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E o que que a gente não faz por amor, não é mesmo?

Para mim, Marisa Monte é, hoje, a melhor cantora do Brasil. Aliás, hoje e a algum tempo. Sua capacidade de interpretação é tocante, natural, pessoal. É uma cantora que consegue tocar no íntimo de qualquer pessoa sem exageros. Eu acho isso incrível.

Talvez as próprias características da voz de Marisa Monte a tornam uma cantora muito emocional, o que é positivo no seu caso. Essa conexão através da música é para poucas. É claro que acho Elis Regina a melhor de todos os tempos, mas coloco Marisa em um patamar muito próximo.

Eu compreendo que ela faz a música da forma como eu acredito que deve ser feita: pela música. A vida pessoal, as badalações e a grande exposição na mídia nunca foram a sua praia. Ela sempre se focou no que realmente importava, ou seja, a música.

Mas… vamos falar de amor.

“Bem Que Se Quis” é uma canção de amor. Originalmente compostas por Pino Daniele (na original E Po’ Che Fa), a versão brasileira composta por Nelson Motta é uma das poucas aceitáveis dentre as versões compostas para qualquer música estrangeira. Digo isso porque tem versões nacionais de músicas internacionais que são simplesmente terríveis. Mas nessa aqui, Motta acertou em cheio.

Aliás, vários acertos: a composição, a cantora certa para essa letra, o tempo certo para essa música chegar nas rádios…

Enfim…

Estou enrolando, não é mesmo?

Pois é… todo mundo já sofreu por amor. Todo mundo já teve o coração partido, já se decepcionou, já foi traído. Já traiu e mentiu também, que eu sei. Santo nesse mundo não existe.

Até mesmo você, senhora de quase 80 anos, casada há 55 com o Ariovaldo, que começou a abrir a boca para dizer “eu jamais menti para o meu marido”. Sinto lhe dizer, mas fingir orgasmo conta como mentira, tá?

De qualquer forma, estamos diante de uma canção que retrata tantas outras histórias de coração partido que já vimos e ouvimos por aí. Com a diferença que essa aqui é sim uma história de amor. Pois quem ama acaba perdoando. Mas, veja bem: não estou falando das traições homéricas. Estou falando dos desentendimentos, das brigas, das rotas de colisão que os pensamentos e sentimentos de duas pessoas acabam pegando eventualmente quando decidimos viver uma vida a dois.

Sabe, eu não devia concordar muito com essa letra. Muitos me acusam de não ter perdoado minha ex-esposa a ponto de pedir o divórcio. Porém, eu e ela sabemos muito bem que nos perdoamos. Conversamos até hoje, e sabemos dentro de nós que aquilo que provocou nossa separação não causa mais dor.

Porém, não temos mais volta. Porque hoje vivemos momentos diferentes, mundos diferentes.

Mas essa também é história para outra música.

“Bem Que Se Quis” mostra a confissão de uma mulher que ama tanto, que não se importa mais com as decepções da pessoa amada. Que entende que é melhor sofrer de vez em quando e ter os bons momentos com aquela pessoa do que tentar esquecê-la.

É, pode parecer uma prisão. Mas tem gente que ama assim. Dependendo dos casos, pode até ser masoquismo. E, se for, tente fugir dele o quanto antes.

Mas… quando amamos… acabamos caindo nessa condição de vida de não querer perder. E, por isso, passar por cima das pequenas dores.

Eu fiquei casado por 12 anos. Um dos grandes desafios do casamento é perceber que nem sempre falamos a mesma língua, nem sempre pensamos da mesma forma… e nem sempre caminhamos pela mesma estrada. É difícil compreender isso em tempo de não jogar tudo pelos ares.

Mais difícil ainda é fazer uma estrada correr para o mar daquela pessoa amada.

A vida a dois é complicada. Complexa. Um desafio em busca de não cair na rotina. Requer paciência, compreensão, cumplicidade. Renúncia. E estamos desaprendendo a renunciar. A olhar o outro com olhos de amor. A dizer para o outro “você, que me faz sofrer… por favor, pare, pois quero te amar…” durante uma discussão.

“Bem Que Se Quis” lembra que o desafio da felicidade de um casal é uma constante. Que quando ficamos muito tempo em uma relação, nos modificamos em função disso. O desafio se torna ainda maior quando não queremos perder a nossa identidade, ao mesmo tempo que não queremos perder o companheiro de vida.

É difícil. Dói. Porque felicidade constante não existe. Ainda mais em uma vida a dois. Aí, mais do que nunca, entendemos que felicidade está nos momentos.

Não posso dizer que não fui feliz no meu casamento. Eu fui feliz sim. Muito do que sou hoje eu devo a esse tempo de convivência com uma mulher maravilhosa.

Mas nós dois falhamos.

Porém, mesmo com nossas falhas, eu sempre procurei ouvir as palavras que muitas vezes acalmaram nossos ânimos, nos lembrando o que representávamos um para o outro:

“Vem, meu amor, vem pra mim
Me abraça devagar
Me beija e me faz esquecer”

 


“Bem Que Se Quis (“E Po’ Che Fa'”)
(Pino Daniele – Versão: Nelson Motta)
Marisa Monte, 1989

 


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