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Eu estava lá. Observando. Esperando pela onda dos meus sonhos.

A prancha fincada na areia ao meu lado. Como um escudo. A fiel companheira. Eu estava sentado. Sentindo a areia da praia. E sempre olhando para o mar. Observando as ondas. Aprendendo com elas.

Eu vejo como cada onda tem um formato, apesar de todas buscarem se formar em tubo. Mas jamais é a mesma onda.

A natureza não se repete. O mar não se repete. Os dias, minutos, segundos… jamais se repetem.

Quando estou diante do mar, eu não olho para o relógio. O tempo não para, mas eu não conto mais o tempo dentro da minha métrica, mas passo a respeitar o tempo da natureza. O tempo do mar. O embalar das ondas se conectam ao meu relógio biológico, me motivando a inspirar com maior tranquilidade. A aproveitar aquele momento. Aquela praia. Aquela vibração positiva.

Ukeleles tocam, harmonizando com a melodia das ondas. Era a trilha sonora perfeita para aquele fim de tarde. Famílias aproveitando para serem felizes, a juventude compartilhando a sua alegria e energia com os veteranos no tempo (e jovens de espírito)… era um cenário realmente espetacular. Um momento perfeito. Um momento onde tudo se harmoniza para resultar em momentos de felicidade.

Eu? Eu estava feliz. Mas pensativo.

Estava pensando nas ondas que enfrentei na minha vida. Em quantas quedas eu tive por encarar uma onda muito maior do que ela parecia. Afinal de contas, da praia elas parecem pequenas. Só quando estamos perto delas é que vemos o tamanho do desafio. E foi só enfrentando essas ondas é que adquiri coragem para enfrentar as outras ondas.

Sempre maiores e mais desafiadoras.

Mas naquele final de tarde, eu esperava a onda perfeita. Nem a mais furiosa, nem a mais tranquila. Apenas a onda perfeita. A onda dos meus sonhos. A onda que representa os meus sonhos.

Meus sonhos… tenho tantos. Alguns se perderam pelo caminho, provavelmente quando as ondas me derrubaram. Talvez não eram para ser meus sonhos. Os sonhos que realmente me motivaram a seguir em frente são aqueles que eu abracei. Os sonhos que me fizeram buscar outras ondas. As ondas que me ajudaram a me encontrar e me conectar com tudo o que me cerca, sem deixar de lado a minha identidade e personalidade.

As ondas que eu peguei na vida me ensinaram que tudo nessa vida passa. Nada é eterno. Muito menos as ondas.

Quando você fica no fundo do mar por tantas e tantas vezes, não aprende a respirar ou nadar. Aprende a manter o fôlego por mais tempo para sobreviver. Tão importante quanto dar as braçadas para sair do fundo é se manter vivo, com o cérebro oxigenando. Para sempre raciocinar antes de sair. Para sair sempre com a certeza de que foi pelos próprios braços e pernas.

Eu ainda tomo caldos do mar. Eu ainda vou para o fundo do mar em algumas vezes que enfrento uma onda mais furiosa. Mas a cada vez que o mar tenta me puxar para o fundo, os meus braços estão mais fortes para nadar, minhas pernas mais preparadas para me impulsionar, meu pulmão recebe mais ar, a minha mente fica mais tranquila, e meu coração bate sempre mais forte e mais resistente.

Eu hoje olho para tudo e todos com olhos de esperança e humanidade. Procuro fazer dos meus olhos as janelas abertas do meu ser, ao mesmo tempo que eles buscam capturar todos os cenários ao meu redor. Paisagens, pessoas, músicas… ondas. Eu olho para o mundo ao meu redor e registro tudo. O que há de melhor fica armazenado na minha mente. O que há de especial, eu guardo no coração.

Mas fico atento para tudo o que vejo e sinto. Já que vivo em um mundo onde tudo muda muito rápido. E aquele momento especial pode simplesmente acabar de repente. Antes que eu me dê conta, inclusive.

Eu vejo… eu vejo a onda. A onda tão esperada. A onda perfeita.

Ela é a maior onda que eu já vi. Muito maior do que a mais desafiadora até então. Por um instante, eu hesito. Fico em dúvidas se tenho capacidade de surfar naquela onda, ou se até mesmo eu a mereço. Nesse instante, meu coração acelera, as minhas mãos começam a ficar frias. É a adrenalina subindo.

São os sinais que ESSA É A ONDA DA MINHA VIDA. E que dela eu não posso fugir.

Para surfar essa onda, não posso me enganar. Tenho que mostrar tudo o que aprendi até aqui. Tenho que mostrar coragem, e ir para o mar, sem medo de errar. Porque se eu errar, eu vou para o fundo do mar. E terei que lutar para ter o direito de buscar outra onda.

Mas eu não quero outra onda. Eu quero aquela!

Eu me levanto. Pego a minha prancha, e com passos decisivos, eu parto para o mar…

…e pego aquela onda.

Foi uma viagem incrível. Uma sessão espetacular, perfeita. O vento batendo no meu rosto enquanto o turbilhão de água rodeava o meu corpo. Eu me sentia em uma espiral de energia pura. Eu estava conectado com a natureza. Conectado com minha essência. Sintetizando todas as ondas que peguei na vida naquela que era a onda que impulsionava os meus mais sagrados sonhos.

Me jogo na água. Eu sei que não vou me afogar. Quero é celebrar a minha vida e todas as ondas que enfrentei até chegar naquela. Minha vida não foi em vão, e felizmente fiz algo especial. Algo que fez tudo o que eu passei ter todo o sentido.

Eu volto para a praia. Realizado.

Finco novamente a minha prancha na areia da praia. O sol se põe lentamente, já refletindo sua luz nas águas do mar.

Volto a me sentar na areia. Volto a ouvir o barulho animado das pessoas, combinando com o barulho das ondas do mar.

Volto a olhar para o mar.

E a pensar na próxima onda que quero pegar.



“Como uma Onda (Zen Surfismo)”
(Lulu Santos, Nelson Motta)
Lulu Santos, 1983


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