
“Em meados do século 21, não haverá cozinhas.”
Quem disse a frase acima foi Juan Roig, presidente da rede de supermercados espanhola Mercadona. E isso passa bem longe de ser apenas uma previsão, já que ele está, de alguma forma, falando em causa própria. Prever o futuro da alimentação está diretamente relacionado com o negócio dele.
Metade da Espanha criticou a fala de Juan. Mas havia pelo menos um dado que poucos por lá estavam sabendo, e que respaldavam de alguma forma a firmação: 8 milhões de pessoas já consomem refeições prontas do Mercadona na Espanha. E esse número não para de crescer.
Então… a cozinha, tal e como conhecemos, vai mesmo acabar?
É a tendência
A comida feita em casa está em declínio há décadas, e isso está acontecendo em praticamente todos os países do mundo, incluindo o Brasil.
Nos Estados Unidos, a geração Millennial está cozinhando bem menos que a Geração X, come fora com mais frequência e prefere alimentos prontos, massas e doces. E esse padrão se repete em diversos países ocidentais.
O quadro só mutou um pouco durante a pandemia da COVID-19. Com a volta ao mundo normal (ou algo parecido com isso), o hábito das pessoas comerem comida pronta (e não estou necessariamente falando de restaurantes, que também passam por dificuldades nesse momento) simplesmente disparou.
Os supermercados perceberam isso, e os números só reforçam a tese.
Dados do Kantar Worldpanel mostram que, em 2024, os espanhóis consumiram 700 mil toneladas de refeições prontas — 17 kg por pessoa. O crescimento foi de 6,6% em relação ao ano anterior.
E no próprio Mercadona esse comportamento é constatado. A seção de comidas preparadas já é lucrativa e continua a se expandir. São 1.200 lojas com o serviço e novos pratos sendo adicionados com frequência: salmão com legumes, costela assada, saladas completas e mais.
Apostando na praticidade
O que o consumidor quer é ter uma solução que lhe entregue um bem precioso que todos nós perdemos nos últimos anos: tempo.
Para isso, o Mercadona também aposta na simplificação dos produtos frescos, com o objetivo de reduzir ainda mais o tempo gasto na cozinha. Peixes prontos para cozinhar, por exemplo, são destaque nas seções de peixaria — e dispensam até o atendimento de um peixeiro.
A ideia aqui é combinar conveniência, tempo escasso e pratos mais saudáveis. Os consumidores não compram apenas comida, eles compram soluções.
Quando paramos para pensar em um sentido mais amplo, pelo menos desde a década de 1980 que estamos aderindo aos alimentos prontos para cozinhar ou que só precisam ir ao micro-ondas para estarem prontos para o consumo.
A grande maioria das pessoas não usa alimentos frescos para cozinhar, optando por alimentos já cozidos ou embalados a vácuo em boa parte dos casos. E o pós-pandemia fez esse consumo dos pré-processados e prontos aumentar com força.
Olhando para os fatos na Espanha (que não são tão diferentes do que acontece aqui no Brasil), a mudança de paradigma que Roig aposta tem boa dose de sentido: a cozinha como espaço doméstico tradicional pode estar com os dias contados.
