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Ok…

Preciso me reconectar às coisas que eu amo, mas que me foram arrancadas por causa do COVID-19. O isolamento social está me deixando um ser verborrágico e doente. Na verdade, quem está me deixando assim são outras coisas que eu nem quero começar a dissertar agora, para não perder o foco no que realmente importa.

O cinema é, talvez, a coisa (não estou falando de pessoas) mais importante que o confinamento tirou de mim. Isolado, sei que não perdi a música. Enquanto olho o mundo se mover um pouco mais devagar e com um número menor de pessoas através da janela do meu apartamento, a trilha sonora da minha vida evita que eu entre em um processo de mal estar emocional.

Mas o cinema… esse eu vou ter que esperar. Pacientemente.

A experiência em sair de casa, ir até o shopping, comprar um ingresso, entrar em uma sala adequadamente escura e com poltrona confortável com um enorme balde de pipoca e um litro de refrigerante para imergir em um mundo que não é seu por duas horas dificilmente pode ser emulada na sala do meu apartamento. Não é a mesma coisa.

E… por ser uma experiência que me transmite uma conexão emocional muito forte, sinto que a ausência do cinema é a mais sentida nesse momento. De novo: eu estou falando de uma COISA, e não de pessoas. Nesse momento, a segurança dos meus amigos e familiares valem muito mais do que a minha vontade de assistir um filme no cinema.

Vou me virando com o streaming, com o torrent e até com a Sessão da Tarde. Está valendo qualquer coisa para fugir dessa realidade aterrorizante que todos vivem em 2020.

Por que eu amo tanto o cinema?

Porque o cinema me ensinou lições que eu não poderia aprender nos livros, nas salas de aula ou em qualquer segmento religioso. Porque é capaz de mostrar mundos onde eu nunca vou estar, mas que são meus, porque foram concebidos para conversar comigo e com o mais íntimo do meu ser. As lições que me tornam um ser humano menos pior do que poderia ser, inclusive por causa da minha personalidade errante.

Foi em uma sala de cinema que compreendi o que é a Força, e que ela estava dentro de mim o tempo todo, mesmo diante de um inimigo teoricamente invencível. Aliás, aprendi que devemos sempre ser a Resistência, levantando a voz diante de um sistema corrupto e moralmente falido. Entendi que o herói não é necessariamente o mais forte, mas sim aquele que desafia as suas fraquezas e medos para defender o mais fraco ou aquele que nem poder tem.

Aprendi com o cinema a respeitar e abraçar as diferenças, pois mentes com visões de mundo diferentes podem se completar e crescer juntas. Compreendi que, da mesma forma que a minha origem étnica é o que me tornava diferente e especial diante do coletivo, quem era diferente de mim nas suas condições sexuais, religiosas e econômicas eram especiais justamente por serem diferentes. Ao mesmo tempo, também aprendi que “unidos, venceremos; divididos, cairemos”.

Amei odiar vilões, ao mesmo tempo que incorporei o senso de urgência em deter a todo custo pessoas com mentes perversas e com propósitos pouco edificantes. O extrato da podridão humana precisa ser detido. Custe o que custar.

Em uma sala de cinema, eu me apaixonei tantas e quantas vezes fossem necessárias por pessoas lindas por dentro e por fora. Conheci histórias de vida que inspiraram a minha jornada. Histórias que reforçam o tempo todo que podemos e devemos aprender com as lições do próximo. Identifiquei as fraquezas da minha personalidade com personagens que conversaram diretamente com a minha essência, o que me fez refletir por dias sobre minhas atitudes e pensamentos.

Em uma sala de cinema, eu curei crises de depressão e luto pelo divórcio. Também reaprendi a amar ao me apaixonar por incríveis histórias de amor.

O cinema faz muita falta na minha vida em tempos de isolamento social. Muito mais do que poderia imaginar. Mas… eu vou esperar. Sei que nada será como antes quando esse pesadelo coletivo acabar, e não sei quanto tempo vou levar para ter de volta a minha “vida normal” (que não será mais normal), que dirá voltar a frequentar uma sala de cinema.

Mas uma coisa é certa: deixar de amar o cinema? JAMAIS!

Se eu não deixei de amar algumas pessoas que contraíram o câncer e o HIV justamente porque são partes fundamentais da minha vida, não será o COVID-19 que fará com que o meu amor pela sétima arte desapareça. O vírus vai desaparecer antes disso. Ou vou morrer na tentativa de seguir alimentando a esperança em um dia voltar a entrar em uma sala escura com um balde de pipoca e refrigerante para mergulhar em uma realidade que não é a minha, mas foi criada para mim.

Logo, vou esperar. Pacientemente.

É apenas uma pausa. Enquanto isso, Netflix e pipoca não faltam em casa.


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