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Eu estou plenamente consciente da minha capacidade de liderança, do meu potencial técnico e do quanto estou certo nas minhas visões sobre a execução e gerenciamento de um processo coletivo. Porém, também estou plenamente consciente dos erros que cometi ao longo desse processo.

E é sobre os meus erros que quero conversar com você. De forma franca e direta. E, desde já, deixo claro que os meus erros não isentam ou justificam os erros que outras pessoas cometeram comigo. Entendo que cada um é responsável por suas atitudes, respondendo assim pelas consequências.

Não estou especificando alguma atitude em particular ou uma determinada situação. Estou colocando no meu pacote confessional todos os erros que cometi na execução de uma atividade em coletivo que ainda me dá prazer, mas que nos últimos tempos representou mais dissabores do que alegrias. E eu preciso resolver isso comigo mesmo.

Bom… vamos lá.

Eu sei que sou um líder. Minha visão de mundo é mais ampla, tenho a experiência necessária para coordenar um coletivo e conto com o senso de justiça necessário para discernir o certo e o errado. Sei que represento o futuro, apesar de entender que tem muita gente nova que é melhor e mais apta do que eu.

Porém, eu falhei em pontos essenciais para me tornar um bom líder.

Antes de tudo: eu não tive a humildade em compreender o coletivo.

Eu estava “me achando”. Ter a consciência sobre a minha capacidade técnica resultou em uma personalidade leniente com o próximo. Eu deveria olhar para o próximo com um olhar de empatia e adotar um sentimento mais solidário e propenso ao crescimento coletivo. Porém, optei pelo fácil caminho da pré-concepção e da prepotência em fazer valer o meu ponto.

Eu estava com a razão. Mas não soube traduzir a razão em palavras e atitudes compreensíveis e aceitáveis para alcançar as mentes daqueles que estavam errados, ou daqueles que precisavam entender onde eu queria chegar. Precisava traduzir com paciência a visão de futuro que eu tenho.

Não o fiz. Só entreguei arrogância.

Outro ponto em que falhei como líder foi em não adotar a sabedoria para contornar situações difíceis.

Perdi a paciência quando não deveria. Fui contundente demais quando poderia filtrar expressões para ser mais maleável para apresentar críticas. Não soube absorver as críticas e até ofensas recebidas. Me deixei levar pela raiva diante das injustiças.

O sábio é aquele que compreende um cenário de crise ou uma situação onde você é prejudicado ou injustiçado e, ainda assim, mantém o controle e a capacidade de oratória para se fazer entendido de forma que todos ouçam, mas sem perder a razão. Aqui, não faltou experiência de vida, inteligência ou o fato de estar certo ou errado diante dos acontecimentos. Faltou o bom senso para não deixar a adrenalina subir para demonstrar a indignação.

Você pode se indignar. Mas também pode mostrar isso de forma racional. Faltou a minha racionalidade.

Por fim, um bom líder sabe aplicar o senso de justiça com consciência e inteligência.

Eu sei que estou certo nas minhas visões. Os fatos mostram isso. Os efeitos práticos, também. E eu sei que algumas pessoas me passaram para trás com atitudes que considero altamente questionáveis, que fogem do bom senso e respeito e que não se alinham a tudo o que eu entendo como correto, moral e ético.

E nada do que eu disse aqui vai mudar a minha opinião sobre tudo o que aconteceu.

Porém, eu cometi o erro de adotar a verborragia para estabelecer a justiça, e não podemos adotar a justiça a todo custo. O ano de 2019 deixou isso bem claro, em diferentes esferas. É meu dever como indivíduo garantir que a justiça vai prevalecer, mas não fazer desse senso de justiça uma arma para me machucar e machucar outras pessoas ao meu redor.

Eu sei onde errei. E eu quero mudar. Quero ser melhor.

Não é fácil sentar diante do computador para escrever palavras onde admito e confesso os meus erros para quem quiser ler. Mas eu guardo valores que não abro mão, como: aprender com o diferente, crescer nas dificuldades, absorver valiosas lições com os erros cometidos, demonstrar respeito ao próximo e praticar o auto-perdão.

Eu não busco o perdão daqueles que eu machuquei e ofendi com as minhas falas e atitudes. Eu quero é me perdoar. Acertar as contas comigo mesmo. Porque eu quero (e vou) ser alguém melhor após cada experiência. Ter a lucidez que aprendemos nas derrotas é o que me ajuda a seguir no caminho das vitórias.

Eu quero ser o melhor líder possível. E, para isso, o principal desafio é liderar a minha personalidade errante e difícil.

Logo…

Eu peço desculpas pela minha arrogância e prepotência. Peço desculpas pela falta de humildade, pela incapacidade em olhar para o próximo com mais respeito e empatia. Por ser incapaz de estender a mão sem me alimentar do orgulho de me sentir superior.

Eu peço desculpas pela falta de sabedoria ao lidar com situações que fugiram ao meu controle. Pela verborragia em momentos de crise. Por perder a paciência, por gritar e xingar. Peço sinceras desculpas por mostrar o pior de mim, ocultando o melhor que tenho. Eu preciso mostrar a minha melhor essência para todos, independente do desejo do próximo em querer enxergar quem eu realmente sou.

Eu peço desculpas por me tornar injusto quando busquei estabelecer justiça. Peço desculpas por perder a razão diante da leniência alheia. Peço desculpas por não saber lidar com as injustiças da vida de forma mais racional e inteligente.

Não peço que reconsidere decisões tomadas ou a indiferença e rejeição à minha pessoa. Como eu disse antes, eu não estou em busca de perdão, piedade, solidariedade ou compaixão. Esse texto é um acerto de contas para comigo mesmo. É uma reciclagem interna que realizo de tempos em tempos, eliminando em mim valores, conceitos, pré-conceitos e pensamentos que estão velhos e mortos, e que impedem que eu seja um ser humano melhor.

Meu compromisso de reforma íntima é comigo mesmo, e não com você que está lendo esse texto. Porém, humildemente, eu peço sinceras desculpas pelas minhas palavras e atitudes. Reforcei lições que eu deveria ter assimilado a algum tempo, mas fui contaminado pela minha própria percepção distorcida sobre tudo o que me cerca nos últimos anos. E preciso, com urgência, derrotar os meus monstros internos.

Nada é por acaso. Nada foi por acaso. Tudo teve (e tem) uma razão de ser. E compreendi por que eu saí de casa no domingo de manhã: para obter respostas.

A partir de agora, eu quero efetivamente uma vida mais leve e feliz. Para mim e, se possível, para quem está ao meu redor. Ainda me sinto uma pessoa responsável, com compromissos, deveres e obrigações. Por outro lado, eu não quero mais me cobrar tanto para que, dessa forma, eu não acabe cobrando em demasia quem está perto de mim. Quero ser ferramenta de progresso do coletivo com inteligência, combinando a experiência dos anos nessa caminhada com a jovialidade e o bom humor de uma personalidade que ainda quer aprender com o mundo que o cerca.

Quero ser uma pessoa mais positiva, apesar das dificuldades e das sacanagens do mundo dos homens. Quero ver o lado bom da vida sem ser leniente com as injustiças que podem acontecer comigo e com o próximo. Uma vez que eu compreendo que não existe uma felicidade constante, quero aumentar os meus momentos de felicidade, para que no futuro eu me lembre mais dos sorrisos do que das lágrimas.

Sim. Eu preciso ser mais humilde.

A beleza está na simplicidade. As pessoas mais legais que eu conheço são surpreendentemente simples, e é isso que as tornam especiais diante dos meus olhos. Quero tornar a palavra “empatia” uma realidade prática na minha essência. Quero entregar sorrisos sinceros, olhares fraternos e abraços apertados.

Se você chegou até aqui neste texto, eu agradeço pela atenção. De coração. Este é um dos textos mais importantes da minha vida, e uma das reflexões pessoais mais profundas. É uma catarse da minha essência que será fundamental para o meu futuro como indivíduo.

Você até pode não acreditar nas minhas palavras. É o seu direito. Mas, se você acredita em mim e nesse meu momento de confissão pessoal, eu agradeço desde já por me ouvir e, se possível, compartilhe esse texto com alguém que eu sei que machuquei e ofendi. Não peço isso por não ter coragem de compartilhar pelas minhas próprias mãos (algumas das pessoas que foram vítimas da minha falta de sensibilidade e respeito vão receber esse texto por mim), mas simplesmente por não mais ter o contato com essas pessoas.

Consciente sobre as consequências futuras desse manifesto, encerro com uma frase:

“Num mundo tão doente e de amores tão distantes, amigo é uma espécie de transplante do coração”.

Muito obrigado!

Eduardo Moreira
01/12/2019


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