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Censura fez a Disney perder US$ 4 bilhões

Tem uma galera que insiste em dizer que “quem lacra não lucra”. Bom, podemos dizer também que “quem decide apoiar a censura perde uma boa quantia de dinheiro”. E como o mundo capitalista só funciona quando o dinheiro entra (e, neste caso, quando sai também), temos uma polêmica se resolvendo em função dos prejuízos, e não dos aspectos morais e éticos.

A Disney perdeu aproximadamente 4 bilhões de dólares em valor de mercado após cancelar temporariamente o programa de Jimmy Kimmel na semana passada. A decisão inicial foi tomada em resposta aos comentários do apresentador sobre o assassinato do comentarista conservador Charlie Kirk, gerando uma crise de reputação sem precedentes para a empresa de entretenimento.

Acontece que a Disney só teve problemas após a suspensão de Kimmel, levando porrada de todos os lados. E quando a conta chegou com saldo negativo, Bob Iger (CEO da empresa) literalmente “peidou”, e voltou atrás na suspensão.

Jimmy Kimmel volta ao ar com o seu talk show ao vivo hoje, 23 de setembro. Mas… a que preço?

 

Uma tempestade em cima da Disney

Nunca testemunhamos um massacre tão grande contra a reputação da Disney. Nem mesmo quando mataram a mãe do Bambi ou quando decidiram fazer anões de CGI em filme live action a empresa apanhou tanto.

O que acho ótimo, por sinal.

O cancelamento provocou uma onda massiva de cancelamentos de assinaturas do Disney+, demonstrando que a pressão financeira dos consumidores pode ser mais eficaz do que campanhas políticas tradicionais.

E que o brasileiro médio aprenda com esse episódio: as grandes corporações só mudam suas posturas e atitudes quando o coletivo decide se manifestar sobre o assunto. E a melhor maneira de se fazer ouvir junto às grandes empresas é tirando o dinheiro deles.

A reação do público superou as expectativas da própria Disney, que subestimou o impacto econômico de sua decisão editorial sobre um dos programas mais populares da televisão americana.

Estamos falando do Jimmy Kimmel. E ele pode não ser conhecido para o brasileiro médio que caiu neste artigo de paraquedas. Mas… acredite em mim (se quiser): ele é grande dentro do segmento de talk shows norte-americanos.

Sem falar que Jimmy tem no seu currículo ser o apresentador de algumas edições do Emmy (prêmio voltado para o horário nobre da TV norte-americana) e – o mais importante – foi o host do histórico Oscar da troca dos envelopes (que “Moonlight: Sob a Luz do Luar” venceu como Melhor Filme “La La Land”, em uma das maiores gafes da premiação em todos os tempos).

Mais de 400 celebridades assinaram uma carta denunciando o que consideram um ataque direto à liberdade de expressão nos Estados Unidos. Entre os signatários estavam artistas contratados pela própria Disney, incluindo Tatiana Maslany, estrela de “She-Hulk: Attorney at Law”, que pediu publicamente boicotes econômicos contra a empresa como forma de protesto.

Aliás, a Disney vai ter que rever a relação com pelo menos metade dos atores que, neste momento, estão trabalhando nos dois próximos filmes dos Vingadores. Boa parte do elenco da Marvel Studios foi muito vocal sobre esse episódio.

O retorno do programa foi anunciado oficialmente pela ABC após uma semana de negociações intensas entre a Disney, representantes de Kimmel e executivos da rede.

A empresa justificou a decisão original como uma medida para “evitar inflamar ainda mais uma situação tensa”, mas a reversão indica que os custos financeiros superaram as preocupações políticas iniciais.

 

Censura disfarçada de pressão regulatória

O atual governo dos Estados Unidos aplicou com a Disney (que é dona do canal ABC) a mesma prática que foi adotada para estabelecer o “tarifaço” contra o Brasil: a pressão regulatória que, neste caso, maquiou a censura contra Jimmy Kimmel.

Brendan Carr, presidente da Comissão Federal de Comunicações, ameaçou as licenças de operação das emissoras que transmitiam o programa de Kimmel. A ação colocou a ABC sob pressão direta de grandes grupos de radiodifusão como Nexstar e Sinclair, que anunciaram que não transmitiriam mais o talk show.

Lembrando sempre que, dois meses antes (quando a CBS decidiu cancelar o talk show de Stephen Colbert alegando “elevados custos operacionais” quando, na verdade, o apresentador foi alvo da política de silenciamento por ser extremamente mordaz contra o atual governo norte-americano), o atual presidente dos Estados Unidos deixou claríssimo na sua rede social que “Jimmy Kimmel ERA O PRÓXIMO”.

Coincidência? Estou duvidando.

A situação expôs as complexas dinâmicas entre liberdade de expressão, pressões comerciais e interferência governamental na mídia americana. A ameaça de Carr às licenças das emissoras representa um precedente preocupante para a regulamentação de conteúdo televisivo, especialmente quando envolve comentários políticos de apresentadores estabelecidos.

E para deixar o cenário ainda mais complexo (e, ao mesmo tempo, esclarecendo melhor a decisão da Disney), recentemente foi anunciada a compra de 10% dos canais esportivos da ESPN pela NFL (National Football League).

E a mesma Disney precisa de aprovação do governo norte-americano para essa negociação se converter em dólares para o Mickey.

Até lá, precisa administrar os prejuízos financeiros resultantes da suspensão do Kimmel. Por isso, não pode correr o risco de perder US$ 16 bilhões por mês (estimados) apenas e tão somente porque decidiu apoiar a censura estabelecida pelo “agente laranja”.

 

Como tudo isso pode terminar

O contrato de Kimmel com a ABC expira em 2026, e especula-se que o apresentador, veterano com 23 temporadas no ar, pode estar considerando outras oportunidades após este episódio de censura.

A tendência é que a ABC “se livre do problema” com um término amigável da relação com o apresentador que, da mesma forma que deve fazer Stephen Colbert, vai buscar o discurso livre no local onde ele pode manter a sua relevância e visibilidade sem ser ameaçado por agentes governamentais: a internet.

Sua posição como ícone da televisão americana, responsável por centenas de vídeos virais e momentos marcantes da cultura pop, garante que ele não terá dificuldades para encontrar novos parceiros.

Pode até ser que Kimmel vá para a TV a cabo, que é um local (em teoria) mais seguro. Mas certamente o YouTube está pronto para recebe-lo de braços abertos.

Apesar do retorno do programa, nem todas as afiliadas da ABC voltarão a transmiti-lo imediatamente. A Sinclair, que controla 39 estações afiliadas incluindo Washington DC, manterá a substituição por programação jornalística enquanto “avalia o retorno potencial” do show, demonstrando que os efeitos da controvérsia ainda persistem no sistema de radiodifusão americano.

Aqui, só podemos estimar que a decisão por manter a suspensão está diretamente atrelada aos interesses comerciais da Sinclair, ainda mais considerando que essas afiliadas operam no interior dos Estados Unidos, que é majoritariamente conservador.

A crise revelou a vulnerabilidade das grandes corporações de mídia diante da mobilização coordenada do público consumidor, especialmente quando questões de liberdade de expressão estão em jogo.

Na prática, o “discurso livre” agora ficou condicionado, e a única maneira de se garantir que o espaço para a liberdade de expressão seja intocável nos grandes grupos de mídia é ameaçar os lucros de todas essas empresas.

A perda de 4 bilhões de dólares em uma semana, mesmo representando apenas 2% do valor total da Disney, enviou um sinal claro sobre o poder econômico do ativismo digital. Se o coletivo se organizar, dá para reverter as decisões absurdas tomadas por executivos irracionais.

Apenas 2%… EM UMA SEMANA. Não sei se é pouco ou muito, mas assustou bastante ao Bob Iger e demais acionistas na Disney.

O episódio estabelece um precedente importante para futuras disputas entre conteúdo editorial e pressões políticas na mídia americana, demonstrando que a sustentabilidade financeira pode prevalecer sobre considerações puramente ideológicas quando o impacto econômico atinge níveis insustentáveis para grandes corporações de entretenimento.

Pelo visto, quem tenta censurar a lacração perde ainda mais dinheiro do que poderia imaginar.

Quem sabe da próxima vez a Disney se esquiva do viés ideológico, e só faz o que sabe: entreter as pessoas.

 

Via APNews, The Verge, The Washington Post