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D10s

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Jamais poderia imaginar que hoje eu estaria chorando pela morte de alguém que me fez passar muita raiva no passado. Vai ver a vida é assim: a gente acaba amando detestar algumas pessoas porque elas são tão boas no que fazem, que acabam irritando os meros e insignificantes mortais.

Agora, na mortalidade, ele se tornou imortal.

Na verdade, eu não deveria chorar por isso. Eu deveria aplaudir de pé e agradecer por essa entidade do esporte existir. Agradecer por ter testemunhado alguns dos mais importantes capítulos da história do futebol se construir diante dos meus olhos.

“Deus”? Você não foi Deus. Mas com certeza é filho dele.

E agora que não é mais desse mundo, podemos dizer que jamais pertenceu ao nosso plano terreno. Você e sua habilidade monstruosa estava acima de nós. Eu detestava o fato de você ser tão bom, e fazer coisas tão complexas parecerem simples. Mas foi justamente amar o fato de detestar o seu jeito debochado, preconceituoso e irresponsável de olhar a vida e os adversários que me motivou a acompanhar cada um dos seus passos.

De coração? Eu não torci para você perder. Não torci para você cair. Eu só queria vencer você. Fazer o mesmo que você fez: o impossível. Mas só você podia fazer isso.

Eu estou profundamente triste pela sua derrota final. Querer vencer você me fez perceber que você não apenas não era imortal, mas que era tão vulnerável quanto qualquer um de nós. Eu lamento, do fundo do meu coração, que sua derrota aconteceu dessa forma. Jamais desejei isso para você.

E, em segredo, em silêncio, eu torci para você vencer no grande jogo da vida. Entendo que seus marcadores se tornaram invisíveis e implacáveis, e que seus dribles desconcertantes não eram suficientes para superá-los. As pernas não comandam mais, o cérebro não processa com racionalidade as jogadas. O coração estava falhando.

Logo você, que foi tão coração para vencer com intensidade as partidas que jogou. Logo você, que com o seu coração intenso, conseguiu fazer com que eu despertasse o estranho sentimento de amar detestar você.

Na verdade, sempre amei a sua genialidade. Detestava essa habilidade monstruosa porque ela não era minha. Sim. No final das contas, eu sou pior do que outros mortais por causa da inveja encubada pelos dribles que você deu, pelas vitórias dentro de campo e pelos troféus que levantou.

Eu detestava você pelo fato de você revolucionar o futebol a ponto de nos questionarmos sobre nossas convicções sobre o maior de todos.

Pelé é sim maior que você. Mas você foi um pequenino irritante e gigante em um esporte que aprendi a amar, também por sua causa.

Obrigado, cara. Obrigado por ser deus. Obrigado por driblar quatro ingleses e tocar aquela bola de forma maliciosa para entregar a maior pintura que o mundo viu em uma Copa do Mundo. Obrigado por carregar uma nação sofrida para conquistar um título mundial de forma brilhante. Obrigado por colocar o Napoli no mapa, por ajudar a fazer do Boca Juniors uma potência.

Obrigado por acirrar a rivalidade com os brasileiros. Por sua causa, nos tornamos ainda maiores no futebol.

Hoje, e só hoje, reverencio Maradona, Deus do futebol.

Vira estrela no céu o baixinho da perna esquerda mais espetacular da história do futebol.

Deixa a matéria para alcançar a eternidade.

A minha raiva que eu amava sentir foi embora. Agora, só ficam as lágrimas.

 


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