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“Coringa”, filme de Todd Philips, é o melhor filme de 2019. Afirmo, sem qualquer pudor, que eu errei ao afirmar que Vingadores: Ultimato alcançava esse patamar. Ainda acho o filme da Marvel um evento único, e pode ser o melhor filme de heróis que eu vi na vida. Mas não é o melhor filme baseado no universo de quadrinhos que meus olhos testemunharam.

As pessoas não estavam preparadas para o que assistiram. Ninguém estava preparado. Ninguém que entrou na sala do cinema para assistir “Coringa” poderia imaginar que tudo aquilo iria acontecer. Tudo bem, alguns pequenos momentos são previsíveis, mas em vários momentos somos surpreendidos por um roteiro muito bem amarrado, com os dois pés em um argumento sólido e construindo lentamente uma personalidade que, ao mesmo tempo que é monstruosa, é também o resultado de uma série de incidentes que afetaram Arthur Fleck de forma definitiva.

 

 

Um soco na boca do estômago da sociedade

 

 

Não é apenas um filme de origem sobre o maior vilão da história dos quadrinhos. É um grande soco na boca do estômago da sociedade, apresentando um coletivo que está doente, por diversos aspectos. As injustiças sociais, a indiferença à dor do próximo, os pré-conceitos em relação ao diferente, a falta de empatia e amor. Esses e outros fatores resultaram no cenário atual que não é muito diferente da Gotham City apresentada no filme. A diferença é que, no mundo real, ainda está em estágio de ebulição. Mas essa é uma discussão para outro artigo.

“Coringa” é um filme difícil de ser assistido. Você sabe que ele não terá um final feliz, mas Todd Philips vai fundo na narrativa de lenta e progressiva destruição da alma de um indivíduo, expondo à carne viva o pior de cada um de nós. É claro que Arthur Fleck é responsável por todos os seus crimes, e merece ser punido por eles. Porém, é impossível ignorar que, apesar de entender que “deram para ele a missão” de fazer o mundo sorrir, desde o princípio de sua vida, todos manipularam e reduziram a sua existência, ao ponto dele mesmo concluir que “o palhaço era ele”.

Abuso sexual e psicológico desde a infância, um pai ausente, uma sociedade que não apenas o ignorava mas o humilhava por ser diferente, as injustiças sociais, a violência que o cercava e várias outras mazelas urbanas fizeram com que Arthur Fleck se tornasse incapaz de expressar os seus reais sentimentos. E isso é uma prisão para qualquer pessoa. Não dá para imaginar o que é ser obrigado a rir quando deveria chorar ou sentir raiva. E raiva contida por muito tempo se transforma em grandes desastres quando essa mesma raiva explode.

“Divertida Mente”, espetacular animação da Disney, já deixou essa lição ao mundo: “Pessoas felizes demais tem problemas; pessoas tristes demais tem problemas; as pessoas precisam de um equilíbrio de emoções e expressar essas emoções de tempos em tempos para uma melhor manutenção emocional”.

A transformação de Arthur Fleck em Coringa é uma jornada intensa. O filme coloca o espectador em tensão constante, pois essa transformação em escala é sentida de forma direta pelas próprias soluções adotadas por Todd Philips: uma ambientação perfeita, uma fotografia imersiva, as referências culturais facilmente identificáveis, efeitos de som que entregam o que o protagonista ouve e sente, e outras mecânicas que complementam um filme simplesmente espetacular.

 

 

Um filme excelente, mas difícil de assistir para a maioria

 

 

E outra ótima notícia é o fato de “Coringa” não ser um filme apenas de Joaquin Phoenix. Sim, ele é 100% do filme, e sua atuação é soberba. Se ele não vencer o Oscar 2020 como Melhor Ator, eu dou a minha palavra que eu simplesmente não assisto mais a premiação. Mas sua atuação é respaldada por um elenco excelente (Frances Conroy, Zazie Beetz, Robert De Niro, etc), que equilibra as forças para que todo um conjunto funcione de forma orgânica.

Outro grande mérito de “Coringa” é o texto entregue para esse elenco. Cada fala é pensada no contexto geral do filme, deixando as mensagens tão claras que qualquer pessoa é capaz de compreender e absorver. É um dos filmes que merecem ser discutidos e debatidos dentro das famílias e nos pequenos núcleos de sociedade ao qual pertencemos. E a discussão precisa ser madura, racional e ampla. Não podemos ficar presos à violência gráfica que o filme apresenta, uma vez que esta é uma violência que sempre esteve presente no cinema, e mais do que necessária no caso do filme de Todd Philips para entregar a história que ele queria contar.

“Coringa” abre a discussão para o que nos tornamos como sociedade, e como essa transformação nos afetou. Arthur Fleck representa vários grupos que são excluídos pelas mecânicas de um coletivo doente e opressor. Não adianta procurar por culpados pelos desastres sociais que estão acontecendo nos últimos anos. Nós somos parte desse problema. Nós somos os culpados.

Quem sabe filmes como esse podem ajudar a iniciar uma grande discussão em busca de soluções.

Por conta dessa violência gráfica, o nível de imersão da narrativa e por toda a construção psicológica de um ser humano doente que se transforma em um autêntico monstro, eu não recomendo o filme “Coringa” para menores de 16 anos, pessoas muito sensíveis à cenas de violência e pessoas com diagnóstico de distúrbios mentais e emocionais. Quem sabe esse grupo pode assistir ao filme depois de ler e ouvir algumas críticas e estar plenamente consciente do que vai ver. E essas pessoas devem ser acompanhadas de adultos plenamente racionais sobre o conteúdo do longa, que podem conversar com aquela pessoa sobre esse conteúdo.

Do mais, “Coringa” é um filme excepcional, espetacular e impecável. Discordo das vozes que entendem que o filme é um incentivo à violência e à filosofia do “justiça pelas próprias mãos”. Ela sempre esteve no cinema, e não é esse filme que vai deixar o cenário pior. De novo: prefiro acreditar que a obra de Todd Philips vai iniciar um grande debate em busca de soluções.

E desconfie daqueles que querem criminalizar a arte.

“Coringa” é a melhor experiência cinematográfica de 2019, e uma dos melhores filmes que eu assisti em toda a minha vida. É filme para se aplaudir de pé. É um dos motivos pelos quais ainda vale a pena pagar um ingresso de cinema.

 


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