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A melhor música que você vai ouvir em 2019. Porém, você precisa jogar fora todos os preconceitos que você abriga no coração.

Eu estava assistindo, de forma aborrecida, ao MTV MIAU 2019, na MTV. Se você não sabe, MIAU nesse caso significa Millennial Awards, e eu estava quase convencido que aquela premiação não é para mim. É mesmo para a geração Millennial, que muitos acusam de serem os responsáveis pela falência moral do brasileiro no futuro.

Engraçado… eu tenho certeza que a culpa não é deles, mas sim da atual geração que pregou discursos nefastos e hipócritas. Mas isso é tema para outro texto.

Apesar de ter várias categorias voltadas para a internet, o MTV MIAU ainda tem alguns momentos onde o viés musical ainda importa. A MTV tenta lembrar a todos que, um dia, no passado, se chamou MUSIC TELEVISION, e talvez por causa disso eu ainda assisto as suas premiações. Esperando, de forma até tola, que aquele canal que um dia alimentou as minhas emoções musicais volte a ser a referência no segmento, como foi na sua origem.

De forma tola, eu também me esqueço que o tempo passou, que as coisas mudam, e hoje a sigla MTV quer dizer MILLENNIAL TELEVISION.

OK. Vida que segue.

Eu estava quase desistindo do MTV MIAU 2019. Quase mudando de canal, ou mudando para o YouTube. Qualquer coisa servia.

Mas eu decidi ficar. E recebi um dos maiores presentes de 2019.

A MTV que eu conhecia e amava não era apenas os canais de videoclipes das bandas badaladas, das animações que a minha mãe insistia que me deixariam um verdadeiro retardado mental (saudades, Beavis and Butt Head…) ou dos realitys que refletiam o comportamento do jovem em um estilo de vida que desafiava os padrões estabelecidos da sociedade. O canal, independente de sua proposta, sempre foi o megafone de diferentes gerações, levando adiante a voz daqueles que não eram ouvidos por ser a geração “aborrescente”, “irresponsável” e “que não se importa com o futuro”.

A MTV sempre soube ouvir e entender o que a minha geração queria dizer. E reproduziu esses discursos que, para nós, era tão importante quanto passar no vestibular ou seguir carreiras bem sucedidas, mas que poderiam não entregar a felicidade tão almejada.

Em troca, a MTV, de tempos em tempos, abraçava discursos importantes para essa geração de pessoas que, no futuro, terão que passar as lições adiante. A importância do voto, a consciência sobre o HIV/AIDS, o perigo do consumo de drogas, a importância sobre ler livros, a necessidade de ser um bom cidadão. O olhar para o próximo com amor, independente de sua condição sexual.

Então…

Quando AmarElo começou a tocar no MTV MIAU 2019, eu parei de escrever o texto em produção. Levantei a cabeça, e voltei o meu olhar para a tela do monitor na minha frente. Porque eu não ouvi a voz de um cantor. Eu ouvi o discurso do cara que fala na mensagem do WhatsApp que tem exatos dois minutos e quarenta segundos de duração.

Eu me vi naquele cara.

Por diversos momentos da minha vida, eu pensei nas mesmas palavras, senti a mesma angústia, e me vi desesperado do mesmo jeito. Nos momentos mais difíceis, eu telefonei para pessoas que eu amo nas madrugadas. Mas por não incomodar as pessoas, eu escolhi a insônia nas madrugadas. As minhas lutas internas eu guardo em silêncio. Ninguém sabe, e ninguém tem a obrigação em saber.

Porque, de tempos em tempos, quando eu desabafo, eu leio e ouço que “estou me vitimizando”.

Como se todos fossem fortes.

Demorou, mas eu me encontrei no mundo. Por diversas vezes, eu digo: hoje, eu tenho muito orgulho de quem eu sou. E é verdade. De tanto ouvir que eu estou me vitimizando por protestar contra o racismo institucionalizado, eu optei por atacar. Mostrar onde as injustiças se apresentam, mesmo que isso acabe ofendendo algumas pessoas. Na verdade, só se sente ofendido com os meus ataques quem tem culpa no cartório.

E, recentemente, o tempo foi mostrando quem são alvos e atiradores, nos mais diversos contextos.

A fala de Belchior está certa. E eu estou nesse contexto em 2019:

 

“Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte
E tenho comigo pensado, Deus é brasileiro e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer no ano passado
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro”

 

Eu tenho apenas 40 anos. Tenho sim diabetes tipo 2, e o Mal de Alzheimer está na minha rota. Eu tenho quase certeza que a minha memória já começou a se deteriorar, e que os próximos anos serão piores. Por isso, eu luto contra o tempo. Estou correndo o tempo todo. Quero ser feliz hoje, e fazer coisas incríveis enquanto ainda posso. Daqui a 20 anos, eu não sei se vou reconhecer essas palavras. E procuro não pensar nisso. Para não sentir medo hoje.

Se eu sentir medo, eu não vou chegar a lugar nenhum. E eu quero chegar. Eu não paro de caminhar porque eu quero chegar.

Mas nada disso doeu mais do que ver o que aconteceu em 2018. Um coletivo que abraçou a misoginia, o racismo, a homofobia e valores distorcidos de forma institucionalizada, por convicções torpes. Pela cegueira. Ano passado eu sangrei e chorei porque me decepcionei com pessoas que eu amo por escolherem essa monstruosidade.

Eu morri um pouco em 2018, porque eu perdi um pouco de fé em pessoas onde eu alimentei a minha fé por dias melhores.

Só uma coisa boa veio disso tudo: eu ainda estou vivo.

Hoje, eu tenho amigos melhores. Pessoas que me dão a liberdade de dar e receber opiniões, que podem ser contrárias, mas que não serão respondidas com a diminuição da minha pessoa por ser ou pensar diferente. Hoje, eu estou mais forte para responder ao escárnio de um coletivo desmontado com bom humor, ironia e, acima de tudo, discurso coerente.

Pois a cada vez que eu ouço que é mimimi quando eu afirmo que o racismo existe no Brasil, eu simplesmente respondo com duas palavras…

Contexto histórico.

Eu entendi AmarElo com o coração, e abraço essa música como algo pessoal. Eu sei que tem muita gente que precisa desabafar porque se sente travado, perdido ou sufocado na vida. Muita gente não se sente realizado na vida, se cobra demais por uma porção de coisas que a maioria das pessoas não se importa em saber.

E eu quero agora escrever algumas palavras para quem se sente assim.

Na verdade, eu poderia resumir todo um discurso com um “tudo isso vai passar… não desista…”. Mas isso não deve funcionar para muita gente.

Por isso…

 

“Permita que eu fale
Não as minhas cicatrizes
Elas são coadjuvantes.
Não… melhor… Figurantes que nem deviam estar aqui
Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Tanta dor rouba a nossa voz
Sabe o que resta de nós?
Alvos passeando por aí.
Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência
É roubar o pouco de bom que vivi.
Por fim, permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Achar que essas mazelas me definem
É o pior dos crimes
É dar o troféu para o nosso algoz, e fazer nós sumir.”

 

Sabe… era isso o que eu precisava ouvir, em pleno 2019.

Eu achava que a minha vida em Florianópolis estava melhor. E está. Mas essa letra me lembrou que ainda tem muita coisa pela frente. E que eu superei muitas coisas. Tantas, que você não faz ideia. Tantas, que não vale a pena falar sobre isso nesse momento. Porque isso seria mostrar as minhas cicatrizes. E mostrar o que me fez sofrer não vai superar o desejo de me destruir daqueles que pensam que eu sou inferior por ser diferente.

A única forma de viver com dignidade é mostrar ao mundo que hoje eu sou mais feliz do que poderia ser, que estou mais forte do que antes, e que para me derrubar terá que fazer muita força e, provavelmente, eu ainda vou olhar no olho do algoz e dizer: “não existe um cenário onde você vai vencer”.

Isso mesmo. Revide.

AmarElo doeu em mim porque me fez lembrar que, apesar de boa parte da tempestade ter passado em minha vida, eu sei que tem muita gente que não está bem. De tempos em tempos, aparece na tela do meu computador relatos de ódio, violência e discriminação ao diferente. E eu não consigo ser indiferente a tudo isso. Eu não consigo ficar calado diante de tudo isso.

E eu não vou me calar.

Para todos aqueles que, nesse exato momento, estão completamente perdidos, diminuídos e derrotados por um sistema que busca destruir você por ser diferente do “padrão estabelecido” pelo “cidadão de bem”, eu estendo a minha mão de forma fraternal para sair do chão. Eu sei que não é fácil. Vivemos um momento bem difícil. Como coletivo, o povo brasileiro é um derrotado de todas as formas: odiamos a quem pensa diferente, não respeitamos as leis para defender nossas convicções individuais, e discriminamos aqueles que carregam consigo características que não podem mudar.

Para todos aqueles que foram reduzidos a nada diante das duras palavras daqueles que decidiram viver na bolha da ignorância que disfarça o medo que sente ao constatar que o mundo está em constante transformação de valores e conceitos (e, felizmente, mudando para melhor), eu digo…

 

“Aí, maloqueiro, aí, maloqueira…
Levanta essa cabeça
Enxuga essas lágrimas, certo? (Você mesmo)
Respira fundo e volta pro ringue (vai)
Você vai sair dessa prisão
Você vai atrás desse diploma
Com a fúria da beleza do Sol, entendeu?
Faz isso por nós, faz essa por nós (vai)
Te vejo no pódio.”

 

Humildemente, eu agradeço a genialidade de Belchior que, lá atrás, expressou o que todo brasileiro lutador precisava ouvir. Agradeço ao Emicida por entregar palavras que, sem medo de errar, vão ajudar a muitas pessoas que não mais conseguem respirar de tanta angústia. Essa canção vai salvar vidas. Pessoas vão voltar a respirar.

Até o fim da minha vida, eu vou abrigar em mim a convicção que a principal missão da música é transformar pessoas. Assim como essa música é capaz de fazer. E essa música vai fazer.

E… um último detalhe para encerrar…

Eu sou uma daquelas pessoas que criticam de forma direta a técnica musical da Pabllo Vittar. Por diversas vezes afirmei que ela poderia buscar recursos para melhorar a sua técnica vocal. Mesmo porque eu acredito, de verdade, que ela tem potencial vocal. E não aprecio a sua música como um todo. Não é o estilo musical que eu gosto.

Porém, nenhuma das minhas críticas foram pautadas na condição sexual de Pabllo Vittar. Se o preconceito existisse em meu coração, eu jamais iria descobrir a preciosidade que é essa canção. E sou muito feliz ao constatar que eu não carrego esse tipo de câncer no coração.

Por isso… agradeço humildemente à Majur e Pabllo Vittar, por emprestarem as suas vozes para esse discurso tão intenso, inspirador e relevante. A minha felicidade em saber que ainda temos artistas que, em um mercado tão comercial que é o fonográfico, ainda abraçam a música e a arte para transmitir mensagens que podem transformar vidas. Vocês lutam contra um sistema que quer destruir vocês.

Continuem!

Vou encerrar esse texto. O pódio me espera.

E a gente se vê no pódio.

 

“AmarElo (Sample: Belchior – Sujeito de Sorte)”
(Felipe Vassão / DJ Duh / Emicida / Belchior)
Emicida (com Majur e Pabllo Vittar), 2019

 


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