Em novembro de 2017, na comunidade de São Pedro de Alcântara (SC), eu sofri e testemunhei uma das maiores manifestações racistas, misóginas e homofóbicas da minha vida. Um indivíduo, totalmente alcoolizado (o que não é desculpa, já que o álcool potencializa as chances da pessoa mostrar o que realmente traz em seu interior), se dirigiu até mim com frases lamentáveis, como:

“Um, delicadinho… vai ver é viado… e além de viado é preto… e preto para mim é bosta…”

Não satisfeito, ele deu um tapa de mão aberta no meu rosto e no rosto de duas amigas que eu acompanhava no evento (uma delas, uma irmã religiosa, que foi assediada por ele ao afirmar que “eu sempre quis comer essa irmã, mas ela dava só pra Deus…”).

Peço desculpas pelas expressões. Mas elas são necessárias para que você tenha uma ideia do nível do problema que eu enfrentei. E quando digo que “você só vai ter uma ideia”, é porque muito provavelmente jamais saberá como alguém como eu se sente diante das práticas inacreditáveis de mentes primitivas. Talvez as lágrimas que rolaram pelo meu rosto naquele dia refletiram um pouco da dor que eu senti por ser diminuído por algo que eu não poderia mudar em mim, apesar de compreender que não tenho motivos para mudar quem eu sou, mas sim de acreditar que por ser assim eu poderia despertar empatia no próximo.

Por muito tempo eu fiquei me perguntando se eu não deveria reagir à tamanha violência. Se eu não deveria ter esmurrado aquele senhor bêbado e emocionalmente frustrado pela vida infeliz que leva até ele entrar em coma. Felizmente, meus pais (especialmente a minha mãe) me ensinaram a não revidar, e me fizeram entender que eu não poderia resolver os meus problemas com violência.

Naquele dia, eu pensei nos meus pais. Pensei nas minhas amigas que foram humilhadas por um ser desprezível. Pensei nos demais presentes no evento. Eu pensei até na mãe do dono da casa, uma senhora que estava completando 90 anos naquela semana.

Aquela senhora era a mãe do agressor. E não tem culpa de ter um filho assim. Ou talvez tenha a culpa sim, mas… adianta cobrar alguma coisa dela a essa altura da vida? Ele usou o seu livre arbítrio para me odiar, apesar de compreender que racismo, homofobia e ódio ao diferente é algo que a pessoa aprende de alguma forma.

Um ano depois, eu resgato esse episódio. Não porque é Dia da Consciência Negra e, mais uma vez, eu quero alertar a aqueles que me querem bem e até aqueles que me odeiam pela minha forma de ser ou pensar…. ou por ser diferente. Hoje, eu quero compartilhar com vocês o que aconteceu na minha vida, um ano depois desse lamentável episódio.

Para começar, eu não desisti.

Não desisti de ser a pessoa que eu sempre fui. Não desisti das minhas amizades, do meu trabalho, da minha música e, principalmente, não desisti de mudar a minha vida para Florianópolis (SC). E fiz isso sem ter a real consciência de como essa visão de mundo deturpada era mais comum do que eu imaginava. Seja pela teoria da ‘visão de ilha’ (onde boa parte das pessoas não questiona sobre o que tem além do mar e das montanhas que cercam a ilha, limitando as visões do mundo), seja pelas origens étnicas (muitos grupos de origem europeia e fechados nos seus costumes e tradições), fato é que tive algumas surpresas ao conviver com algumas pessoas daqui.

Para continuar, eu não desisti.

Eu segui o meu caminho, buscando fazer o meu melhor em tudo. Entre erros e acertos, ajudei pessoas que me querem bem até hoje, e choquei algumas que não entenderam a minha visão de mundo. Não eram obrigadas. Afinal de contas, é a tal ‘visão da ilha’ que se fez presente. Machuquei algumas pessoas sim, na tentativa de acertar. Porém, de um modo geral, recebi o apoio de muita gente pelas boas coisas que consegui fazer.

Para terminar, eu não desisti.

Decidi arriscar tudo em busca do ‘sim’ por entender que o ‘não’ eu já tinha, e vou continuar a ter para muitas coisas na minha vida. Quando eu não acreditava mais em mim, sempre apareceu alguém para me convencer que eu estava errado. E se eu cheguei a algum lugar aqui em Florianópolis, é porque eu encontrei pessoas que viram o que eu tinha de melhor e especial, em coisas que eu tinha dúvidas que ainda existiam em meu ser.

Agradeço a todas as pessoas que enxergaram em mim algo além do que a cor da minha pele.

Eu entendo hoje que o ano de 2018 foi além de simplesmente constatar que o brasileiro médio (e aqui cada um se coloque como exceção, mas saiba que eu sempre vou saber quando você estiver mentindo para mim) é sim racista, machista, misógino, homofóbico e xenofóbico. Meus argumentos estão claros nas nossas escolhas mais recentes. Por outro lado, acho também que 2018 é o ano que marca o início de uma nova discussão, se é que esse debate um dia vai existir.

Não é mais uma questão de cor, condição sexual, gênero, idade, etnia. Nenhum dos rótulos estabelecidos entram na problemática atual. Hoje, eu percebo que a discussão precisa se centrar nas pessoas. Na capacidade de voltar o nosso olhar para a pessoa que está ao nosso lado no banco, na padaria, no supermercado, na cama, nos corais. Na vida.

Em um ano onde o mundo conheceu a história de um herói negro que era forte pelo empoderamento de sua cultura se transformar em um dos filmes mais assistidos de todos os tempos (Pantera Negra), eu entendo que a cultura pop sempre foi nossa. Que silenciosamente prevalecemos na música, na dramaturgia, na política e nas questões humanitárias. Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas ao menos sabemos que discursos de ódio contra negros não são mais aceitos de forma silenciosa.

Por outro lado, foi o mesmo ano que testemunhei mulheres BRANCAS criticando o fato do dia 14 de março ser instituído como o Dia de Marielle Franco, mulher negra e homossexual que foi barbaramente assassinada no Rio de Janeiro (em um crime que até hoje não foi solucionado), com o objetivo de conscientizar a população contra o genocídio da mulher negra no Brasil.

A crítica contra Marielle não tem tantas vertentes raciais, de gênero ou de homofobia. Ela é feita pelo viés político: por ela ser uma militante de esquerda, por abraçar causas que outras pessoas não apoiam, por defender minorias. Só que as mesmas pessoas que criticaram o ‘genocídio da mulher negra’ não sabem ler estatísticas: no Brasil, uma mulher negra tem DUAS VEZES MAIS CHANCES de ser morta de forma violenta… justamente por ser negra!

Por isso…

Vamos denunciar. Vamos gritar. Vamos bater atabaques e levantar os punhos. Sempre.

A minha cor da pele? Não importa mais. Hoje, com quase 40 anos de vida, eu sei que o mundo que me cerca não vai anular a minha identidade cultural e toda a força que a minha raça possui. A história da humanidade mostra claramente a contribuição que deixamos para um mundo melhor, mais bonito e mais feliz.

Que? Eu ainda preciso dar exemplos para você? Vamos lá:

Zumbi dos Palmares, Martin Luther King Jr, Malcolm X, Pixinguinha, Cartola, Jamelão, Wilson Simonal, Denzel Washington, Barack Obama, Pelé, Michael Jordan, Michael Jackson, Jay-Z, Beyoncé, Aretha Franklin, Ray Charles, Joaquim Barbosa, Machado de Assis, Rosa Parks, Nelson Mandela, Viola Davies, Jesse Owens, Dandara dos Palmares, Louis Armstrong, Chuck Berry, Nilo Peçanha, Cruz e Sousa, Luiz Gama, Mãe Menininha do Gantois, Grande Otelo, Ella Fitzgerald, Gilberto Gil…

Eu poderia passar dias ampliando esse texto apenas para mostrar para você como a negritude contribuiu positivamente para a história do mundo. Eu posso até não convencer você, e de alguma forma você vai continuar a diminuir o meu discurso. Mas se alguém que ler esse texto entender que o negro é lindo, é forte e é foda, pode se juntar a mim para fazer com que essas verdades ecoem com mais força.

Por outro lado, é como eu disse antes: não é mais uma questão da cor da pele. É o olhar para o diferente.

Hoje, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, eu continuo a bater os meus atabaques. Aliás, como você não sabe o que se passa dentro do meu corpo, eu preciso falar: o meu coração bate como um atabaque barulhento e ensurdecedor, tal e como aqueles que vibravam dentro dos navios negreiros que trouxeram os meus irmãos no passado. Hoje, as minhas mãos batem mais firmes no couro do instrumento. Com toda a força e energia que carrego nos braços. Minhas mãos vão sangrar. E que sangrem! Quero testemunhar o sangue na pele do atabaque, para que eu me certifique que deixei o melhor de mim.

Que ao levantar o meu punho banhado em sangue, que o mundo possa constatar a minha entrega total às causas que eu defendo. Mesmo que tentem me calar com um hipócrita discurso do “a melhor forma de combater o racismo é não falar sobre ele”, a minha imagem com o punho cerrado, banhado em sangue e levantado para o céu ficará marcada na mente daqueles que se sensibilizarem.

Mas hoje e sempre… eu somo a minha voz à voz dos diferentes. Dos marginalizados por assumirem escolhas que fogem ao senso comum. Meu discurso agora é em uníssono com aqueles que decidiram assumir escolhas complexas e conflitantes em nome da felicidade. E o mais importante: abraço fraternalmente a todo e qualquer ser que é diminuído por práticas nefastas dos chamados “bons cidadãos”* ou “cidadãos de bem”*, que na verdade discriminam outros seres humanos por características que não podem mudar.

Sim. O Dia da Consciência Negra deveria ser o Dia da Consciência Humana. A minha raça conseguiu o microfone na mão, e na falta desse, usa o megafone ou grita para as multidões. Agora, é preciso dar voz para aqueles que mal conseguem sussurrar, com medo de violências piores caso manifestem a sua real essência.

Eu não desisti. Eu não vou desistir. Eu vou seguir batendo o meu atabaque, erguendo o meu punho cerrado, e cantando para quem quiser ouvir as belezas da minha negritude. Em meu nome, e em nome de todos os meus iguais.

Custe o que custar.

 

P.S.: A título de curiosidade, “Good Citizen” (bom cidadão) era o nome de um periódico publicado nos EUA, entre 1913 e 1933, pela líder religiosa Alma White, que apoiava o grupo supremacista Ku Klux Klan. No livro “The Second Coming of The KKK: The Ku Klux Klan of the 1920s and the American Political Tradition” (A Segunda Vinda da KKK: a Ku Klux Klan de 1920 e a Tradição Política Americana, em tradução livre), a historiadora Linda Gordon, da Universidade de Nova York (EUA), afirma que o periódico se destinava exclusivamente à KKK. Um grupo “divinamente ordenado”, na visão da influente reverenda. Ou seja, eu recomendo que você pense umas dez vezes antes de se auto proclamar um “bom cidadão” ou um “cidadão de bem”, pois é uma expressão com origem explicitamente racista. A história está aí para mostrar.