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Tudo aquilo que você não pode deixar para trás.

Fazia um dia de sol terrível naquele dia. Eu estava preso no trânsito, esperando algum carro se mover há uma hora e meia. O calor dentro do carro era insuportável. Mais ainda porque eu estava de terno e gravata. Eu tinha uma reunião importante, de algo que poderia mudar minha vida profissional de forma definitiva.

Eu começava a me preocupar, pois estava me atrasando para essa reunião. Minha cabeça já estava doendo, meus braços doendo de tanto segurar o volante de um carro que simplesmente não conseguia sair do lugar. Parecia até uma metáfora da minha vida: eu não saía do lugar.

Estava no mesmo emprego há quatro anos. Queria uma promoção. Precisava dar uma vida melhor para a minha esposa, gostaria de poder trabalhar melhor, render mais e, por que não, ganhar mais. Minha vida começava a ser um círculo vicioso de uma constante de apenas fazer o que tinha ser feito.

Estava me cansando daquela rotina de ter que enfrentar aquele caminho todos os dias. Queria cenários novos, respirar novos ares. Eu precisava respirar. Aquele carro estava abafado, o ar condicionado não estava vencendo. Minha cabeça doía, me causando desconforto.

Decidi ligar o rádio. A música sempre me acalma.

E a música era “Beautiful Day”, da banda irlandesa U2.

Parecia até uma ironia do destino, porque de “beautiful” aquele dia não tinha nada. Mas como eu adoro essa música, eu deixei rolar. Acredito que essa é uma das grandes obras primas do rock na década passada, ou pelo menos uma das melhores composições do início desse novo século.

Me deixei levar pela densidade sonora suave do começo da canção. Suave, mas ao mesmo tempo bem marcada, ritmada. Como um coração pulsante. Um coração que preparava a mente para o que estava por vir: uma música simplesmente espetacular.

Ali eu já começava a me sentir um pouco melhor. Fechei os olhos para me concentrar na canção. Eu sabia que o engarrafamento não ia andar com tanta facilidade, logo, me permiti dar uma pausa de alguns minutos para aproveitar a música e tentar relaxar um pouco.

Mas antes, dei mais uma olhada no relógio. Apenas para constatar que iria perder a reunião que estava marcada. Não poderia mais me preocupar com isso: afinal de contas, o que não tem remédio, remediado está.

Fechei os olhos. E comecei a viajar na canção.

Me deixava levar pelo ritmo pulsante da percussão, com o objetivo de alinhar os meus batimentos cardíacos com aquele andamento. É irônico… a letra da música citava aquela minha situação de momento: parado, naquele trânsito, sem perspectiva de sair do lugar. Mas eu sorri ao ouvir a letra da música cantada por Bono Vox. Me conecto tanto com aquelas palavras, que não fiquei bravo com essa ironia. Pelo contrario: eu gostei muito do que eu ouvi.

O refrão se aproximava. A música ganhava mais densidade, mais volume.

De repente, ouço um cara do carro ao lado começando a berrar em plenos pulmões o refrão da música. Sim.. ele estava com o carro igualmente parado no engarrafamento. Por um instante, achei que ele tinha enlouquecido, mas depois pude olhar melhor para a cena… e sorri.

Afinal de contas, quem canta seus males espanta.

E, se ele está cantando animadamente no meio do engarrafamento, é sinal que ele está no mínimo feliz. Ou não está se preocupando tando em perder o seu compromisso.

Aquela cena foi um sinal de alerta importante para mim. Eu estava tão preso no engarrafamento que não ia me levar a lugar nenhum, que eu não estava aproveitando o melhor daquela experiência reflexiva sobre minha vida. Entendi que aquele tempo parado poderia me dizer alguma coisa.

Então… eu comecei a olhar para tudo o que estava ao meu redor. Tal e como “Beautiful Day” sugere.

Eu abri os olhos. E comecei a ver com calma o que me rodeava, principalmente sobre o que acontecia dentro dos outros carros.

O cara continuava a cantar a letra, já na segunda estrofe, berrando animadamente. Desafinado que só, mas ele estava feliz. Eu olhava para ele incrédulo, mas com vontade de fazer o mesmo, mas sem a coragem necessária.

Nos outros carros, a vida seguia, cada uma de um jeito. Em um deles, um cara mandava e recebia imagens adultas pelo WhatsApp (excelente para quando estamos parados no trânsito). Em outra, um casal de idosos relembrava os bons tempos do passado, já combinando o baile e o jantar de logo mais à noite. Em outro, um pai de família olhava pela tela do celular a foto da esposa e dos filhos, com saudades, querendo chegar logo em casa.

Uma cena me chamou a atenção: mãe e filha, abraçadas. A mãe consolando a filha, que chorava muito. Em um determinado momento, a filha se acalma, aperta os olhos e os braços em torno do corpo da mãe, como se quisesse se sentir mais envolvida por aqueles braços acolhedores.

Tudo isso me fez lembrar por que eu estava preso naquele engarrafamento: porque eu não conseguia mais olhar para as coisas simples da vida.

Ao mesmo tempo, voltei a me lembrar da minha esposa, dos meus pais, irmãos e melhores amigos. Saber que eles estão no meu coração é um dos motivos para buscar dias maravilhosos, e principalmente: não fazer com que a minha vida se torna uma rotina constante.

Um círculo vicioso que me afastava dessas pessoas no dia a dia. Uma rotina que me deixava abandonado, preso. Sozinho.

Eu aprendi muito naquela tarde com cada uma daquelas pessoas, dentro dos seus carros, presas no mesmo engarrafamento que eu estava.

O mundo poderia estar desabando, mas as pessoas que são felizes sabem que podem enfrentar qualquer desafio ou dificuldade na vida com alegria, coragem, fé e esperança. O mundo é dos otimistas, porque são eles que encontram soluções inovadoras para os problemas desafiadores. O mundo é daqueles que sabem que o mais nobre a fazer em momentos difíceis é sorrir para si mesmo, buscando uma visão melhor de mundo para prevalecer.

A música vai para o seu final. Quando Bono Vox pede para que eu preste mais atenção para a beleza das coisas simples e positivas. Se por um lado o calor era infernal, por outro o céu era perfeito, típico de um dia de verão.

Ao mesmo tempo que os carros parados buzinam sem parar, a sinfonia urbana produzida por todos os elementos presentes na chamada selva de pedra estão em harmonia. É a trilha sonora daqueles que param para prestar atenção que, no meio da correria diária, temos sempre aqueles momentos onde todos os elementos se conectam, de forma perfeita, produzindo sons e imagens inesquecíveis.

Aquele momento estava sendo inesquecível para mim. Um sol forte, um céu azul perfeito, e até uma brisa agradável começava a bater no meu rosto.

O refrão final. Um riff de guitarra muito bem marcado por The Edge, para dar aquela injeção de adrenalina final. Algo que todo mundo precisa de vez em quando para encarar a vida. Algo que vibra dentro de mim como eletricidade, energia. A força que vem da música.

Por outro lado, a música se encerra voltando aos sons mais simples e delicados, criando o contraste que temos na vida quando andamos apressados e nervosos, ansiosos para chegar em algum lugar. Mas que, no final das contas, conclui a jornada quem for sábio para perceber esse cenário ao seu redor. Quem consegue ouvir a sinfonia urbana e entrar em harmonia com tudo isso.

E o mais importante de tudo: compreender que um dia maravilhoso pode também acontecer nos momentos de introspecção. Onde aprendemos com o mundo ao nosso redor.

Onde durante quatro minutos podemos refletir sobre o que temos que fazer para sair daquele engarrafamento.

Os carros começam a andar lentamente. Eu me preparo para sair daquele lugar comum.

Com uma certeza no coração:

“Vou pegar outra estrada, para não deixar para trás aqueles que eu mais amo.” 

“Beautiful Day”
(Bono, The Edge, Adam Clayton, Larry Mullen Jr.)
U2, 2000


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