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Ela decidiu correr 1.5 km por três dias consecutivos. Aos 69 anos. Acharia isso louvável, se não fosse um pequeno detalhe: ela tem recomendação médica para NÃO CORRER. Vou ser mais claro: ELA ESTÁ PROIBIDA DE CORRER.

Problemas no joelho, nos pés e nas articulações impedem que ela, aos 69 anos, saia por aí correndo.

Eu, com 40 anos nas costas, não consigo correr 1.5 km. E nem quero. Me dá preguiça só de pensar! Prefiro andar de bicicleta por 20 km, pois esse tipo de exercício me dá prazer.

Então… o que leva uma pessoa a descumprir ordens médicas? O que levou ela a correr 1.5 km por três dias consecutivos aos 69 anos quando não deveria fazer isso?

Indisciplina? Irresponsabilidade? Burrice?

Tá, eu realmente começo a acreditar que é preciso acabar de uma vez por todas com o mito que “o idoso é sábio”. Tenho provas cada vez mais consistentes que não é uma regra (e muitas dessas provas estão em Brasília nesse momento).

Mas… no caso dela… não é bem assim…

O que fazer com uma mulher de 69 anos “ligada nos 220 volts”? O que fazer com uma mulher que redescobriu a vida recentemente, que tem desejos, fantasias e sonhos? O que fazer com alguém que entende que perdeu muito tempo na vida, e sente que precisa correr atrás do tempo?

Eu sei como ela se sente. Afinal de contas, eu sou o cara que vive dizendo que está correndo atrás do tempo.

Ela só pode correr agora. Caminhou a vida inteira, e só agora descobriu que pode correr. Eu penso na ansiedade de alguém que quer viver os sonhos esquecidos ou perdidos, mas ouve o tic-tac do relógio atrapalhando a sinfonia perfeita da vida.

Talvez ela precisa perceber que, na verdade, o tempo não corre contra ela e contra ninguém. Ou perceber que ela pode se dar ao luxo de caminhar e não correr. Ou ser menos teimosa e compreender que não precisa correr tanto.

Ah, sim… ela está bem. Está de “repouso absoluto” (duvido que fique), mas ao menos não foi uma hérnia de disco.

Agora, ela vai ter tempo de sobra para pensar no tempo, e em como lidar com ele.


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