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Os pais tentam nos avisar. Nós é que não queremos ouvir.

“Como Nossos Pais” é uma canção simplesmente excepcional. Em uma estrutura de composição que não segue uma métrica regular, sem rimas ou estruturas de linguagem que facilitam a assimilação mais rápida para o grande público, conseguiu ser um sucesso absoluto de público e crítica. Saiu do status de ser uma música bem elaborada para se tornar uma confissão pessoal para muita gente.

A melodia passa do pessimismo da primeira parte da música, que fala de nostalgia natural do lamentar que temos quando dissertamos sobre os erros do nosso passado para um otimismo esperançoso típico do discurso dos descontentes, inconformados e revolucionários.

Sim. Revolucionários.

Quando somos mais jovens (apesar de muita gente ainda achar que eu estou novo e que tenho muito pela frente, eu discordo… já foi uma boa parte da minha vida…), nós queremos mudar o mundo. Transformar a realidade que vivemos. Consertar o que está errado nas pessoas. Revolucionar. Mas o tempo mostra claramente que não é assim que a roda do mundo gira, ou que a banda toca, como gosto de dizer. O mundo é bem mais dinâmico do que pensamos, bate mais forte do que esperamos, e deixa marcas mais profundas do que muitos podem suportar.

“Como Nossos Pais” mostra uma confissão de pais que tentam mostrar aos seus filhos como é a vida. De forma até tola e inútil, eu posso dizer. E essa não é nenhuma ofensa. É apenas uma constatação depois de quase quatro décadas vivendo.

E digo isso por um motivo muito simples: cada um de nós temos que viver nossa experiência de vida. Cada um de nós temos a nossa história para contar.

Na verdade, quando nossos pais finalmente confessam seus erros e tropeços ao longo de vida, tentam nos alertar sobre como é o caminho, sobre suas armadilhas e desafios. Tentam nos avisar de tudo isso. Tentam nos prevenir de tudo isso. Com o único objetivo de não querer que os filhos sofram. Tentam evitar as tais pancadas e machucados da vida.

Querem ver os filhos sempre felizes.

Mas isso é um grande erro. Não a parte de querer a felicidade dos filhos. Mas o fato de tentar impedir que os filhos sofram com os próprios erros.

Temos que vivenciar todas as experiências, aprender com os nossos erros, sofrer com as consequências das escolhas erradas. Pais podem (e devem) ensinar sim os bons valores, o que é certo e errado, como ter ética, viver com dignidade, moralidade, religião… todos esses valores que formam boas pessoas (talvez bons cidadãos em alguns casos).

Agora… daí ao filhos realmente aprenderem ou assimilarem tais lições… essa é outra história.

O tal livre arbítrio entregue para cada pessoa não apenas exime Deus de toda qualquer responsabilidade sobre nossas atitudes e consequências, mas também atribui à nós esses efeitos diretos e imediatos. Sabe, tentar, experimentar, errar e acertar é a forma que temos para aprender as lições da vida. Os pais tentarem evitar ou impedir uma regra que faz parte da natureza humana é um erro…

…que os pais deles cometeram…

…e que muito provavelmente nós cometeremos como pais.

A confissão apresentada em “Como Nossos Pais” é uma espécie de declaração de amor de pais para filhos. É dolorido para nossos pais reconhecerem que ficaram para trás, que foram superados. Reconhecerem quando finalmente entendem que seus filhos desenvolveram personalidade, senso crítico e desejo de querer crescer e vencer por si.

O desejo de aprender com os seus próprios erros.

Por outro lado, os pais insistem em querer ensinar os filhos adultos. Pedem que sejam ouvidos e considerados. Querem a todo custo evitar que seus filhos sofram. Que se percam. Que falhem.

Como nossos pais (sem aspas agora), nós vamos errar e acertar. Isso é inevitável. É parte de todo o processo de crescimento e amadurecimento de qualquer ser humano.

O que fazer então?

Quando os erros vierem… vamos nos lembrar dos nossos pais. Tentar não nos desesperar com os erros. Aprender com esses erros. E seguir em frente. Até acertar.

E… no futuro… ter dizer aos nossos filhos:

“Não quero lhe falar, meu grande amor…”
“Por isso, cuidado, meu bem… há perigo na esquina…”
“Você pode até dizer que eu estou por fora…”
“Ainda somos os mesmos… e vivemos…”
“Como nossos pais…”

“Como Nossos Pais”
(Belchior)
Elis Regina, 1976

 


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