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Por diversas vezes eu me vi no Central Perk interagindo com aqueles seis amigos. Não imaginei isso. Eu vivenciei. Tive o privilégio de conhecê-los em uma fase de grandes transformações em suas respectivas vidas, e eu sei o quanto aquele período foi importante. Para eles, e para mim.

Quantas vezes eu ouvi Smelly Cat com aquela voz desafinada, ou ouvi broncas homéricas e irritantes através de alguém que tinha um perfeccionismo incorrigível e adorável. Depois de tantos anos, eu acabei gostando da música, e tento até hoje não sofrer de TOC para deixar o meu apartamento sempre arrumado.

Por causa desses meus amigos, eu hoje vivo o sonho de morar em apartamento. Eu achava esse aspecto do ambiente urbano algo sofisticado, moderno e descolado para jovens adultos. Tudo bem, foi só depois de muitos anos que eu descobri que, no mundo real, aqueles amigos com os seus respectivos empregos não eram capazes de manter os seus estilos de vida em uma Nova York do final dos anos 90 e começo dos anos 2000. Mesmo assim, hoje eu vivo parte do sonho deles.

Meu apartamento não fica cheio de vez em quando, eu ralo pra caramba para pagar as contas. Mas até nesse aspecto da minha vida eu me sinto influenciado por esses amigos. E confesso que esses amigos atuaram muito mais no meu modo de ser hoje do que eu imaginava quando comecei a acompanhar suas vidas.

Eu tomei gosto pelo café depois de me encontrar tantas vezes com esses amigos nas noites de terça-feira lá no Central Perk. Comprei uma poltrona reclinável por causa deles. Me tornei um viciado em séries pela influência deles. Acabei me acostumando a acompanhar as histórias de vida de outras pessoas, e aprender com essas histórias. Assim, me tornei uma pessoa um pouco melhor.

Por causa desses amigos, o lesbianismo não se tornou um bicho de sete cabeças, não me senti sozinho no mundo por preferir ter relacionamentos com mulheres mais velhas, entendi que não foi traição porque “eles estavam dando um tempo” e valorizei cada vez mais o sonho de viver a carreira profissional que eu abracei. Assim como cada um deles estavam perseguindo os seus sonhos, eu fui atrás dos meus.

E hoje, eu estou aqui, conversando com vocês.

25 anos depois de conhecer esses amigos, eu sinto hoje a alegria em poder dizer que vi e revi as suas histórias algumas vezes. Porque foi uma fase da minha vida tão especial que ficará marcada para sempre em mim. Assim como está bem claro que tudo o que eu vi foi uma fase importante e decisiva da vida de cada um desses seis amigos.

Esta foi uma das melhores histórias já contadas pela televisão. Uma das mais divertidas e influentes histórias. O impacto cultural desses seis amigos é sentido no mundo todo, e até hoje se mostra forte com as novas gerações. Sim, algumas pessoas questionam traços de homofobia e machismo no comportamento deles. Eu discordo. É preciso entender o contexto da época para explicar (e não justificar) esse comportamento.

Por outro lado, se percebemos que eles eram assim… veja como aprendemos a crescer em função dos problemas apresentados pelos nossos amigos. E aqui, além de compreender o quão errado é ser misógino e homofóbico em 2019, eu tenho a certeza que, se eu re-encontrar esses amigos hoje, as visões de mundo de cada um deles será diferente do que aquela expressada em 1994.

Porque eles cresceram e amadureceram. Assim como eu cresci e amadureci.

Sem falar que eu amo esses amigos, mesmo com tantos defeitos. Mais uma coisa que eu aprendi com eles e com a vida.

Para mim, eles são mais do que amigos.

São Friends.


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