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Na semana passada, quando parei. Para descansar. Me acalmar. Meditar…


Eu estava cansado. Desanimado. Para baixo.

Sentia o peso da caminhada. Sentia as pernas pesadas, a dificuldade em seguir adiante. Minhas costas doíam, e os ombros carregavam o peso do mundo de forma quase insustentável. A diabetes atacou em cheio: senti formigamentos nos pés, a gengiva sangrar e minha bexiga funcionar mais do que devia. Enfim, estava fora do meu normal.

Tudo acontecendo ao mesmo tempo, e agora. Eu tinha dificuldades em coordenar tudo, em me organizar e organizar meus sentimentos e pensamentos diante dos acontecimentos que se apresentavam diante de mim. Senti o peso das minhas escolhas, da exposição diante de pessoas invejosas, e até mesmo as palavras e pensamentos mais duros de pessoas que não conseguem ser além do que são, e que não admitem que outros sejam um pouco mais.

Eu senti tudo isso em uma semana importante. Em uma semana onde eu estava fazendo o que mais amo. Estava tendo frustrações e decepções com pessoas relacionadas à música. E isso me deixava mal.

Cantei na quarta-feira sentindo o peso de tudo isso. Com mágoa no coração. Cantei de forma melancólica, sem energia, sem vontade. Estava bem frustrado com as pessoas, quando não deveria: é direito das pessoas pensarem diferente da gente, assim como é direito delas não compreenderem o que você tenta fazer por conta de uma postura ignorante daquele indivíduo.

Não compreendi os diferentes níveis de compreensão e evolução que todos nós temos, e eu estava me frustrando com todo o processo.

Eu precisava mudar meu foco. Precisava voltar ao que realmente importava. Voltar ao meu centro, ao meu estado emocional ideal.

Eu precisava parar e descansar. Na sombra do jatobá.

Eu caminhava em um dia de sol forte. O barulho da cidade era um ruído cheio de pressa de chegar a algum lugar, ou a lugar nenhum. Aquela poluição, típica do progresso capitalista, contaminava meus pulmões e meu cérebro de forma perigosa. Não me entendam mal: eu gosto da agitação da cidade, mas estava me sentindo sufocado por tudo aquilo e pelas vibrações negativas de gente que se dizia amiga, ou “do bem”.

Então… encontrei o jatobá. Me esperando. Ele sabia que eu procurava por ele. Sabia que meu corpo e minha mente pediam por um descanso.

Eu olhava para aquela árvore e não acreditava que poderia encontrar algo tão belo diante de mim. Não acreditava que em uma cidade tão barulhenta pudesse existir uma força da natureza tão expressiva. Uma expressão tão clara de paz no meio do tumulto que a selva de pedra e os corações das pessoas criam todos os dias.

Eu olho para aquela árvore. Com carinho e atenção. Quase com devoção, mas antes de tudo com o máximo de respeito. Eu sabia que ela estava ali por mim.

Fui me aproximando do tronco da árvore, e conforme eu fui avançando nos passos,a brisa se tornava mais suave, e o ar ficava mais puro. Aquele jatobá me convidava a ir até ele, e me preparava para me acolher. Era um convite sutil, singelo. Tal e como seria aquela experiência.

Recostei meu corpo na sombra daquela árvore. Meu corpo esperava por aquele momento de descanso. Imediatamente comecei a sentir a terrosidade daquele ser. O contato do mundo com o meu corpo, o cheiro da terra, e a energia acolhedora daquele frondoso jatobá. Espontaneamente, comecei a abraçar aquela árvore, como se eu estivesse recebendo o abraço de uma grande amiga. Um amiga que eu não via há muito tempo.

Acredite, se quiser, mas eu também me senti abraçado por aquela árvore. Senti a generosidade daquele ser vivo que só queria que eu me sentisse melhor diante de tudo o que estava acontecendo. Sentia o desejo que aquela árvore tinha em querer me consolar e me acalmar.

Me deitei ao pé da árvore. Já sentia meu corpo um pouco mais descansado. Recostei minha cabeça naquelas raízes enormes, que serviriam de travesseiro para aquele momento de desconexão da realidade. Aquela grama verde e macia seria minha cama perfeita. Aliás, aquele momento, como um todo, já era perfeito.

Deitado, eu olhava para os detalhes daquela árvore. Seus galhos e folhas perfeitamente moldados, permitindo que os raios de sol penetrassem pelos seus desenhos bem recortados. As luzes do sol lembravam pequenos feixes de luz, que simbolizavam a energia positiva que eu estava recebendo naquele momento. Aqueles pequenos pontos luminosos pareciam pequenas estrelas no céu em uma noite estrelada, mas eu saiba que eu estava em uma bela tarde de sol.

Eu sentia a brisa bater pelo meu rosto, de forma delicada e tranquila. Como se fosse uma carícia feita pela minha mãe.

Eu não me lembro há quanto tempo eu não recebo um carinho desse tipo Nada semelhante ao toque de uma mulher que me ama, ou um gesto fraterno de amizade. Simplesmente o carinho de uma mãe para com um filho que precisava de abrigo, de consolo. Parece que aquela árvore ouvia meu coração e o que ele desejava naquele momento.

Meu coração silenciosamente gritava para aquela árvore meus anseios, remorsos, frustrações, decepções, raivas e tristezas. Ela ouvia tudo. E me acalmava. Simplesmente me acolhendo, me abrigando. O jatobá conseguia ouvir o desespero do meu coração, algo que nem mesmo os meus amigos mais próximos conseguia… ou poderia, já que todos estavam mais preocupados com as suas próprias dores.

Eu me sentia em paz.

Me abracei, como há muito tempo eu não fazia. Senti meus braços se entrelaçando e minhas mãos me apertando. Estava procurando sentir ainda mais forte tudo aquilo de bom que eu estava recebendo naquele momento. Estava me sentindo, me reencontrando. Me reconectando comigo mesmo. Voltando a encontrar o centro de minhas forças para seguir em frente.

Eu estava feliz de novo. Estava recobrando as minhas energias positivas, meus pensamentos mais fraternos. O meu otimismo, algo que era tão forte em mim, mas que estava sendo minado por conta dos pensamentos negativos de terceiros. Estava recobrando minha alegria, que nos últimos anos se tornou algo incondicional, se fazendo presente independente da situação que eu me encontrava.

Eu comecei a chorar.

Não de tristeza, não de desabafo. Mas de alegria. Eram lágrimas de felicidade por de novo me encontrar. A felicidade por saber que eu não estava enlouquecendo diante de tantas coisas complicadas. Que eu estava sim dentro do meu eixo, e que meus propósitos de bem não haviam se perdido por conta dos agentes externos. Eu chorava porque me permitia ser humano por alguns minutos, assimilando minhas fraquezas e buscando forças ao externar minhas emoções mais profundas.

Ao mesmo tempo, a árvore respondia ao meu pranto. Deixava a brisa um pouco mais acentuada, e o balançar dos galhos e folhas que marcavam aquele momento. O farfalhar era a trilha sonora perfeita para alcançar a minha mente e meu coração de forma plena. Era a harmonia perfeita daquele cenário. Era a minha conexão perfeita com a natureza.

Eu não me lembro quanto tempo permaneci embaixo daquele jatobá. Eu posso ter adormecido durante esse momento de reflexão que vivi naquela tarde. Eu sei que foram momentos inesquecíveis de reencontro comigo e com a natureza. Uma experiência quase sensorial, que jamais esquecerei.

Quando me senti pronto para novamente encarar a realidade, eu me levantei. Coloquei de novo meu corpo no prumo, e voltei a olhar para frente. Como sempre digo, eu olho para frente porque é lá na frente o meu lugar. Deixei os meus dois pés bem presos ao chão para não perder aquela fantástica que fiz com a terra naquela tarde.

Olhei novamente para aquele jatobá. De forma ainda mais respeitosa do que fiz quando eu cheguei. Aquela árvore merecia ainda mais o meu respeito, carinho e consideração após me entregar tantas energias boas. Olho com carinho para quem me deu carinho. Olho para aquela árvore com a esperança que esse momento se repita novamente em algum momento.

Pego minhas coisas. Vou embora. Volto para o meu caminho confiante e pronto para novamente fazer o que precisa ser feito.

Pois não há mais tempo a perder.

“À Sombra de um Jatobá”
(Toquinho)
Toquinho, 1989


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