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Uma das mais emblemáticas músicas do Queen, que possui um acervo de músicas realmente incrível. Porém, na minha modesta opinião, essa é a música definitiva da banda.

É de um nível de complexidade absurdo no que se refere aos aspectos musicais, com uma estrutura musical muito bem elaborada, e uma letra que absorve quem está ouvindo para o que a história está contando.

Poucas músicas mexem tanto comigo como “Bohemian Rhapsody”. Poucas letras falam tão alto, poucas melodias são tão sentimentais, mesmo com momentos diferentes. Aliás, a melodia e harmonia dessa canção mostra inclusive os próprios conflitos internos de Freddie Mercury, que apesar de se entender muito bem e ser muito bem resolvido sobre o seu mundo e tudo o que o cercava, ele mesmo questionava vários aspectos de sua própria existência.

Complexo isso, não?

De qualquer forma, Freddie Mercury queria uma opera rock. Ele sempre foi um apaixonado pelas óperas (tanto, que anos depois pode realizar o seu sonho, gravando um disco de pop opera com a lendária Montserrat Caballé). O que talvez nem ele imaginasse que fosse acontecer era a criação da definição da opera rock como conhecemos hoje.

Várias bandas e artistas se permitiram ser influenciados por tudo o que “Bohemian Rhapsody” trouxe ao mundo da música. Apresentou uma forma nova de fazer o rock, contando uma história com começo, meio e fim, com complexidade de arranjos, com uma letra emocional, e com vocais incríveis. A estrutura musical dessa música é uma das mais desafiadoras para qualquer banda ou conjunto vocal.

Mas… o que aprendi além de tudo isso?

“Bohemian Rhapsody” narra a história de um suicida que descreve o seu último ato em vida para uma mãe. Revela seus medos, seus monstros internos, e tudo aquilo que o levou a cometer tal crime com ele mesmo. A narrativa de todas as sensações que o homem que recebeu o tiro é algo tão verossímil e pessoal, que exclui a possibilidade desse crime ser ter acontecido com uma segunda pessoa no cenário do crime.

Bom… essa é a conclusão que eu cheguei, já que o texto da música abre margem para interpretações diversas. Mas isso pode nem ser o mais importante dessa música para mim.

Eu nunca pensei na hipótese do suicídio. Sempre tive muito amor pela minha vida, e não apenas por ser uma dádiva entregue por Deus, mas porque viver é algo simplesmente sensacional.

Testemunhar a história sendo escrita, ver a roda da evolução, os avanços tecnológicos, os desafios da ciência. Até mesmo os conflitos políticos e sociológicos. Tudo isso é a história sendo escrita diante dos nossos olhos, e eu me odiaria se eu não vivesse nesse tempo. Eu realmente nasci para esse tempo presente. Esse momento de viver. Esse momento de ver tudo isso acontecer.

Apesar de achar que não pertenço à minha geração (eu sei que tenho um espírito envelhecido, e luto para combater isso diariamente), eu tenho plena consciência de que eu pertenço a esse mundo. A esse tempo. E atentar contra a minha vida seria mais que um crime. Seria uma heresia.

Porém, o texto de “Bohemian Rhapsody” ilustra claramente o que um suicida pensa e sente. É um estado íntimo realmente difícil da maioria de nós compreendermos. Poderia ser simplesmente uma das fases da depressão, mas vai além disso. É quando você simplesmente quer acabar com as dores emocionais e psicológicas. È aquele tipo de dor que nenhum remédio consegue curar. É uma prisão emocional difícil de ser rompida, onde só a própria pessoa pode se libertar.

Muitos simplesmente não conseguem. Muitos simplesmente preferem se entregar ao desespero mais profundo, colocando fim à existência, acreditando que, dessa forma, o sofrimento chega ao fim.

Ledo engano. Só aumenta.

Dentro das minhas crenças e convicções, a vida não acaba quando morremos. Apenas passamos para um outro estágio da vida, não material. E com nossa alma, vem conosco nossa moralidade, consciência, percepção de certo e errado… e sentimos diretamente as consequências dos nossos erros.

Sem falar que sentimos também o sofrimento daqueles que deixamos. Eles sim vão derramar lágrimas de desespero pela nossa insensatez, medo e covardia. Nossos seres mais amados vão nos manter vivos da pior forma possível: através da dolorida saudade. Por termos simplesmente desaparecido da vida deles. De forma repentina, cruel. Como um derrotado.

Eu não me vejo como um suicida. Nunca me vi. Talvez tenha pensado nisso uma ou duas vezes, mas nunca tive a coragem de colocar um fim nos meus sofrimentos dessa forma. No final das contas, eu sempre amei a vida, e hoje eu amo a vida mais do que nunca. Posso ter tentado fugir algumas vezes dos meus problemas, por conta do medo, da vergonha e do receio de ser rejeitado.

Hoje, tudo isso passou. Sou alguém mais forte e consciente da ação de causa e efeito, das consequências de tudo o que fazemos, e de sempre tirar o melhor de todas as experiências. Isso tudo faz parte da nobre arte de viver, crescer e prosperar. Eu sou feliz pra caramba, apesar de todas as dificuldades, e quero aproveitar ao máximo até o último segundo.

Porém, ter a consciência da dor de um suicida me tornou mais humano. Mais sensível. Mais consciente não só sobre minha vida, mas também sobre como nos portamos diante de alguém que quer acabar com tudo dessa forma. Se você não pode ajudar, ao menos procure consolar um coração que está nessa situação. Procurar consolar alguém que está nesse quadro é algo fundamental para uma recuperação. Mostrar o quanto o dom da vida é precioso para todos. Inclusive para aquela pessoa que tenta desaparecer do seu mundo cheio de sofrimento.

“Bohemian Rhapsody” é uma música que enriquece a pessoa nos aspectos técnicos e musicais, e molda caráteres daqueles que realmente acreditam que a música pode transformar vidas. É uma música que salva. Salva quem quer morrer, e salva quem ama viver. É música que te abraça nos seus momentos de desespero, para que você possa depois abraçar alguém desesperado na sua frente. É uma música que mostra por que vale a pena brigar contra os demônios internos que querem te sequestrar.

Música que mostra por que Deus quer que você se mantenha firme.

Não importa para onde os ventos da sua vida soprem…

“Bohemian Rhapsody”
(Freddie Mercury
Queen, 1975

 


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