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Eu sou suspeito para falar, mas…

Aos idosos que eu conheço (e não são poucos), eu desejo saúde para viver bem. Não estou falando em “tocar a vida” ou “empurrar com a barriga”. Falo em viver com qualidade, autonomia e independência. Desejo saúde mental para ter ideias mirabolantes com os seus netos, saúde emocional para sair com as amigas para o baile da saudade (ou para a balada de sábado a noite, quem sabe…) e energia para ter a autonomia física para vivenciar esses e outros bons momentos.

Eu desejo também uma maior visão de mundo. Vocês podem até achar que “o futuro pertence a Deus”, e que é melhor viver o presente. Eu concordo com você nos dois casos, mas ter uma visão mais ampla da realidade ao seu redor não significa virar automaticamente uma Mãe Dinah ou um Valter Mercado e tentar descobrir os seis números da Mega Sena (se você conseguir isso, me procure no WhatsApp).

Ter uma visão ampla do mundo na terceira idade significa entender e respeitar o novo e o diferente. Com sorte e, se possível, aprender com o novo e receber esse novo em sua vida. Um dos segredos da juventude da alma é receber o novo como uma aventura constante, mas com o amor da adolescência. É se apaixonar a cada dia por algo novo que você descobre que é capaz de fazer, ou que acaba gostando quase sem querer.

Aos idosos que eu conheço, mais que um desejo, uma súplica: não deixem suas almas envelhecerem.

É um puta pé no saco ver gente velha e chata reclamando da vida, e que só sabe conversar sobre doença e morte. Quantas vezes eu ouvi nas filas de banco e supermercado alguns velhinhos disputando quem tem mais doenças e problemas na vida, sem expressar qualquer tipo de felicidade em viver o presente cheio de possibilidades.

Existe uma diferença fundamental entre velho e idoso. O velho eu acabei de explicar.

Já o idoso é quem “é jovem a mais tempo que eu”. O idoso de verdade só tem números no RG. Mantém a alma jovem e leve, olhando para a vida com o desejo de abraçar o mundo com os braços e pernas abertas. Pode até não correr porque as pernas não deixam, mas caminham para frente com a vitalidade de uma criança. E o mais importante: a mente sempre está ativa, trabalhando incansavelmente na nobre missão de procurar formas divertidas e criativas para colher felicidades no jardim da vida.

Ah, sim, claro… antes que eu me esqueça (e, sobre o parágrafo abaixo, eu posso falar com conhecimento de causa)…

Idoso feliz é também aquele que abraça o mundo com braços e pernas tão abertas, que sente tanto ou mais tesão na hora do sexo do que os mais jovens. Orgasmos mais intensos, entrega absoluta, sensações à flor da pele. Até porque não existe brochada quando se tem dedo e língua, não é mesmo, minha gente?

No dia mundial do idoso, eu desejo que os idosos sejam felizes de verdade. Eu sei que é difícil para muita gente que está com uma aposentadoria resumida a um salário mínimo, que ainda precisa trabalhar para ajudar nas despesas domésticas, e que a idade limita o corpo e a mente de muita gente. Eu bem sei disso: meus pais hoje estão limitados por conta desses fatores. Mas eu desejo o mesmo para eles e para todos os idosos que vão ler esse texto.

Repito: eu sou suspeito para falar sobre esse tema.

As melhores relações interpessoais que eu estabeleci na vida foram com pessoas muito mais velhas do que eu. O meu “complexo de Édipo mal resolvido” está mais que estabelecido, mas não me sinto um traumatizado por tudo ter acontecido dessa forma. Pelo contrário: sou um privilegiado, pois minhas bases emocionais são bem mais sólidas do que se eu tivesse convivido ou me relacionado o tempo todo com os imaturos da minha geração.

Por isso, nesse dia, o que eu mais desejo é que os idosos que eu conheço reforcem dentro de suas almas a juventude que nunca morreu. Continuem brincando com as comédias e tragédias da vida, compartilhem as suas melhores experiências com os mais jovens, deseduquem os seus netos e escandalizem os seus filhos indo para a balada com as amigas, recebendo vídeos pornográficos no WhatsApp e, com sorte, namorando de forma completamente apaixonada alguém que tem a idade para ser o seu filho (ou neto).

Planeje viagens, fujam de asilos, organizem festas que vão até às 4 horas da manhã. Ou procurem invadir as festas dos seus filhos. Caminhem pela praia no amanhecer e no entardecer (e, em um dos dois, deixem os pés molhados pela água salgada do mar, porque vale a pena). Comam feijoada pelo menos uma vez por ano, mas cuide do colesterol e dos carboidratos. Ou ignore tudo isso e coma o que quiser. Quem sou eu para ficar ditando regras para as pessoas mais velhas?

E façam sexo. Muito sexo! Porque sexo é vida, diferente das mentiras que tentaram vender para vocês no passado.

Aliás, quero lembrar aos idosos que eu conheço que nada disso é um manual para ser feliz na melhor idade, mas sim desejos de alguém que está aprendendo com muitos de vocês a não deixar a minha alma envelhecer ainda mais. Eu sei que sou um velho preso no corpo de um jovem, mas não preciso virar um velho rabugento por causa disso. Posso muito bem ser uma “criança grande”, que vai enxergar o mundo como um grande parque de diversões. Assim como vários de vocês estão fazendo hoje. E eu acho essa visão de mundo o máximo.

Aos idosos que eu conheço. E aos idosos que ainda vou conhecer.

Eu desejo esse e vários outros dias de felicidades e alegrias.

Nenhuma fila do FGTS pode impedir que vocês olhem para frente, procurando novas formas de colocar um sorriso no rosto.

Aquele abraço!


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