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Mas é claro que ele não vai entender!

– “Capacidade cognitiva? O que é isso?”, perguntou o tiozão do churrasco.

O brasileiro médio é o tiozão do churrasco. Fato. Eu poderia também chamar o brasileiro médio de Homer Simpson, e o termo se encaixaria perfeitamente. Mas como nem todas as pessoas passaram boa parte da vida assistindo Os Simpsons e praticamente todo mundo que eu conheço já trombou com um tiozão do churrasco por aí, é muito mais fácil levar esse texto adiante usando esse personagem tão peculiar do imaginário popular.

Mas nem o tiozão do churrasco, nem pelo menos 30% da população brasileira tem capacidade cognitiva para entender o que significa o termo capacidade cognitiva. Que dirá identificar humor e ironia em uma piada. Essa turma, que passou a vida assistindo aos Trapalhões fazendo piadas racistas, misóginas e homofóbicas jamais vai compreender porque eu acho engraçado quando constato que a capacidade cognitiva do tiozão do churrasco é tão desenvolvida quanto a sua capacidade de mastigar chicletes e caminhar ao mesmo tempo. E, ainda assim, ele tropeça pelo caminho.

De fato, para compreender um humor irônico, é preciso ter um raciocínio rápido e uma mente mais aberta. É preciso estar pronto para se surpreender a qualquer momento, e aceitar que vai ver e ouvir algumas coisas que podem chocar ou desagradar de vez em quando. Pessoas que só conseguem rir de piadas previsíveis e com finais óbvios não conseguem enxergar o humor implícito na comparação entre o Geraldo Alckmin e um picolé de chuchu.

Até chegamos perto de um sentimento de compreensão coletiva quando comparamos o Zinho a uma enceradeira em 1994, ou o Fred com um cone do Detran em 2014. Mas aqui, dois elementos foram fundamentais: a Copa do Mundo (e brasileiro gosta mais de futebol do que da esposa pelada de quatro segurando duas Brahmas geladíssimas) e o sentimento de revolta que esses dois indivíduos gerou em nossas mentes. E como não temos futebol todos os dias…

O tiozão do churrasco é aquele que se dá ao direito de fazer piadas homofóbicas na frente dos gays e rir de si mesmo. Faz piadas racistas achando que isso é normal. Assedia mulheres e se defende com “é tudo brincadeira… eu perco o amigo, mas não perco a piada”. Ah, sim, claro… o tiozão do churrasco pode muito bem ser o tiozão do pavê, ou também reclamar de livros porque “eles tem muitas palavras”.

Então… o brasileiro médio (que é o tiozão do churrasco) não consegue entender o que é um humor mais sofisticado porque, basicamente, tem preguiça. A gente passou décadas chamando o baiano de preguiçoso, mas nos últimos dois anos constatei que muita gente teve preguiça de ler cinco folhas de PowerPoint mal escritas antes de tomar decisões importantes.

E chegamos onde chegamos.

É quase inacreditável constatar como o brasileiro médio ainda consegue sobreviver sem leitura, cultura ou informação. Se o Brasil for o primeiro alvo de uma invasão alienígena, nós estamos lascados, pois os tais 30% de tiozões do churrasco não vão saber ler o manual para usar as armas, não vão conseguir dizer “leve-me ao seu líder” no idioma Klingon, e não vão sabre o inglês suficiente para telefonar para Tony Stark, Will Smith, Jack Bauer e Bruce Willis, as únicas pessoas que podem salvar a humanidade nessa situação.

Mas… não. O brasileiro médio (e o tiozão do churrasco) adora ficar no ZapZap mandando mensagens “cristãs e edificantes” de BOM DIA, GRUPO pela manhã, algumas fake news depois de acordar da soneca pós almoço, vídeos com grupos enormes de pessoas fazendo coreografias patéticas e gestos manuais fálicos no final do dia e, para dormir bem, aquela piadinha sem graça de algum brasileiro do interior do Brasil fazendo alguma coisa que mostra a sua visão teoricamente mais atrasada sobre o mundo.

Sabe… eu sinto saudades do humor de Jô Soares. Altamente inspirado em Monty Pyton (procure a partida de futebol entre filósofos e compre fraldas geriátricas, pois você vai se mijar de tanto rir), ele apresentava esquetes que questionavam o momento presente com citações a pensadores, escritores, poetas, grandes personalidades históricas e, é claro, o brasileiro médio. Alguns personagens eram inspirados no tiozão do churrasco, mas sempre com uma fala mais inteligente e crítica, sem cair na obviedade do humor de causa e consequência.

Aí, quando buscamos fazer um humor parecido com o dele, que também se inspira no questionar aquilo que não tem lógica alguma, denunciando o modus operandi que quer acabar com o pensamento livre e que, de alguma forma, tira o coletivo da zona de conforto… pronto: vem o tiozão do churrasco dizendo “vou guardar a minha carteira porque é preto e flamenguista”, ou “tudo pequeno com o japonês aí?”, ou até mesmo com um “esses livros aí tem muitas palavras, e isso me incomoda”.

Sério! Um arsenal de piadas muito sem graça!

Logo, é óbvio concluir que o tiozão do churrasco e os tais 30% não vão entender o que é humor e ironia, muito menos o que significa capacidade cognitiva. Aliás, um alerta para você que teve a coragem de chegar até o final desse texto sem pegar o número do advogado para me processar: desconfie das pessoas que não conseguem entender as ironias presentes em uma piada ou na vida ao seu redor, pois são essas pessoas que precisam comprar um dicionário ainda hoje (ou consultar o Google) para compreender o significado do termo “capacidade cognitiva”.

Bela tentativa, mas o tiozão do churrasco não sabe trabalhar com figuras de linguagem para fazer uma piada.

Ah, sim… figura de linguagem? Eu usei ela nesse texto. Pesquise também para saber o que significa isso.


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