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Eu devo desistir? Ou devo apenas continuar nessa busca impossível?

Eurídice estava ali, sentada, na calçada. Seu olhar era fixo para suas mãos enrubescidas pelo vermelho das pétalas das rosas despedaçadas combinadas com o sangue de suas mãos machucadas pelos espinhos. Ela sentia a dor das mãos feridas e do coração partido. Sentia o peso do mundo nas costas. Sentia os pés machucados por ter caminhado em vão.

Seu relacionamento de oito anos com Orfeu estava chegando ao fim. A imaturidade dele. A impaciência dela. Eram acusações mútuas de intolerância e falta de amor. Quando na verdade os dois não se entendiam mais por se amarem demais, e não mais entenderem como viver com isso.

Eurídice estava sentada na calçada. À beira do caminho.

Queria encontrar respostas. Queria encontrar um caminho a seguir. Ela pensava no que seria da vida dela sem aquele homem que foi o centro de sua vida por tanto tempo. Ela se sentia sozinha sem ter aquele homem orbitando emocionalmente sua vida.

Eurídice olhou para frente. Viu o movimento dos carros na rua, tentando dar a entender que a vida tem que continuar. Ela tinha que voltar ao trabalho em alguns minutos, e perdeu a hora do almoço em sua última discussão com Orfeu. Ela destruiu o buquê de rosas que ele entregou, na sua fracassada tentativa de desculpas.

Ela se pergunta se foi dura demais com ele. Ou se ela ficou tempo demais com alguém que não a enxergava nas suas necessidades.

Se bem que a vida é um eterno aprendizado, e Eurídice sentia que não conhecia tudo sobre Orfeu. Ou pelo menos que também não conseguia compreendê-lo.

Ela estava se questionando se o que ela sentia era realmente amor, ou se era uma grande dependência emocional dela, para que ela mesma encontrasse o seu rumo na vida. Aliás, ela se sentia completamente perdida. Mal sabia onde ela estava.

Decidiu começar a caminhar. E não levou dez metros para ela encontrar a primeira placa de PARE em seu caminho.

Ela aproveitou para respirar. Fechou os olhos e inspirou o ar, expirando lentamente. Tentava tirar o peso do seu peito para não chorar mais. Ela precisava se recompor para voltar ao trabalho.

Eurídice sente que olhar para os lados era necessário. Ver os sinais de trânsito, buscando também os sinais que a vida poderia te mostrar diante daquele caos todo que ela estava.

Ao olhar para os lados, viu um casal de jovens namorados brincando como crianças, sorrindo das bobagens da vida. Marido e mulher conversando sobre amenidades em uma cafeteria. Um casal gay de mãos dadas planejando sua viagem de férias. Um casal de idosos, onde ele oferecia o braço para ela, caminhando calmamente e observando o movimento de todos.

Ela sentia falta disso. Sentia falta do aconchego, da amizade, da cumplicidade, da alegria.

Eurídice sabia que amava Orfeu. E tinha quase certeza que ele também a amava. Talvez ela não tivesse mais certeza se seria feliz com ele. Talvez ela sinta que cometeu o erro em entregar sua felicidade nas mãos dele, quando isso jamais era a obrigação dele, mas sim a dela.

Ela seguiu em frente. 50 metros depois, avistou um SAÍDA PELA DIREITA A 200 METROS.

Eurídice havia decretado o fim daquela relação, mas não havia saído dela completamente.

Tudo era muito recente. Ela ainda sentia a presença dele pelo seu perfume. Sentia o calor do seu corpo.. Sentia seus braços vazios, procurando o corpo dele.

Ela sentia o frio de não mais ter os braços dele envolvendo o seu corpo.

Eurídice nem tinha entrado nas cinco fases do luto. E ela sentia que não queria entrar. Que não queria passar por isso. Ela não queria sair. Queria se dar mais uma chance.

Por outro lado, o medo de fracassar a impedia de tentar. Ela não queria passar pela frustração de dedicar seus sentimentos para alguém que poderia representar uma grande perda de tempo na vida em sua vida.

Mas Eurídice no fundo amava o jeito bobo de Orfeu. Oito anos não foram bastante para ele entender uma porção de coisas sobre ela. E ela também não conseguia entender como ele conseguia ser tão distraído e, ao mesmo tempo, tão atencioso com ela.

Ela começa a perceber que realmente cometeu um erro enorme destruindo aquele buquê de rosas.

Eurídice apressa o passo. Segue caminhando em direção ao trabalho.

Quando se depara com uma placa dizendo ATENÇÃO.

Ela para para pensar.

Pensa no que viveu até ali, e no que tem a perder com sua decisão. Sente seu peito doendo um pouco mais. Ou era a saudade chegando ou um infarto no miocárdio. Como veio a falta de ar, mas não a dormência no braço, entendeu que era a primeira opção.

Eurídice já sentia saudades de Orfeu antes mesmo de retirá-lo de sua lista de contatos do WhatsApp. Ela não tinha coragem de fazer isso.

Ela não queria perder as mensagens de áudio engraçadas que ele deixava para ela no WhatsApp. As conversas nas madrugadas, os telefonemas nos momentos difíceis. Até hoje ela se lembra que ele foi o primeiro para quem ela ligou quando a mãe dela morreu. Foi o primeiro que chegou até ela para abraçá-la. Ele largou tudo e ficou ao lado dela o tempo todo.

Era tudo o que ela esperava de um homem até o fim da vida.

Eurídice agora se perguntava se ela realmente deveria permanecer naquela relação. Apenas pelo desejo de uma busca quase impossível dela mesma se permitir a ser feliz com alguém que, de tão diferente do que ela sempre quis, era o mais próximo daquilo que ela sabia que precisava para ser feliz.

Também pensava se deveria desistir. Se deveria pegar o desvio que se aproximava, e pegar outro caminho para a sua vida. Tentar dar para ela mesma o direito de iniciar uma nova história.

Mas Eurídice não sentia o real desejo de mudar tudo.

Ela queria gritar.

Queria gritar ao mundo o amor que ainda sentia por Orfeu. Queria gritar a dor que sentia nas mãos, na alma, no coração. Queria realmente gritar para se libertar. Queria se permitir, mesmo que ela de novo ficasse à beira do caminho. Mesmo que ela sofresse. Mesmo que ela se machucasse.

Pois Eurídice finalmente entendia que sofrer e perder era parte do jogo da vida.

E ela não queria perder Orfeu.

Ela caminhava mais rápido. Corria contra o relógio e contra as lágrimas que insistiam a rolar pela sua face.

Quando, de repente, ela parou.

Olhou fixamente. Por vários segundos.

Eurídice olhou atentamente. Tirou o celular do bolso. E mandou uma mensagem:



“Eu preciso conversar com você, ainda hoje. Por favor, venha se encontrar comigo às 17h, na cafeteria do shopping. É muito importante para mim que você esteja lá.”

Eurídice decidiu não ir trabalhar naquela tarde. Ela não via sentido. Deu uma desculpa qualquer para seu chefe e prometeu comparecer amanha.

Exatos um minuto e quarenta segundos antes, ela viu as placas que lhe indicaram o caminho que ela realmente queria seguir:

FAÇA O RETORNO, E SIGA EM FRENTE.



“Chasing Pavements”
(Adele, Eg White)
Adele, 2008


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