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Para todos os que tem a coragem de serem diferentes.
Para a beleza de todas as diferenças.
Para que você se orgulhe de ser diferente.

Eu encontrei Andreia sentada no corredor do colégio. Na verdade, ela estava entre um “ficar largada” e um “jogada no chão”. Era comum vê-la em situação despojada, uma vez que ela tinha esse jeito mais descolado. Mas naquela manhã, eu encontrei ela com um olhar vazio. Apagado. Triste.

Me sentei ao lado dela, no chão mesmo. Nunca tive as formalidades que os demais alunos de procurar bancos e carteiras para não sujar seus uniformes. Aliás, aquele uniforme me irritava, e eu sempre preferi usar a minha camiseta branca e calças jeans. E um tênis. Sujo, de preferência. Era a minha forma de mostrar ao mundo que eu seguia caminhando na vida.

Andreia olhou para mim com pesar. Ela estava realmente triste por algum motivo muito forte. Questionei para ela o que estava acontecendo, e ela não quis me dizer. Disse que não era nada. E, como todo mundo sabe (ou deveria saber), este é o código para “está acontecendo alguma coisa”.

Perguntei se ela estava com fome ou sede. Ofereci meu sanduíche e meu refrigerante para ela. Ela recusou os dois e permaneceu em silêncio. Parece que ela gostaria de ouvir o ruído produzido pelos demais alunos, com o desejo de, quem sabe, ouvir algo que lhe recobrasse os sentidos de sua existência.

Eu seguia sentado ao seu lado. Em silêncio. Mas me incomodava o silêncio dela. Era era vibrante do jeito dela. Sempre alegre, radiante, irreverente. Ela estava apagada. Desconectada dela mesma.

Até que ela começou a falar.

“Sabe… eu estou cansada de ser julgada por tudo e todos. Julgada pela minha aparência, pelos meus cabelos coloridos, pelas minhas roupas despojadas, pelo fato de eu gostar de meninas… eu fui pega beijando a Rosângela na árvore próxima ao muro, e virei motivo de piada e humilhação na escola toda… eu nem estava fazendo isso para afrontar ninguém: nos beijamos bem longe de todo mundo… eu só queria que ela soubesse que eu a amo…”. 

Eu ouvia atentamente o que ela tinha a dizer. Sentia em seu discurso a dor que ela trazia. Até que ela concluiu com uma frase que mexeu comigo de vez:

“Eu me sinto uma alienígena… já que todos me consideram uma aberração…”


Eu fiquei surpreso com os termos. Mas eu entendi o que ela queria dizer. Pois por muitas vezes eu me senti assim.

Pedi para que ela recostasse a cabeça dela em meu ombro, para chorar um pouco. E Andreia chorou copiosamente. A impressão que eu tive é que ela ou nunca tinha chorado na vida, ou que não chorava há muito tempo. O que tornava toda aquela perseguição à ela algo ainda mais absurdo.

Pedi para ela respirar. Lembrei à ela que ela era uma das alunas mais descoladas da escola, e que tinha muita gente que a admirava por ser assim. Assim como tinha muita gente que a repudiava porque morria de vontade de ter a liberdade que ela tinha.

Disse à ela que eu sabia como ela se sentia. Eu também me vi por muito tempo como um peixe fora d’água, o esquisito que gostava de computadores e canto coral. Mas que, com o passar do tempo, aprendi a me amar, porque adorava esses dois temas: tecnologia e música. Eu entendi que o que me tornava especial era justamente o que eu tinha de diferente em relação a todos, e que isso é algo muito difícil de se obter em um mundo feito por iguais.

Andreia começou a se esquecer do ruído produzido pelo vai e vem dos alunos na escola, e começou a me ouvir com mais atenção. Lembrei para ela os valores belíssimos que ela tinha dentro dela: honestidade, cumplicidade, compromisso, responsabilidade e amizade. Coisas que não encontramos facilmente nas pessoas ditas “normais”.

Lembrei para a Andreia que ela tinha a felicidade de ter alguém que viu o melhor que existia dentro dela. Que ela tinha a felicidade de ter estilo próprio, personalidade. De fugir dos padrões. Que as críticas daqueles que não enxergavam o quão grande era o seu coração não poderiam jamais apagar a sua essência. E que ela jamais pensasse em mudar quem ela era por causa do que diziam a respeito dela.

Muita gente queria ser uma Andreia na vida. Queria ter a coragem e a liberdade de agir e pensar que ela tinha. Porém, por puro medo, essas pessoas viviam na zona de conforto. Muitos com uniformes impecáveis, mas vazias por dentro. Com corações sem vida. Que não aceleram por nada. Apenas batem, e nem conseguem oxigenar o cérebro.

Andreia se levantou. Me pediu um abraço.

Abracei a minha amiga sem qualquer tipo de constrangimento. Sem me importar para os olhares de críticas e julgamentos.

Um silêncio momentâneo se fez. Eu queria transmitir um pouco de paz para aquela moça, e estava conseguindo. Ela tinha parado de chorar, estava com uma respiração mais tranquila, e se sentia acolhida em meus braços.

Até que começamos a ouvir a melodia dessa canção, vindo da sala de coral. Andreia cochicha no meu ouvido um “eu acho essa música incrível”. Eu pergunto se ela sabe o que quer dizer a letra. Ao constatar que ela não sabia, começo a dizer em linhas gerais que fala justamente da beleza em ser diferente, da coragem em sair dos padrões. Na força que existe em se sentir bem consigo mesma.

Andreia volta a chorar. Eu a aperto mais forte em seus braços. E dou ênfase para as frases mais significativas dessa letra:


“Não importa o que façamos
Não importa o que dissermos 

Somos a música dentro da melodia, cheia de belos erros 
E onde quer que formos
O sol vai sempre brilhar 
E talvez amanhã acordemos do outro lado”

Ela olha para mim. O brilho no olhar é outro.

Eu simplesmente digo: “seja você mesma… e viva intensamente…”

Andreia volta a sorrir. Ela entende o recado claramente. E ela se sente atraída pela letra e melodia dessa música.

Andreia quer conhecer o coral. Eu prontamente a acompanho para o ambiente que eu já frequentava a algum tempo.

Ela entra naquela sala. Para não mais sair.

Dois anos depois, Andreia está no palco. Fazendo um emocionado solo dessa mesma música. É aplaudida de pé por todo o colégio, pois muitos dali sabiam o quanto aquelas palavras significavam para ela.

Sim… Andreia é uma das melhores sopranos que eu conheço. E uma das mulheres mais corajosas que eu já conheci.

“Beautiful”
(Linda Perry)
Christina Aguilera, 2002


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