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Eu demorei demais para escrever sobre Bacurau. Por pura falta de tempo. E porque eu não estou dedicando tanto tempo assim para escrever sobre cinema e TV, uma vez que passei o SpinOff.com.br para frente. Porém, o ano de 2019 está tão incrível para quem gosta de cinema (apesar de um imbecil aí querer acabar com as produções nacionais), que entendo que vale a pena falar sobre um dos melhores filmes do ano (e nessa conta eu incluo os lançamentos internacionais).

A história de Bacurau pode parecer fictícia, mas não é bem assim que a banda toca. Até compreendo que existem alguns elementos de narrativa que aparentemente são absurdos para os olhos mais leigos. Mas é justamente essa metáfora narrativa que torna esse filme ainda maior aos meus olhos. Apresentar um universo alternativo que pode muito bem se encaixar com uma hipotética realidade futura (ou que já é uma realidade de presente, dependendo do lugar do Brasil onde você está).

 

 

Muito mais próximo da nossa realidade do que você pode imaginar

 

 

O fato de Bacurau ser uma cidade que está perdida no meio do nada (e fica mais perdida ainda quando ela misteriosamente desaparece do mapa) não quer dizer que os problemas de uma sociedade que decidiu abraçar o modus operandi de “a justiça pelas próprias mãos” não tenha afetado as demais regiões daquele hipotético Brasil futurista. As escolas são abandonadas, as igrejas e bibliotecas estão fechadas e justiceiros/assassinos/sanguinários contam com mais crédito com a população do que os políticos. E existem execuções coletivas públicas no Vale do Anhangabaú em São Paulo.

O Brasil que aceitou liberar os seus monstros é aquele que suporta ter um posto de saúde como motel para maridos traírem as suas esposas em plena luz do dia. Onde prostitutas reivindicam por justiça, ao mesmo tempo em que uma moça é levada à força para ser estuprada pelo prefeito, sem direito à defesa ou contestação. Esse mesmo prefeito, que acha que é caridade doar à comunidade comida estragada e remédio tarja preta, sem prescrição médica.

Bacurau mostra um Brasil que se esqueceu de olhar para as parcelas mais pobres da população, que abraçou a sua indiferença aos mais pobres, e que decidiu resolver tudo na base da violência extrema. Porque não tinha escolha. E o que é pior: para aquela comunidade sobreviver aos descasos dos seus governantes, era preciso consumir a tal “droga da inteligência”. Nem mesmo os livros poderiam salvar.

Temos aqui um filme difícil de ser acompanhado pelos menos dispostos. Sua narrativa é lenta e detalhada, já que a proposta do roteiro é fazer com que você se envolva com a trama a partir das diferentes perspectivas. Não há um protagonista em Bacurau, nem mesmo nas mãos de Sônia Braga, o nome mais famoso do elenco. As histórias se espalham pela comunidade de moradores, e cada um deles mostra os seus motivos para se defender de um perigo iminente.

O perigo que vem de fora.

 

 

Um marco para o cinema brasileiro

 

 

A inteligência do roteiro pode ser percebida em diferentes momentos. Como, por exemplo, quando os estrangeiros qualificam os brasileiros de “latinos”, mesmo que sejam brasileiros brancos e loiros, vindos do sul do país. Essa é uma narrativa mais real do que você imagina: para os norte-americanos e europeus, todo e qualquer brasileiro é considerado um latino, independente de seus traços etimológicos.

A própria proposta dos norte-americanos brancos querendo exterminar uma comunidade inteira de latinos é outra narrativa muito alinhada com os momentos atuais, onde lentamente o movimento de supremacia branca ganha força em todo o mundo, alinhada com os posicionamentos políticos de alguns líderes espalhados por aí. Eu sei que tem gente que vai achar que é vitimização, mas Charlotesville mostrou recentemente que nós negros somos um dos alvos preferidos dessa nova “cultura de massa”.

Apesar de reconhecer que este não é um filme para todos os públicos e todas as mentes, Bacurau é um dos melhores filmes de 2019. Venceu o prêmio do júri do Festival de Cannes 2019 com méritos. Eu ainda entendo que este poderia muito bem ser o representante brasileiro a disputar uma vaga no Oscar 2020, mas como eu ainda não assisti A Vida Invisível (de Eurídice Gusmão), nosso representante na tentativa de vaga na categoria Melhor Filme Estrangeiro, eu não posso opinar ou afirmar qualquer coisa.

De qualquer forma, Bacurau é um marco no cinema brasileiro. Uma história original, que mostra um Brasil que é bem próximo ao interior do Brasil real, e não as praias de Leblon e Ipanema das novelas do Manuel Carlos. Um Brasil onde viver ou morrer ainda é uma questão de escolha, mas para quem escolheu viver, é uma batalha constante contra agentes externos dos mais diversos.

Por fim, Bacurau deixa aberta a discussão sobre as nossas escolhas de coletivo, e como elas podem impactar em uma sociedade que cada vez mais acredita que pode fazer justiça por si, uma vez que os governantes simplesmente ignoram a existência de alguns grupos. Onde podemos chegar com essa visão de mundo? O que pode nos custar?

Na verdade, já está custando. E o preço é muito alto.

É uma vergonha ver o desaparecimento das produções cinematográficas no mesmo ano em que o Brasil tem dois filmes premiados no Festival de Cannes. Na verdade, é triste e revoltante. Um povo sem a cultura e a arte para levantar questionamentos e promover mudanças de pensamento do coletivo é um povo alienado, entregue à ditadura mental.

Pregam tanto o discurso contra diversas ideologias. E agora estão impondo a pior ideologia: a da ignorância.

Acredite: se você bate palma para esse absurdo, você vai odiar Bacurau. Pois é justamente pessoas como você que esse filme quer incomodar.

 


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