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Provavelmente eu não estaria vivo para conversar com você sobre isso. E não estou exagerando: existe um certo alinhamento cósmico da minha vida com a banda de Liverpool.

A apresentação do Fab Four no programa Ed Sullivan Show (dia em que a Beatlemania se tornou uma febre global) aconteceu em 9 de fevereiro de 1964, 15 anos antes da minha chegada ao mundo. E minha mãe, desde os primeiros anos da minha existência, me ensinou a mais valiosa lição musical que eu jamais poderia aprender em corais com regentes renomados, conservatórios musicais ou nos palcos da vida.

E a lição era: “ame os Beatles”.

Algumas das convicções mais fortes que eu carrego ao longo da vida e algumas das mais belas lições que eu aprendi sobre a minha insignificante criatura e as demais pessoas comuns que me cercam estão diretamente relacionadas com essas canções que marcaram um “antes” e um “depois” na história da cultura pop. Foi muito melhor aprender com The Beatles os valores que a vida em si reforçaria de forma mais dura e menos harmoniosa.

Por exemplo, reconhecer que, na vida adulta, precisamos de ajuda para seguir em frente por entender que na juventude tudo parecia mais fácil e tangível. Mais do que isso: pedir ajuda de forma direta, sem rodeios e sem sentir medo de ser você mesmo.

Entender que você pode viajar o mundo, conhecer lugares e pessoas de todos os tipos, se lembrar de tudo isso e, mesmo assim, não se esquecer jamais daquela pessoa especial que entrou na sua vida para nunca mais sair. Guardar essa pessoa em seu coração com amor é a sua missão. Manter essa pessoa viva em sua mente significa que você não vai morrer de saudades.

Acreditar que a tempestade vai passar, porque sempre vai ter alguém que vai dizer para você palavras de sabedoria. Alguém sempre vai lhe abraçar e dizer no seu ouvido “tudo vai passar”. É só deixar o tempo passar. É só deixar tudo acontecer.

E eu não estou falando necessariamente na fé em uma religião. Estou falando simplesmente no ato de acreditar nas palavras de alguém que lhe quer bem. De alguém que ama você, independente de qualquer coisa.

E por falar em amor… tudo o que você precisa é amor. Certo?

E por falar em amor…

Sem The Beatles, eu jamais aceitaria o fato que amar de novo significa também ter medo. Porém, viver com medo é como não viver. Logo, não é vergonha ou vitimização pedir para aquela pessoa que quer entrar na sua vida coisas como “por favor, se eu me apaixonar por você… não me machuque… e me ajude a entender… porque uma vez eu me apaixonei, e acreditei que o amor era mais do que apenas mãos entrelaçadas…”.

Você entende que quem já sofreu por amor tem medo, mas valoriza ainda mais o próximo amor que vai viver na vida. Até porque, depois de amar profundamente e se decepcionar, você pode um dia simplesmente despertar e descobrir alguém que esperou você chegar por metade de uma existência. Apenas para amar você.

Não desperdice isso.

Com The Beatles, você valoriza a liberdade da vida, respeita o próximo como ele é. Luta pelas injustiças estabelecidas pelas diferenças, clama pela união de todos, sabe que pode contar com uma pequena ajuda dos seus amigos para superar dificuldades e, é claro, que dias difíceis e com muito trabalho sempre existem, mas que as noites quentes e intensas podem ser compensadoras.

Porque nem tudo nessa vida é pelo dinheiro, certo?

Obviamente, nem tudo são flores. Conhecer a chatice dos irmãos Gallagher (que resultou no fim do Oasis, uma banda altamente inspirada nos Beatles – inspirada “até demais”, na opinião de muitos), um dos trailers enganadores do filme Liga da Justiça e a Yoko Ono “cantando” não foram descobertas muito agradáveis.

Mas a versão de What a Little Help From My Friends de Joe Cocker compensou muitas dessas coisas ruins.

Sim… tem a morte do John Lennon. Eu não precisava passar por isso também. Enfim…

Eu aprendi tanto com The Beatles, que imaginar um mundo sem essa banda seria algo inimaginável. Impensável. A perda da minha identidade seria tamanha, que o meu vazio musical seria simplesmente insuportável. Minha vida seria incompleta em vários aspectos.

Definitivamente, eu não estaria aqui para conversar com você sobre sentimentos tão pessoais e profundos.

Só me resta agradecer a John, Paul, George e Ringo. A humanidade, como um todo, precisava dessas canções. A minha vida precisava dessas músicas para que as notas que hoje eu canto entreguem um significado maior. Hoje, eu não apenas canto notas e textos musicados. Conto histórias onde, com sorte, algumas delas se alinham com as histórias da minha vida. E poder transmitir essas mensagens adiante é uma das minhas grandes realizações como ser humano.

Respondi a sua pergunta, Danny Boyle?

(Texto produzido depois de assistir “Yesterday”, filme que propõe a pergunta que dá título a esse texto. E escrito por um cara tão apaixonado pelos Beatles, que chorou ao testemunhar como seria triste um mundo sem algumas das melhores canções já compostas por mãos humanas)

 


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