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A Forma da Água (2017) | Cinema em Review

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Com 13 indicações ao Oscar 2018, A Forma da Água apresenta uma história simples, direta e objetiva. Não reinventa a roda, e tem até um erro grave de roteiro. Mas é um filme que trabalha tão bem a sua proposta, que é impossível sair imune do cinema, ou sem pelo menos refletir algumas questões apresentadas.

A história da zeladora Elisa que se apaixonou pela criatura aquática não é exatamente a mais inovadora que você vai ver. Já vimos essa mesma história antes: ela encontra ele, que é diferente dela e de todos; eles se apaixonam; ela luta por ele até o final. A Bela e a Fera, O Fantasma da Ópera e vários outros filmes de sucesso já contaram o mesmo enredo. Até Shrek é lembrado de alguma forma nesse longa dirigido por Guillermo del Toro.

Porém, o mais interessante de tudo isso é que o filme cria essa conexão proposital com o cinema, já que em vários momentos temos as referências com esses filmes. Quem tiver o olho mais atento vai perceber isso com relativa facilidade.

Além das referências, A Forma da Água também grita um filme clássico na sua ambientação impecável, que entrega uma proposta estética absurdamente imersiva, nos mínimos detalhes. É uma viagem no tempo, literalmente. Até mesmo os planos de câmeras e a trilha sonora acabam remetendo ao estilo mais antigo de se fazer cinema.

Mas o filme se vale especialmente pela forma poética que narra essa incomum história de amor.

 

 

Sally Hawkins mereceu a indicação ao Oscar 2018 para Melhor Atriz. Em um filme onde ela praticamente não fala nada (e, quando fala, é durante uma viagem de sua imaginação), ela consegue expressar todos os seus pensamentos e sentimentos através do olhar. Suas expressões faciais ajudam e muito na hora de passar essa emoção e convicção dos seus sentimentos em relação à criatura.

Outro grande trunfo no filme é tratar a nudez e a sexualidade como temas relativamente comuns e cotidianos. Até porque Elisa, personagem de Sally, vivia em uma rotina pragmática e insossa na maior parte do tempo, mas ao menos ela se permitia ao prazer, até mesmo como parte de sua conexão com a criatura aquática.

A Forma da Água não mostra apenas uma história de amor. Mostra também a conexão entre os diferentes, os excluídos e os não compreendidos. Elisa, que era muda, tinha como amigo um cartunista gay solitário, que também era visto como diferente pelo restante da sociedade. E Elisa se sentiu atraída pela criatura por ser alguém completamente diferente de todos os padrões que ela tinha se deparado até então na vida.

Ela sentia como ele, compreendendo seus sentimentos. Uma das ótimas sacadas do filme é justamente enriquecer a conexão emocional entre os dois envolvidos, através da linguagem de sinais e da música. Só depois disso é que o envolvimento físico entre os dois passou a ser algo relevante. Antes disso, eles se aproximaram porque um conseguiu entender a essência do outro.

 

 

A Forma da Água é um ótimo filme, mas não é um filme perfeito. Talvez o personagem de Michael Shannon (Cel. Strickland) seja apenas o ‘mais do mesmo’ entre os militares escrotos que já vimos no cinema. Não que ele não acrescente nada na trama (acrescenta e muito), mas não apresenta exatamente nada de inovador. É importante para mostrar os contrastes da sociedade na época (muita gente ainda se choca com pessoas como a atitude de Strickland, mas isso é bem mais comum nos dias atuais do que se imagina).

O filme tem (na minha opinião) uma falha grave de roteiro. Considerando que a criatura é um ser completamente desconhecido para a maioria, por que diabos a segurança da área onde essa criatura está não é reforçada de forma mínima? Em dado momento, Elisa começa a entrar e sair do laboratório sem qualquer resistência. É algo que me incomodou um pouco durante a narrativa da história.

De qualquer forma, A Forma da Água é um filme que consegue alcançar os seus objetivos: sensibilizar as pessoas para o significado de amor verdadeiro, mostrar o quão importante é você ter a capacidade de olhar para o interior das pessoas, respeito às diferenças, a reflexão sobre o papel da mulher e do negro na sociedade… todas essas questões são levantadas com competência durante as mais de 2 horas de filme. Sem falar que, apesar do problema de narrativa que já destaquei, a história é consistente e coerente com o final que se propôs a contar.

Com uma produção impecável e uma trilha sonora riquíssima, o filme é uma excelente experiência de entretenimento. Uma ficção que enche os olhos e os corações. As boas vibrações e reflexões que virão com você ao retornar para casa valem e muito o dinheiro gasto no ingresso.

Se você tem olhos para ver o diferente na sua expressão mais sincera e singular, A Forma da Água é um excelente filme. Com certeza você vai gostar do que vai ver.

 

 


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Publicado emResenhas e Reviews