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Como a tecnologia está mudando nossos cérebros

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Hermes Trismegisto afirmou no Caibalion: tudo na criação segue um ritmo que nos leva ao início. Conecta-nos ao mundo como vontade e representação, a Zaratustra e ao teorema de Poincaré — e à discussão sobre a tecnologia e nossos cérebros.

Tá, eu sei que comecei este artigo da forma mais profunda e intelectual possível, e que isso pode ter afastado alguns dos leitores. Mas… acredite, eu vou chegar a algum lugar. Isso é, se você conseguir prestar a devida atenção ao texto que está lendo.

Algo está mudando em nossa capacidade cognitiva. Não apenas funcional, mas estruturalmente. As telas modificaram nosso córtex somatossensorial, alterando a forma como interagimos com o mundo.

E isso é muito preocupante.

 

Qual é a raiz do problema?

Manuel Sebastián, pesquisador da Universidade Complutense, revelou: “O hipertexto prejudica a memorização por conter distrações. A atenção é crucial para a recordação.”

Ou seja, o tempo que passamos diante de telas de smartphones, seja perdendo tempo nas redes sociais, seja absorvendo fake news em massa na internet, está resultando em uma queda de nossa capacidade de concentração e, por tabela, de nossa memória.

Nem precisa ir muito longe: eu não me lembro dos números de telefone dos meus melhores amigos, pois meu cérebro só registrou os nomes deles na agenda do smartphone.

Tá. Estou exagerando. Isso não é necessariamente negativo.

Nosso cérebro se reorganiza constantemente — historicamente, um fato positivo. Com novas informações, atualizamos nossa memória para os dados que realmente interessam.

Porém…

 

Isso continuará sendo benéfico para o ser humano a longo prazo?

Muitos especialistas acreditam que não.

John Burn-Murdoch explicou no Financial Times que além da famigerada crise sanitária global que o mundo viveu em 2020, há outro fator afetando o desenvolvimento cognitivo dos jovens desde 2010.

Testes como o PISA mostram problemas de concentração e aprendizado nos jovens da geração passada, que foi a primeira que utilizou em massa os smartphones dentro da sala de aula. E aqui, existe a associação direta entre queda de concentração e uso excessivo dos dispositivos móveis.

É importante deixar claro que o verdadeiro culpado não são as telas, mas nossa relação com a informação. Aliás, vamos tentar acabar com essa irritante mania de tentar colocar a culpa única e exclusivamente na tecnologia para todos os males do mundo. Pode ser?

Sobre a nossa relação com as telas, é fato que, nos últimos 15 anos, migramos de páginas limitadas para feeds infinitos e notificações constantes. Substituímos a navegação ativa pelo consumo passivo, alternando contextos continuamente.

E aqui que está o problema. Quando entramos em um turbilhão de informação (principalmente aquela com viés distorcido), o usuário tende a ficar nesse vórtex infinito, reduzindo as chances de buscar outros pontos de vista e informações baseadas em fatos.

Infelizmente, pesquisas sobre isso são escassas, dificultando investigações aprofundadas para uma análise que pode ajudar a combater o problema com eficiência.

A boa notícia de tudo isso? Estamos avançando na compreensão.

A má notícia? Ainda há muito a descobrir sobre os impactos. Porém, estudos recentes não mostram sinais alarmantes.

A plasticidade cerebral humana encontra caminhos para superar obstáculos. Esperamos logo descobrir como eliminar essas barreiras definitivamente.


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@oEduardoMoreira