirar no túmulo só para vomitar!

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A Apple “está hominha”. Bate no peito, dizendo que não precisa seguir os outros, que não precisa dos mercados emergentes, e que se basta com os seus iPhones dourados, ou combinando azul calcinha com rosa Danone. Enquanto isso, a Nokia oferece uma experiência fotográfica muito superior, a Samsung oferece recursos extraordinários, a Sony, com smartphones com bateria longa vida e recursos multimídia matadores, a Google oferece um ótimo smartphone… pode não fazer a diferença para você, mas se você olhar para os lados, faz muita diferença para quem se cansou da mesmice da Apple.

E, no caso dos novos usuários, por mais que eles gostem de iPhones coloridos e dourados, vão ver que o modelo colorido da Samsung faz mais (daquilo que ele quer fazer), custando menos. E, de novo, os asiáticos adoram coisas baratas (ou “de graça, nesse caso), mas tratar eles como lixo, oferecendo refugo de graça? Grande erro.

De qualquer forma… parabéns, Apple. Mostraram que não tem medo de ninguém.

Por enquanto.