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Quando esse post for ao ar no domingo pela manhã, eu estarei assistindo ao GP da Alemanha de F1. Assistir esportes foi um dos hábitos que eu aprendi com a minha mãe, e que teve a importante manutenção do meu pai. Eu agradeço aos dois por não ser parte do coletivo composto pelo brasileiro médio comum, que só gosta de futebol. Eu gosto mesmo é de esportes. Qualquer esporte.

Esse post vai ao ar, e as minhas malas estarão quase prontas. Meu retorno para Florianópolis se aproxima, e eu detesto perder ônibus ou avião. Procuro deixar tudo pronto antes, para aproveitar ao máximo o tempo que ainda tenho com as pessoas que vão ficar por aqui. Foram 10 dias na minha casa. A casa que os meus pais construíram e vivem a mais de 30 anos. Eu sei algumas das privações que eles tiveram que passar para ter essa casa.

Para mim, essa casa no Bairro Paraíso em Araçatuba (SP) é o meu lar. Aqui, eu guardo algumas das minhas melhores lembranças, alguns dos meus mais polêmicos segredos, e até mesmo alguns dos períodos mais tristes da minha vida. Todas essas experiências fazem parte da minha história, e voltar para cá sempre vai representar vários momentos de flashback, que eu não reclamo. Revisar o passado, de vez em quando, é necessário.

Eu disse que as minhas malas estão prontas. Só não queria dizer que elas voltam para Florianópolis mais pesadas.

E, dessa vez, eu gostaria de carregar comigo apenas o peso das saudades que eu vou sentir de todos eles. As saudades virão comigo, pois morar longe deles foi uma escolha minha. E foi uma escolha acertada. Só assim a minha vida poderia progredir, e hoje eu vejo um horizonte escancarado na minha frente, me chamando para novos desafios.

Mas as malas que eu vou ter que carregar nessa viagem dessa vez estão mais pesadas porque, quando olho para cada um desses seres que estão no fim do seu ciclo, eu sinto o peso nos passos, a vista cansada, as dores, a perda de memória. Dessa vez eu senti o sufoco do esquecimento de onde estar, a angústia por testemunhar alguém que quer sair para “voltar para casa” à quatro da manhã, a tristeza quando me perguntam “quem é você mesmo?” e a insônia daqueles que não sentem mais a diferença entre o dia e a noite.

Dessa vez, eu senti quando ouvi que estava tomando uma péssima decisão, quando tudo o que eu estava fazendo era recomeçar ou tentar de novo.

E tudo o que eu poderia fazer era sorrir e dizer: “mas eu te amo mesmo assim”.

Não é revolta. Não é mágoa. É algo diferente. Um peso que eu não sei explicar, mas que deixaram as malas mais pesadas. E carregar esse peso até Florianópolis não será uma das tarefas mais fáceis.

Eu me lembro que carreguei peso semelhante quando fui embora para Santos antes do ano novo, em 2016. Eu acreditava que aquele momento seria pior. Não foi. É pior agora. Porque… o peso das malas é o peso em constatar que está chegando ao fim alguns ciclos.

Você acredita que está consciente que “é assim mesmo, isso vai acontecer, então… se prepara, pois vai doer…”. Mas se esquece que os sentimentos construídos ao longo de uma vida machucam muito mais que uma injeção (onde curiosamente as aspas também funcionam). É um erro você acreditar que está pronto. A vida é tão dinâmica, que você nunca está pronto para as situações de limite. E por causa disso que é tão interessante essa coisa chamada vida.

Dessa vez, eu estou trocando o peso a mais nas malas por deixar uma parte de mim com as pessoas que aqui vão ficar. Eu poderia trocar…

Desculpa. Eu vou deixar esse parágrafo suspenso. Acabei de ser interrompido pela pergunta “eu moro aqui?”, seguido do pedido “eu quero voltar para casa”.

Eu sei que não há o que possa ser feito. Eu mesmo não tenho o que fazer, e já dei o meu parecer sobre o assunto, entendendo que é preciso tomar decisões que são as melhores para todos. Esse peso em dizer o que penso sobre o tema e a convicção de que eu estou certo ao pensar assim eu não vou carregar. Muito menos o peso em não dizer exatamente o que eu penso sobre o cenário atual.

Porém, o peso da tristeza em ver que o ciclo está chegando ao fim, e que tudo pode estar drasticamente diferente na próxima vez que eu voltar para Araçatuba… esse será difícil de administrar. Eu tento tirar as roupas das malas e colocar alegrias misturadas com saudades, mas o peso está ficando cada vez maior.

Volto para Florianópolis não apenas com a mala pesada, mas com o coração pesando no peito. É o tipo de dor que demora a passar. É o peso que deixa meus passos mais pesados.

Eu vou olhar para o interior das malas, mais uma vez. Só para ter certeza se não estou carregando algo a mais do que eu posso carregar.

Mas temendo que o peso no coração não possa ser aliviado.


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