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Eu não fiz o ENEM. Só achei o tema interessante o suficiente para render um bom texto. E nem sei se esse texto vai ser bom. Mas não custa tentar.

Vivemos a era do download de conteúdos digitais, a era do streaming e de uma pluralidade de formatos e possibilidades para consumo do cinema, que está até difícil acompanhar tudo o que está passando. Eu ainda tenho a sorte de assistir a um filme por semana (ou dois, dependendo da disponibilidade da minha agenda), mas eu só faço isso por dois motivos:

1) Eu escrevo sobre o conteúdo de cinema em um dos meus blogs;
2) Eu compro um pacote de ingressos onde eu posso assistir 16 filmes em dias de meia entrada por R$ 160 (faça as contas, e você vai descobrir que essa é a melhor relação custo-benefício possível por filme).

Falar de democratização do acesso ao cinema no Brasil começa, de forma obrigatória, no item que é o mais relevante para a maioria das pessoas que gostam de ir ao cinema: o preço.

Aqui em Florianópolis (SC), um ingresso (valor da inteira) pode custar entre R$ 22 e R$ 50, dependendo do tipo de sala. É bem mais caro que em Ponta Grossa (PR) e Araçatuba (SP), cidades onde eu pagava entre R$ 8 e R$ 11 (porém, sempre tinha promoção por lá. Floripa cobra preços de capital, algo que é até compreensível e aceitável. E eu nem posso reclamar quando comparo os preços daqui com aqueles cobrados em São Paulo (SP) que, em 2019, chegou ao absurdo de ter salas cobrando R$ 278 para uma sessão de Vingadores: Ultimato.

Será que nessa sessão tinha algum crítico de cinema dando pipoca na boca do espectador?

Por outro lado, fica difícil para as redes de cinema no Brasil competir com as plataformas de streaming, como Netflix (a partir de R$ 19,90 por mês) e Amazon Prime Video (R$ 9,90 por mês). Sem falar nas demais que estão chegando (Apple TV+ e Disney+), que contarão com preços relativamente competitivos.

Agora, soma os gastos com transporte (ônibus ou Uber), estacionamento e gasolina (para quem vai de carro), pipoca e refrigerante… e a tal democratização do cinema brasileiro não acontece.

Sim. Precisamos de mais pessoas nas salas. Mas também precisamos de mais opções.

É um problema que já dura alguns anos: a falta de alternativas aos filmes dublados. Tudo bem, eu entendo que o brasileiro médio foi criado com a cultura de filmes dublados. Mas a minha geração, que foi a primeira a consumir a TV por assinatura de forma ampla e irrestrita, já se habituou a ver filmes e séries com legendas. E a geração seguinte, que assistiu a tudo via Torrent, a mesma coisa.

Logo, democratizar o cinema no Brasil também passa por oferecer alternativas para gregos e troianos. Ou nesse caso, fãs da dublagem nacional (que é ótima, uma das melhores do mundo) e fãs das legendas. Atender a todos aumentam as chances de mais pessoas nas salas.

Por fim, e mais especificamente em 2019, eu vejo que a democratização do cinema brasileiro precisa superar um certo “veto” a determinadas produções. Algo que foi estabelecido esse ano. Justamente no ano em que tivemos dois filmes premiados em Cannes.

Precisamos do cinema brasileiro contraditório, que apresenta as críticas sociais de forma ácida e explícita, para que o coletivo possa refletir sobre o seu comportamento social e político e, quem sabe, modificar alguma coisa em si enquanto ainda dá tempo. Precisamos de filmes que relatem de forma livre os fatos e acontecimentos históricos, sem distorções de narrativa ou reinvenções baseadas em convicções pessoais.

Precisamos de filmes que contam as histórias de pessoas reais, que foram além da estigma de ideologias estabelecidas. Precisamos ver as histórias de autênticos representantes do povo, não de falsos profetas ou heróis de barro.

A democratização do cinema brasileiro também passa pela livre expressão de arte, com o respeito à liberdade de expressão e valorização do artista. Pois a arte, além de ser uma poderosa ferramenta educacional e social, é um dos elementos que impedem o enlouquecimento coletivo, pois nos permitimos a sair do nosso mundo doente por pelo menos duas horas, para observar e aprender com as histórias de outras pessoas.

Democratizar o cinema brasileiro significa, basicamente, deixar ele acontecer para todos. Permitir que ele funcione de forma fluída e orgânica. É acreditar que as nossas histórias são tão boas e interessantes quanto aquelas escritas em Hollywood. É permitir que o pobre da favela e o Luciano Huck assistam a Bacurau, formulando visões diferentes sobre a mesma história.

Provavelmente a minha redação no ENEM seria reprovada. Mas ao menos fica o registro do livre pensamento de um ser humano que ainda tem condições de assistir a um filme por semana, mas que clama pelo direito daqueles que não podem sequer se vender a ilusão de um mundo diferente por 120 minutos.


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