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Como a Microsoft salvou a Apple da falência em 1997

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Eu sempre quis escrever sobre isso, e sinto que finalmente chegou a hora.

A rivalidade entre Microsoft e Apple moldou parte da história da tecnologia, mas poucos imaginam que uma das gigantes só sobreviveu graças à ajuda direta da outra. E isso foi benéfico para as duas, de alguma forma.

Mesmo porque a competição entre Bill Gates e Steve Jobs era o que estimulava o crescimento de Microsoft e Apple ao longo das década de 1980 e 1990. Sem uma, a outra não iria sobreviver.

Talvez a Microsoft se arrependa um pouco disso hoje, já que vender ações por um preço ridiculamente baixo pode se converter em perdas bilionárias no futuro. Mas até Gates sente que isso valeu a pena.

 

Gates, Jobs e o elo improvável entre gigantes

A relação entre Bill Gates e Steve Jobs era, no mínimo, complexa. Os dois gênios do Vale do Silício se admiravam e se provocavam em igual medida. De piadas sobre design até debates acalorados sobre propriedade intelectual, a rivalidade era intensa.

Por outro lado, havia também respeito mútuo — ou pelo menos o suficiente para que Gates colocasse dinheiro na empresa de Jobs no momento mais crítico de sua história. Algo considerado inimaginável para os fanboys das duas empresas.

Em 1997, a Apple enfrentava uma crise severa, prestes a declarar falência. Teve uma sequência de lançamentos fracassados e produtos com baixo impacto junto ao público e ao mercado.

Diante do caos, a Apple foi atrás de Steve Jobs, que foi desligado da empresa que ele mesmo criou, por conta de uma decisão da junta de conselheiros da empresa. Era ele quem iria reorganizar a casa para liderar a nova era de produtos e serviços que conhecemos hoje.

E foi justamente seu maior concorrente — a Microsoft de Bill Gates — quem entrou em cena para impedir o colapso, aproveitando a oportunidade para fazer negócios e, é claro, lucrar em cima da desgraça da rival.

No centro dessa história está o investimento de US$ 150 milhões que a Microsoft fez na Apple, numa época em que a empresa de Cupertino estava longe de ser a potência atual. E foi Steve Jobs quem foi pedir o cheque para Bill Gates.

Em troca, Gates solicitou a inclusão dos softwares da suíte de escritório Microsoft Office nos computadores Macintosh, explorando a última grande fronteira informática da época, já que a gigante de Redmond já tinha dominado todo o resto com as práticas de monopólio.

Este é um dos episódios mais simbólicos sobre como o mercado pode ser imprevisível — e como decisões estratégicas, muitas vezes, transcendem a concorrência.

Essa decisão é relembrada pelo próprio Bill Gates em sua autobiografia Source Code: My Beginnings. Segundo ele, foi uma escolha estratégica e, ao mesmo tempo, uma aposta no futuro da tecnologia. “Foi bom que a Apple tenha se recuperado e feito contribuições incríveis”, afirmou Gates, referindo-se à revolução que a empresa causaria com o iPhone anos depois.

 

O investimento que rendeu, mas poderia ter rendido muito mais

Em termos financeiros, a Microsoft teve retorno positivo com o investimento inicial: em 2003, vendeu suas ações da Apple e embolsou US$ 550 milhões, recuperando pelo menos em três vezes o valor de 1997.

Mas o que pareceu uma boa decisão à época hoje soa como um erro colossal. As ações que a Microsoft comprou poderiam ter se transformado em mais de um bilhão de papéis ordinários, após sucessivas divisões promovidas pela Apple ao longo dos anos.

Com base na cotação recente da Apple, estimada em cerca de US$ 196, esse pacote de ações valeria mais de 202 bilhões de dólares atualmente. Um dinheiro que, hoje, aumentaria a vantagem que a Microsoft possui no posto de “a maior empresa do mundo” (neste momento – tudo pode mudar no futuro).

Isso mesmo: um movimento que começou como uma manobra antitruste, para evitar acusações de monopólio, poderia ter alçado Bill Gates ao patamar das maiores fortunas da história recente.

A decisão de vender as ações da Apple não foi apenas econômica. Nos bastidores, a Microsoft enfrentava uma forte pressão regulatória nos Estados Unidos.

Investigações antitruste ameaçavam classificar a empresa como monopolista, e manter participação significativa em uma concorrente poderia ser usado como prova contra ela em processos judiciais.

Assim, a venda das ações da Apple foi uma forma de mitigar riscos legais, ainda que tenha custado bilhões em valor potencial. “Vendemos por uma quantia que hoje parece nada”, admitiu Gates com um misto de ironia e arrependimento.

A decisão pode até ser compreensível dentro do contexto apresentado na época, mas reforça a falta de timing e a pressão dos fatores externos para alterar os rumos financeiros de uma empresa.

O que surpreende neste caso é ver que até uma gigante como a Microsoft pode se demonstrar mais sensível com esses eventos externos.

 

De rivais a coautoras do futuro digital

Curiosamente, o apoio financeiro da Microsoft veio justamente no momento em que Steve Jobs retornava à Apple, após anos afastado. E foi um dinheiro muito importante para que a empresa de Cupertino se tornasse a potência que é hoje.

Foi o ponto de virada que daria início à reinvenção da empresa e ao lançamento de produtos icônicos como o iPod, o iPhone e o MacBook. A presença de Gates e Jobs como protagonistas dessa transição mostra que o progresso tecnológico muitas vezes nasce da interdependência — mesmo entre competidores ferrenhos.

Essa mesma receita de sucesso acontece hoje entre Apple e Samsung. Enquanto os fãs das marcas ficam brigando para descobrir quem copiou quem, a dupla segue com suas colaborações e parcerias estratégias para o desenvolvimento de novos produtos.

O investimento da Microsoft não apenas salvou a Apple, mas também ajudou a manter vivo o espírito da inovação que viria a dominar a era digital. A parceria momentânea entre as duas empresas é, hoje, uma lembrança de que rivalidade nem sempre significa destruição — e que até os maiores titãs da tecnologia precisam, em algum momento, de uma mão estendida.

Além da Apple, a Microsoft também investiu em outras empresas que mais tarde se tornariam colossos da tecnologia. A gigante de Redmond chegou a deter participação acionária no Facebook, por exemplo.

Aqui, vale a pena ressaltar um comportamento padrão de Bill Gates e seu time dentro da Microsoft: a capacidade de identificar oportunidades antes de muitos outros.

O caso da Apple sempre será simbólico, que nasce de uma ajuda que mudou o rumo da história da computação pessoal, da telefonia móvel, da música e da tecnologia de consumo do grande público.

Uma aposta que demonstrou visão, mas cuja recompensa financeira completa escapou por pouco.

E uma das histórias mais interessantes do Vale do Silício.


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@oEduardoMoreira