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Eu demorei mais do que devia para escrever sobre o que considero o assunto da semana. Tim Cook, CEO da Apple, falou abertamente pela primeira vez sobre sua orientação sexual, contando sua experiência na empresa e como o fato de ser homossexual afetou (ou não) a sua vida profissional. E ao fazer isso, ele abriu portas que ele jamais poderia imaginar.

Vou me explicar.

Eu sou hétero convicto. Sou casado há 11 anos com minha ‘veínha’. Porém, o padrinho de casamento dela (já falecido) era gay. Tenho parentes na minha família e na dela que são homossexuais. Alguns dos meus amigos também são gays. Aliás, não vou falar só de mim: acho que todo mundo conhece ou já conheceu um homossexual na vida. Dito isso – e mudando a perspectiva do assunto -, eu entendo que o tal do ‘pré-conceito’ em relação a quem tem essa orientação sexual já deveria ter acabado a algum tempo.

Porém, como a massa humana é atrasada em vários aspectos, muitos dos ditos ‘racionais’ ainda tratam como inferiores quem se comporta de forma diferente. Gestos como o do Tim Cook não tem apenas o objetivo de aparecer em sites de todos os tipos de segmento (não só de tecnologia, mas de comportamento, economia, blogs segmentados aos homossexuais e bissexuais, etc), mas principalmente para lembrar que, no final das contas, somos todos seres humanos.

Tim Cook é um dos executivos mais poderosos do mundo. Ele conduz uma das empresas mais cultuadas do planeta, com uma enorme margem de lucro, precisando tomar decisões complexas todos os dias. Ok, eu nem sempre concordo com as decisões de Cook (iPhone que entorta, que custa o olho da cara, retirar produtos do mercado que ainda podem render lucros, etc), e isso não vai mudar por conta dele ser gay ou não. Até porque eu aprendi com os meus poucos 35 anos de vida que o mais importante é ver o ser humano antes de qualquer outra coisa.

Cook relembra para o mundo que qualquer pessoa, independente de sua orientação, pode ser o que quiser. Não existem barreiras. Não existem limites. Não existe o preconceito. Saber ser dono do próprio destino não depende muito de ser hétero ou gay. Depende de ser um ser humano dito racional, determinado, com objetivos na vida. Aliás, Cook dá várias lições para todos. Talvez a maior delas seja a discrição para tratar de um assunto tão delicado.

Tim Cook, em sua carta aberta que trata sobre a questão, fala sobre isso com a naturalidade de quem está contando mais um simples capítulo de sua vida. Usa uma elegância ímpar, e escolhe de forma precisa as palavras para se expressar. E a parte mais legal de seu texto é que ele considera o fato de ser homossexual ‘um presente de Deus’. Isso mesmo: um presente. E não uma maldição, como certos líderes religiosos acéfalos (beijo, Silas Malafaia) tentam de forma tola pregar para os seus seguidores.

Mas essa é uma visão pessoal do Cook. Particularmente, acho que o simples fato de se viver esse tempo e poder construir uma história relevante para aqueles que mais amamos já é um grande presente. A mera possibilidade de contribuir positivamente para o progresso é algo que devemos agarrar com todas as forças, mas saborear quando necessário. Não são todos que podem fazer a diferença.

Tim Cook ‘sai do armário’ para abrir várias portas. Para lembrar para todos que o que define você não é o fato de você amar ou não alguém do mesmo sexo. O que define você é a sua capacidade de criar, transformar, modificar, revolucionar. O que define você é o seu desejo de progresso, a sua fé no futuro, a sua vontade de realizar os seus sonhos. O que define você é o fato de você ser ou não uma pessoa de bem, e o quanto você é feliz com a sua essência.

Na boa? Eu só espero duas coisas dos homossexuais: que respeitem ao próximo tal como eles querem ser respeitados, e que assumam para si e para o mundo sua orientação, para viverem de forma livre, responsável e feliz. Tal como qualquer pessoa faz. Até porque, antes de qualquer coisa, estamos falando de seres humanos.

E todo ser humano tem o direito à felicidade. Pronto, e acabou.