
Amo. Logo, existo?
Durante séculos, pensadores tentaram decifrar o que realmente nos move como seres humanos. Alguns falharam miseravelmente. Já outros entregaram visões alternativas bem interessantes.
No século XVII, em pleno cenário europeu de guerras civis, o filósofo inglês Thomas Hobbes olhou para a sociedade e concluiu algo que seria, ao mesmo tempo, aterrador e incrivelmente influente: o medo é a engrenagem principal da nossa convivência.
Segundo ele, a primeira lei natural humana é o medo da morte violenta. A partir disso, todos os nossos comportamentos se moldariam como mecanismos de defesa.
Ou seja: matamos porque temos medo de morrer. Ferimos porque não queremos ser feridos.
Ou seria o amor a nós mesmos o motivador para o medo de morrer?
Complexo, não?
O que dizem os pensadores sobre isso?
Agimos movidos pelo princípio da autopreservação, que transforma qualquer um ao nosso redor em uma potencial ameaça. E isso vale até mesmo para as pessoas que mais amamos na vida.
Para Hobbes, essa paranoia coletiva resultaria inevitavelmente em um estado de natureza em que todos estariam em guerra contra todos — daí seu famoso conceito de “bellum omnium contra omnes”.
Para evitar esse caos, ele propôs um Estado forte, quase ditatorial, que manteria a ordem pela força. É tipo o que vivemos hoje, mas sem o Trump e o Bolsonaro como presidentes.
Convenhamos: é uma visão de mundo que faz o noticiário parecer uma profecia autorrealizável.
Mas aí entra em cena Aristóteles, esse clássico que nunca sai de moda — tipo vinho bom, ou aquele meme que nunca perde a graça.
Escrevendo mais de mil anos antes de Hobbes, o filósofo grego ofereceu uma leitura radicalmente diferente da natureza humana. Em vez de nos ver como predadores em eterna vigilância, Aristóteles nos via como animais racionais e, acima de tudo, sociais.
Para ele, a política era a arte de viver bem em comunidade. Mais do que estruturas de poder, era sobre amigos debatendo o bem comum.
Uma utopia em nosso tempo presente, já que metade das pessoas hoje afirmam que quem pensa dessa forma é esquerdista.
E a felicidade?
Só existia plenamente quando compartilhada.
A amizade verdadeira, na visão aristotélica, era uma virtude essencial, não um luxo opcional. Não se tratava apenas de simpatia mútua, mas de uma relação em que ambas as partes desejam o bem uma da outra de maneira genuína.
Essa visão amplia o horizonte dos relacionamentos e da nossa própria existência. O ser humano não é apenas um sobrevivente em meio à selva. É alguém que floresce por meio dos vínculos.
Como amar de verdade na era dos discursos de ódio?

Agora, vamos fazer um corte rápido para o presente.
Em um mundo digitalizado, hiper conectado e paradoxalmente solitário, parece que estamos encenando o script de Hobbes sem nem perceber.
Vivemos com medo — não necessariamente de uma morte violenta literal, mas de rejeição, exposição, vulnerabilidade. Cancelamento, ghosting, unfollow.
Adotamos um comportamento defensivo disfarçado de indiferença: melhor machucar antes de ser machucado, melhor ignorar antes de ser ignorado.
Criamos muros emocionais revestidos de memes e stories, e chamamos isso de maturidade.
Toda essa estratégia tem seu custo.
A solidão é o mal do século. Crescem os relatos de ansiedade, depressão e desorientação afetiva. Estamos rodeados por pessoas, mas ausentes de vínculos verdadeiros.
A tecnologia nos dá ferramentas para falar com o mundo, mas não necessariamente para sermos ouvidos.
E talvez — só talvez — isso tenha muito a ver com o modo como escolhemos interpretar nossa própria humanidade.
Amar pode SIM ser sinônimo de existir

Pense um pouco (se é que você consegue).
E se, em vez de reforçar o medo e a autoproteção, apostássemos em outra lógica: a do amor?
Esse conceito que parece piegas, digno de comercial de Dia dos Namorados, pode ser o antídoto mais subversivo e eficaz contra o individualismo.
Amor, aqui, não se trata de ideal romântico. Trata-se de disposição ativa para sair de si, reconhecer o outro como parte fundamental da própria existência.
Amor é abrir mão do conforto do ego para habitar o desconforto da convivência. Porque conviver com o outro, aceitar as diferenças e abrir o espaço para o contraditório são desafios que fazem parte da história da humanidade, mas se tornaram muito mais complexos na era digital.
Essa ideia exige esforço — e maturidade.
Requer saber pedir desculpas com humildade, ouvir com paciência, manter vínculos mesmo quando não é conveniente.
Requer aceitar que ninguém vai nos oferecer uma relação 100% perfeita (até porque nem nós conseguimos fazer isso). Exige de nós abrir mão da perfeição que não encontramos em nós mesmos, e que não vamos encontrar em outras pessoas.
A convivência é um exercício diário de negociação com as imperfeições. Mas é justamente esse processo que nos transforma em pessoas mais humanas — e menos hobbesianas.
Mesmo em guerras, há soldados que lutam lado a lado. Isso já deveria nos dizer algo.
O amor, nesse sentido, é a verdadeira lei natural da existência humana.
Ele é o ponto de partida, a bússola e o destino.
Tudo o que fazemos — estudar, trabalhar, escrever, cozinhar, postar, silenciar — está, no fundo, ligado ao desejo de sermos um pouco mais amados ou de amar alguém um pouco mais.
Ninguém vive bem sozinho por muito tempo.
Nem mesmo o mais misantrópico dos filósofos.
Então, talvez esteja na hora de abandonar o script da sobrevivência e escrever algo novo.
Algo mais… amoroso.

