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Nasceu assim. E não há crime nenhum nisso.

Eu sou heterossexual. E negro. Mas vim parar em uma cidade no Paraná onde algumas pessoas tem a mente tão atrasada, que pensam que, pelo fato de sempre gostar de conversar mais com as mulheres, eu poderia na verdade ser homossexual. Ou no mínimo fazem piadas pejorativas, do tipo “ele não se definiu”.

Eu começo a achar tudo isso muito engraçado. Abre para mim a oportunidade de sempre surpreender as pessoas com minhas atitudes, o que é sempre válido, ainda mais para pessoas que pensam dessa forma. Jamais desconfiam que… enfim, deixa pra lá. O assunto não é esse. Vou me focar no tema desse texto.

A verdade é uma só: o brasileiro é preconceituoso. Alguns o fazem abertamente, outros de forma disfarçada, outros tantos de forma inconsciente, e alguns de forma bem velada. Mas o preconceito existe.

Com o passar dos anos, eu fui percebendo que eu, como negro, era “mais aceito na sociedade” do que alguém que era homossexual. Eu testemunhei isso por diversas vezes em diferentes núcleos da sociedade, em diferentes estados. Em algumas culturas isso está mais explícito do que em outras, mas está lá. Se faz presente de tempos em tempos.

O que eu acho lamentável. Em linhas gerais, todo brasileiro está no mesmo buraco. É governado pelos mesmos políticos corruptos, precisam pagar os mesmos impostos, e vivem no mesmo país onde o Faustão tem a maior audiência da TV no domingo, mostrando as mesmas coisas a anos.

Ou seja… preconceito pra quê, se está todo mundo na mesma merda?

Antes, me incomodava o fato das pessoas tentarem me diminuir apenas e tão somente pelo fato de eu ser negro. Eu realmente queria entender isso, uma vez que o negro fisicamente é melhor em tudo em relação à todas as outras raças. Eu queria ver muito racista deixando de assistir futebol ou torcendo pela Seleção Brasileira, por exemplo.

Sempre achei uma teoria bem idiota essa de ridicularizar alguém por causa da cor da pele. Se bem que eu acredito com força que o racismo existe por causa do recalque. Mas falo disso em outra oportunidade.

Com o passar do tempo, eu fui percebendo que o preconceito contra o homossexual é algo muito maior e muito mais cruel. Chega a ser violento em alguns casos. Os tais crimes de ódio que acontecem em todos os lugares (aqui em Ponta Grossa infelizmente aconteceu, com um amigo próximo) mostra em como o brasileiro, COMO POVO (veja bem: aqui estou qualificando a cultura do coletivo; individualmente, cada um que preze pelos seus valores morais), não respeita o homossexualismo.

Tem muito brasileiro imbecil por aí. Não entende que o fato de você não aceitar algo para a sua vida não te dá automaticamente o direito de você agredir aqueles que aceitam esse algo. Não respeitam o espaço do próximo, não respeitam o semelhante como ser humano. Não tem respeito às diferenças. Não admite o diferente.

Pessoas assim não são apenas preconceituosas e intolerantes. Essas pessoas tem medo. Vivem na zona de conforto da moral e dos bons costumes, apenas e tão somente para não admitirem o diferente em suas vidas.

O pior é que muitas dessas pessoas se dizem cristãs, vão na igreja sempre, e se dizem tementes à Deus. Aliás, ousam falar em nome de Deus para defender seu preconceito. Ora, se é um Deus de amor e bondade, então ele errou com os homossexuais? Eu não consigo entender isso!

É engraçado como alguma pessoas consideram e desconsideram o livre arbítrio quando querem. Enchem a boca para mandar em momentos infelizes um “Deus quis assim”, mas quando as coisas saem dos padrões que elas estabeleceram para elas mesmas, qualquer desculpa serve, e Deus deixa de ser onipresente, onipotente e perfeito?

Não, queridos preconceituosos…. Deus quis assim também!

Porque ninguém escolhe ser gay ou hétero. As pessoas NASCEM ASSIM!

É uma condição íntima como qualquer outra. Acho babaca as pessoas terem repulsa quando dois homens ou duas mulheres se beijam em público. Esta é uma simples manifestação de amor e carinho, que dois seres humanos podem e devem fazer. Muito pior são aqueles casais héteros que não tem a coragem de fazer por medo do que as pessoas vão pensar, ou por travas que as religiões impõem.

Logo, vamos parar de agir como o povo das cavernas (e acho que nem eles agiam assim), e vamos baixar a bolinha achando que o mundo é apenas para o “padrão de comportamento”, ou para aquilo que as pessoas convencionaram como “normal”. E normal não sei aonde, já que tem muita gente maluca por aí. E, de novo: eu não estou dizendo para você sair por aí beijando pessoas do mesmo sexo. Só estou pedindo encarecidamente para você olhar para TODAS AS PESSOAS COM HUMANIDADE, já que, antes de qualquer coisa, estamos falando de PESSOAS.

Respeitar as pessoas. Isso qualquer religião ensina, mas em via de regra, se aprende em casa.

Ah, e não venha com a desculpa do “ah, meu filho vai ver dois homens se beijando, o que ele vai pensar? E se ele gostar?”. Essa desculpa não cola: você, como pai ou mãe, é OBRIGADO(A) A AMAR SEU FILHO. E isso, independente do fato dele gostar do boneco do He-Man porque é um cara bronzeado, semi-despido, usando apenas uma cueca peluda e botas!

Você nunca pensou nisso, né???

Por fim, eu costumo dizer que, nesse momento da minha vida, é muito melhor ser amigo de um homossexual do que de um deputado. Os gays são inteligentes, perspicazes, divertidos, talentosos, bem sucedidos (na maioria dos casos) e, com muita sorte, livres para amar e serem amados. São corajosos, fortes. Mantém viva a chama da juventude em seus corações.

Por outro lado, conheço muito hétero traindo o cônjuge, roubando instituições públicas, mentindo, prevaricando, passando a rasteira em amigos e colegas de trabalho… ou seja, vê lá se as pessoas tem moral de ficar apontando o dedo para quem é diferente.

Estamos conversados?

O pior é que não. Esse assunto ainda não acabou. Ainda mais nessa semana.



“Born This Way”
(Stefani Germanotta, Jeppe Laursen)
Lady Gaga, 2011


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