Press "Enter" to skip to content

Atualizações? A Motorola “superestima” algo que “você não quer”

Peguem seus celulares, um belo balde de pipoca e sentem-se, porque a Motorola acaba de dar uma aula de como menosprezar os próprios clientes com um sorriso no rosto.

Sérgio Buniac, presidente da marca, resolveu soltar uma pérola digna de um parente chato no almoço de domingo: “Atualizações nem sempre são boas”.

Isso mesmo. Segundo a empresa, você não deveria se preocupar tanto com isso. Receber novas versões do Android não é algo bom.

Num mundo onde Samsung e Google já oferecem até sete anos de atualizações e tratam isso com a seriedade de um compromisso de casamento, a Motorola vem com essa.

Para completar o absurdo, o executivo ainda disse que essa preocupação não é prioridade para o consumidor, que estaria mais interessado em “cor, memória e carregamento”.

Ah, tá, então a gente sonha com um celular que não vire um tijolo digital em dois anos, mas a prioridade é ter o roxinho mais bonito da festa.

A cereja desse bolo indigesto é que a declaração chega num momento em que a própria empresa anuncia um modelo “Signature” com promessa de sete anos de updates, mas mantém o resto da linha — incluindo os caros e dobráveis Razr — com um suporte que dá pena.

É a famosa política do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”, ou melhor, do “compre o mais caro se quiser sobreviver”.

 

A desculpa esfarrapada do ano

Em um movimento que mistura cinismo com uma pitada de descolamento da realidade, a Motorola resolveu explicar ao mundo por que seus celulares viram relíquias (leia-se: peças de museu) em menos tempo que a concorrência. Segundo a marca, a gente é que está errado em se importar com essa bobagem chamada atualização.

A justificativa é tão criativa quanto aquela do funcionário que chega atrasado dizendo que o trânsito estava horrível (todo santo dia). A empresa quer que acreditemos que manter o sistema atualizado é meio overrated, uma frescura de consumidor exigente demais.

Mas aí você olha para os modelos mais caros da marca, como o Razr 60 Ultra, e descobre que eles vão parar no tempo em versões específicas do Android, enquanto concorrentes diretos seguem voando.

O mais irônico de tudo é que, ao mesmo tempo que o presidente solta essa frase de efeito digna de vilão de desenho animado, a Motorola lança o programa beta do Android 17 para alguns poucos sortudos.

Ou seja, a empresa tem capacidade técnica, tem gente trabalhando nisso, mas prefere limitar o acesso como se estivesse distribuindo ingressos para um show exclusivo.

 

A realidade (e os números) não mentem

Agora vamos aos fatos, porque números não têm ego nem precisam inventar desculpas.

Enquanto a Motorola acha que atualização é supérfluo, levantei informações que mostram o tamanho do abismo entre o discurso e a prática da empresa.

Por partes.

 

Dois mundos dentro da mesma marca

A primeira coisa que salta aos olhos é a diferença abismal de tratamento entre os modelos.

A Motorola criou uma espécie de “casta” de celulares: os privilegiados que recebem suporte decente e a massa esquecida. O recém-anunciado modelo Signature recebeu a promessa de sete anos de atualizações, algo que finalmente coloca a marca no páreo com Google e Samsung.

Mas é preciso ter estômago para ver que os modelos Razr, que custam uma fortuna e têm tela que dobra (ou seja – e até que me provem o contrário – tecnologia de ponta!), ficam com apenas três anos de suporte.

É como comprar um carro de luxo e descobrir que a montadora só fornece peças de reposição por dois anos.

Absurdo, não?

E não para por aí.

A lista divulgada pela própria empresa mostra uma verdadeira colcha de retalhos: Edge 70 vai até Android 19, mas o Edge 60, que provavelmente custou bem caro no lançamento, morre no Android 18.

O consumidor que desembolsou uma grana achando que estava fazendo um investimento duradouro descobre, meses depois, que seu aparelho já tem data de validade.

 

O fundo do poço dos celulares baratos

Se a situação dos modelos caros já é complicada, a dos celulares de entrada beira o ridículo.

A Motorola lançou recentemente o Moto G17 na Europa, e a situação é tão triste, que dá vontade de mandar os iludidos proprietários para a terapia. O aparelho já sai da caixa com o Android 15, sendo que o Android 16 está no mercado desde meados do ano passado.

Todo mundo que comprou o Moto G17 só descobriu que o pão estava amanhecido na loja depois que recebeu o produto do e-commerce.

Mas o pior vem agora: a empresa não promete NENHUMA atualização de sistema operacional para esses modelos.

Zero. Nada. Apenas alguns anos de patches de segurança, e olhe lá.

Na prática, isso significa que seu celular novo já nasce velho e condenado a nunca experimentar as novidades que o Android tem a oferecer.

É um absurdo tamanho, que chega a ser cômico, se não fosse trágico para quem gastou o suado dinheiro.

 

O jogo de empurra da regulamentação

Agora, prepare-se para a parte mais criativa da história.

Na União Europeia, onde existem leis que exigem anos de suporte, a Motorola encontrou uma solução mais brasileira que samba no pé: o famoso “jeitinho”.

A empresa interpreta a regulamentação de um jeito que só exige atualizações de segurança e correções básicas, deixando de fora as grandes novidades do sistema. É a velha arte de fazer o mínimo possível para cumprir a lei, mas sem oferecer qualquer valor real ao consumidor.

Samsung e Xiaomi correm para oferecer suporte estendido de verdade, mas a Motorola brinca de esconde-esconde com as palavras.

O resultado é que o usuário europeu até tem segurança, mas fica para sempre na versão antiga do Android, vendo os amiguinhos com celulares de outras marcas aproveitando as novidades.

 

O futuro (incerto) do suporte da marca

Diante desse cenário, fica a pergunta: a Motorola vai mudar ou continuar nessa irritante mania de promessas vazias?

A resposta, meus amigos, está nos próximos capítulos dessa novela que parece não ter fim.

O grande teste de fogo será o lançamento da linha Razr 2026, previsto para meados do ano. Se a Motorola realmente aprendeu a lição, esses modelos deveriam vir com a mesma promessa de sete anos do Signature.

Mas o histórico recente da marca é simplesmente assustador (para o consumidor que pagou caro por esses dispositivos, obviamente.

Quando a Motorola lançou o Edge 50 Neo com cinco anos de suporte, todo mundo achou que era o início de uma nova era.

Não era.

A maioria dos lançamentos seguintes continuou com a política mixuruca de sempre, como se o Edge 50 Neo fosse apenas um acidente de percurso, um erro da natureza.

Enquanto isso, a concorrência não dá moleza. A Samsung já oferece seis ou sete anos até para celulares de entrada em algumas linhas, e o Google faz o mesmo com seus Pixels.

A Motorola, que já foi inovadora com o Moto Maker e os Moto Snaps, agora parece ter virado especialista em entregar o mínimo possível, na base do “empurra que dá”.

O consumidor, coitado, fica nesse limbo, sem saber se compra um modelo hoje e amanhã descobre que ele já está na lista dos condenados ao esquecimento digital. A falta de transparência é tamanha que especialistas recomendam guardar prints da página do produto na hora da compra, para ter como provar mais tarde se algo foi prometido.

É triste quando você precisa documentar a compra como quem guarda nota fiscal de eletrodoméstico com medo de dar defeito.

A Motorola parece apostar que o consumidor médio realmente não se importa com atualizações, como disse o presidente.

Pode ser que ele esteja certo sobre uma parcela dos usuários. Mas para quem paga caro por um dispositivo e espera que ele dure mais que um relacionamento de verão, a marca entrega frustração e a certeza de que, na hora de escolher o próximo celular, talvez seja melhor dar uma olhadinha na concorrência.

E que bom que sempre existe a concorrência, não é mesmo?

Já disse isso uma vez, e vou repetir: esse lance de fidelidade é coisa pra gente tonta, e é uma regra que vale para a vida.

Temos que ser fiéis a nós mesmos, e a mais ninguém.

Que dirá ser fiel para uma marca que age dessa forma com o seu cliente?