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A Geração Z jamais aceitaria Steve Jobs

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Estou convivendo mais de perto com a Geração Z nos últimos meses, principalmente por conta das atividades musicais. E eles são ótimos como pessoas.

Tá, eu reconheço que são pessoas diferentes de quem eu sou. Um pouco desorganizados e atrapalhados nos aspectos colaborativos. Mas… convenhamos: nós também éramos assim quando adolescentes.

De um jeito diferente, com uma pressão um pouco maior. Mas vejo que a vida da Geração Z também não é fácil.

Eu estou me adaptando ao jeito deles, pois de outra forma, não conseguiria contar com os jovens para trabalhar comigo.

Agora… sabe quem não ia chegar perto de conquistar a confiança da Geração Z na posição de liderança corporativa?

Ele mesmo: Steve Jobs

 

A liderança implacável de Steve Jobs

Steve Jobs era conhecido por um estilo de liderança autocrático e perfeccionista, focado na inovação e na excelência.

Há quem diga que ele era um déspota na Apple, o que discordo.

Sempre teremos aquele episódio que Jobs deu um carro novo para a sua secretária, apenas para que ela não se atrasasse mais para o trabalho (caso contrário, seria sumariamente demitida – e, talvez, teria o carro tomado dela).

De qualquer, forma, Jobs exigia o máximo de seus colaboradores, muitas vezes com abordagens diretas e sem rodeios.

Para alguns, grosseria pura. Para outros, senso de urgência verbalizada.

Jobs acreditava que o ambiente deveria impulsionar o melhor desempenho, valorizando a contribuição individual para uma visão maior, mas raramente oferecia elogios formais.

Pura contradição, como podem ver. Valorizo o ambiente, mas trato meus funcionários como se fossem vítimas de sequestro presas em um cativeiro.

Para Jobs, o foco e a simplicidade eram cruciais, rejeitando burocracias e priorizando a comunicação direta para a tomada de decisões rápidas e a inovação.

Mesmo que a comunicação direta fosse aos berros.

Algo que a Geração Z simplesmente não tolera.

 

Os valores da Geração Z no trabalho

Até entendo muito do que Jobs fez como líder da Apple no seu perfil de liderança e, em alguns casos, concordo que aquele funcionário mais preguiçoso precisa “acordar pra vida”.

Mas essa é uma prática antiquada, que não funciona com a Geração Z, que é mais sinestésica e empática que as anteriores.

A Geração Z busca um ambiente de trabalho que valorize o propósito, a flexibilidade, a transparência e o bem-estar.

Já os velhos que nem eu só pensam no resultado, no desempenho e na eficiência. Estamos presos em um sistema laboral que cobrava de nós o nosso melhor, sem valorizar o que temos de melhor por dentro.

Os jovens de hoje são nativos digitais, e quando se tornam profissionais se adaptam com facilmente a novas tecnologias.

Eles não precisam ser ensinados sobre algo que estão usando desde crianças e, por conta disso, esperam autonomia laboral.

Até por causa disso decidem tirar férias a hora que querem, pois sabem que podem fazer o trabalho em um tempo muito menor que os mais velhos.

Eles priorizam a saúde mental, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, e anseiam por feedback constante e oportunidades de desenvolvimento acelerado.

E nem mesmo Steve Jobs, que passou um tempo na Índia em jornada de autoconhecimento, entenderia como essas prioridades fazem um bem danado para essa geração.

Para a Gen Z, alinhar-se com os valores da empresa e ter um impacto social positivo são fatores decisivos. E eles estão certos.

A cultura laboral por décadas priorizou o lucro, e não o propósito. Hoje, se vê obrigada a mudar por uma geração que não faz tudo pelo dinheiro.

 

O conflito geracional

Jobs iria tropeçar feio nessa notória disparidade entre estilos de trabalho.

A Geração Z, que questiona o modelo tradicional de 9h às 17h, valoriza a entrega de resultados acima da rigidez de horários ou a presença física constante.

É uma geração que quer se mostrar eficiente a partir da flexibilização da mecânica de trabalho, pois para eles o tempo e as regras previamente definidos não são sinônimos de “fazer um trabalho bem feito”.

São apenas uma regra estabelecida por uma geração que hoje toma remédios para combater a depressão e a ansiedade.

A pontualidade, por exemplo, pode ser vista por eles com mais flexibilidade do que por Jobs, para quem era um sinal de respeito.

Jobs iria demitir todo mundo que chegasse 15 minutos depois, algo que é tolerável para os mais jovens.

E… quer saber? Conviver com eles está me ensinando que, mesmo entendendo que o meu tempo tem valor e merece ser respeitado, todos nós temos o nosso tempo para tudo na vida.

Não é uma corrida de 100 metros rasos.

Viver é uma maratona.

O estilo de liderança de Jobs, com pouca tolerância a atrasos e foco intenso na produtividade, certamente entraria em rota de colisão com a busca da Gen Z por um ambiente de trabalho mais humano, inclusivo e focado no bem-estar, em contraste com a alta pressão e a falta de elogios diretos.

Nós, os mais velhos, precisamos estimular os mais jovens. É nosso papel na vida, uma vez que ficamos naturalmente desatualizados.

No lugar de segurar o avanço de uma geração que naturalmente vai mais longe do que nós chegamos, é nossa missão impulsioná-los.

Sinto que a Geração Z é muito estigmatizada e criticada, tal e como a minha foi quando eu era um orgulhoso membro da Geração X.

Chegou a hora de mostrar que posso fazer diferente do que fizeram comigo. Que posso aprender as lições.

Quem sabe me torno minimamente útil e relevante para quem hoje me chama de “velho” (e com certa dose de razão).


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@oEduardoMoreira