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Eu fiquei pensando por alguns dias se eu deveria escrever esse texto, mas como eu não recebi qualquer tipo de resposta da própria sociedade que me cerca, entendo que alguém precisa falar. Ou melhor, explicar. Esse artigo é didático, não apenas para Luiz Carlos Prates, mas para todos os homens que pensam como ele, e acreditam que podem falar sobre temas que, na prática, não contam com a real propriedade de dissertação sobre os mesmos.

E eu estou fazendo isso porque em todos os veículos onde o artigo de opinião “Calar é consentir”, assinado pelo citado, não conta com espaço para a publicação de opiniões e comentários. Assim como esse blog. Logo, as regras do jogo são as mesmas.

Vou começar me apropriando das primeiras palavras do artigo: “Algumas coisas me irritam muito”.

A mim também. Como, por exemplo, o desconhecimento alheio na hora de escrever sobre um tema.

Antes de prosseguir, é preciso explicar para Luiz Carlos Prates e para todos os homens que acreditam que contam com argumentos suficientes para falar sobre a questão do assédio sexual o que é Mansplaining. Esse termo ficou mais famoso por causa de Kéfera Buchmann, mas como ela é mulher e usou de muita energia para falar sobre isso (alguns entenderam como verborragia), muitos homens sequer quiseram ouvir e entender sobre o termo.

Na verdade, é assustador como muitos “homens” não querem ouvir as mulheres. Mas eu falo sobre isso mais adiante.

Mansplaining (do inglês: man = homem, e splaining = a forma informal do verbo explain, que significa explicar) é um termo que significa “(um homem) comentar ou explicar algo a uma mulher de uma maneira condescendente, confiante, e, muitas vezes, imprecisa ou de forma simplista”. A autora Rebecca Solnit atribui o fenômeno a uma combinação de “excesso de confiança e falta de noção”. Lily Rothman da revista americana The Atlantic define o termo da seguinte forma: “explicar sem levar em conta o fato de que quem é explicada sabe mais do que quem explica, o que é geralmente feito por um homem a uma mulher”.

O Mansplaning praticado por Luiz Carlos Prates me irrita. Pois no lugar de ajudar a resolver o problema, dá lição de moral sem qualquer tipo de propriedade sobre o assunto. Sem ter a mínima autoridade para falar sobre o mesmo. E pior: usando um discurso que não ajuda a resolver o problema, mas reduz o papel da vítima (sem aspas, pois é vítima sim do “macho alfa sem noção topzera”) a um status que eu não desejo nem para a mãe dele.

Calma, Eduardo… se controla.

Ele mesmo diz que não tem nada a ver com isso. E parando para pensar friamente, não tem mesmo.

Mansplaning é basicamente um “por que você está abrindo a sua boca (ou, nesse caso, digitando em seu computador) para falar sobre algo que, sinceramente, ninguém pediu a sua opinião?”. É inacreditável como isso teve relevância a ponto da pessoa se importar em dar a sua opinião para algo que, na prática, não a afeta em absolutamente nada.

E sabe por que a opinião expressa na coluna não é importante ou relevante?

Porque quem está falando do tema não é uma mulher. É um homem.

Isso mesmo, sociedade cristã ocidental. A opinião de um homem sobre o assédio contra as mulheres em local de trabalho é totalmente irrelevante. Porque é o lado dominante da espécie querendo dar lição de moral no lado mais fraco.

Durante séculos, o homem, macho alfa da espécie, ditou as regras. Disse para as mulheres como elas tinham que se vestir, se comportar na sociedade, como deveriam pensar, se tinham ou não o direito de votar, em qual deus poderiam acreditar e vários outros mecanismos sociais, morais, intelectuais e emocionais que só foram quebrados depois de muita luta (quase literalmente) por parte das mulheres fortes e minimamente organizadas em buscar os seus direitos.

Aliás, é assustadoramente comum ver homens incomodados com mulheres corajosas que tomam a decisão em denunciar os assediadores. Isso passa a infeliz ideia que, antes de qualquer coisa, os homens ditos “machos alfa topzeras” não tem A OBRIGAÇÃO de respeitar uma mulher, se dando ao direito de cantar e assediar seja lá quem for, por entenderem que o mundo é um grande açougue (vocês entenderam essa metáfora).

Como homem, eu preciso atualizar os “machos alfa topzeras” da espécie: não… cantada não cola mais. É uma coisa tão brega e tão década de 1940, que caiu em desuso. E ao dar a entender que mulher confunde cantada com assédio, não só está mais do que manifestado um pensamento machista e retrógrado, como também deixa clara a ideia que nenhuma mulher é inteligente o suficiente para diferenciar um elogio de um assédio.

De novo: isso é subestimar a inteligência feminina.

As mulheres de 2019, independente da faixa etária, gostam de homens inteligentes e articulados. Gostam de elogios, não de cantadas baratas. Gostam de ser enaltecidas por atributos como inteligência, personalidade e caráter. Tá, eu sei que tem algumas mulheres que não se importam em receber uma cantada. Mas até elas preferem um homem que seja minimamente inteligente para destacar os seus atributos físicos do que simplesmente receber de um “macho alfa sem noção topzera” frases imbecis como “sua gostosa… se eu te pego eu te quebro ao meio”.

É preciso atualizar as pessoas que praticam o Mansplaning de forma escancarada que a mulher evoluiu muito mais do que o homem nas últimas décadas, em vários aspectos. A luta pelos direitos femininos não apenas resultou na diminuição do abismo conceitual entre homens e mulheres, mas também no desenvolvimento intelectual de todo um coletivo. As mulheres pensam por si, estão emocionalmente mais inteligentes e independentes, contam com maior voz ativa na sociedade e até desenvolvem melhor determinados projetos profissionais do que muitos homens na mesma condição.

Sem falar que, pelo artigo citar uma denúncia de uma colega de profissão (jornalista), fica demonstrado DE NOVO que, no lugar de apoiar quem é diminuída por um homem apenas porque quer fazer o seu trabalho, é obrigação de quem está irritado com esse cenário afirmar que essa pessoa não merece qualquer respeito por se colocar em uma condição humilhante como essa.

Desculpa voltar no tema mas… o assediador então é Deus para você? Nenhuma punição para quem não respeita o próximo como indivíduo?

Vamos então falar de homem para homem.

Quem não sabe o que é ser uma mulher na sociedade não tem o direito de falar sobre o assunto de forma tão simplória e rasa, criminalizando as mulheres da forma mais irracional possível. Como se também fosse culpa das mulheres carregarem historicamente a estigma de serem submissas, sempre colocadas em segundo plano em todas as esferas da sociedade e, principalmente, sendo subjugadas por terem uma condição física inferior ao homem. A impressão que dá é que o autor do texto acha que tudo pode ser resolvido pelas mulheres com o mesmo grau de dificuldade que existe em abrir a tampa de um iogurte ou fazer um miojo às 23h30 de uma quinta-feira chuvosa. E, acredite… eu conheço algumas pessoas que fracassam na tentativa em realizar as duas tarefas.

Muitos homens não fazem ideia do que é viver com o medo de sair todos os dias de casa sofrendo o risco de serem assaltadas, estupradas e mortas pelo simples fato de serem mulheres. Não sabem o que é ser criticado, julgado e condenado pelas roupas que vestem, por como se comportam ou pelas coisas que dizem. Não precisam lidar com reações violentas e explosivas, nem com posturas emocionalmente abusivas, que matam aos poucos a individualidade e a auto-estima de alguém que acredita que pode prosperar pelo seu talento.

E, principalmente: os homens que praticam o Mansplaning simplesmente não se importam em ouvir as mulheres. Porque, para esses homens, elas não são vítimas. São oportunistas.

Assédio não é uma coisa que nasceu com a internet, tal e como o artigo dá a entender. Isso existe desde sempre na humanidade, mas era “socialmente aceito” por um coletivo machista e misógino. Até hoje as pessoas qualificam o homem que transa com várias mulheres como “o pegador”, que nada mais é do que um termo atualizado para “varão”, ao mesmo tempo que as mulheres que transam com vários homens (um direito dela, e ela faz com o corpo dela o que ela quiser – direitos iguais aqui) de “biscate, galinha, vagabunda”, que nada mais são do que termos atualizados para “meretriz, mulher de vida fácil”.

Afirmar que quem deveria ensinar as mulheres a reagir é a atual geração de pais “modernos” é, mais uma vez, uma forma de eximir a responsabilidade das gerações mais antigas, que praticaram o machismo até dizer chega, criticando os resultados atuais dos altos índices de feminicídio nos últimos anos. Então… porque as gerações mais antigas não ensinaram isso para as mais novas? Porque contam com o direito institucionalizado de adotar o “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”?

Aliás, a coluna de opinião também falha miseravelmente ao não considerar o fato que o assédio e a violência contra a mulher é um comportamento em escala progressiva, onde em boa parte dos casos, mesmo incomodada com a situação, a mulher é AMEAÇADA DE DIVERSAS FORMAS caso ela esboce a iniciativa em denunciar o assediador ou agressor. Até porque, diferente do sapato (que em 99,9999% dos casos está nos pés da mulher, ou seja, em posição inferior), quem assedia está EM UMA POSIÇÃO SUPERIOR À DA MULHER.

Até esse aspecto o artigo de opinião, de forma infeliz, “esqueceu” de posicionar. Ou não quis ver, porque era conveniente.

De forma conveniente, o artigo também ignora o fato que assédio vira abuso. E esse abuso se torna em atitudes violentas e, em uma escala maior e mais drástica, em feminicídio. O artigo ignora Maria da Penha, que passou anos lutando na justiça para que o seu algoz, que se achava dono dela, recebesse uma punição mínima. Ignora que existe todo um sistema que tenta abafar denúncias de mulheres que são vítimas de agressão.

Ignora que, entre janeiro e setembro de 2019, nada menos que 42 mulheres em Santa Catarina foram assassinadas por homens que não aprenderam com os seus pais que toda mulher merece respeito. Esse número já alcançou os casos de feminicídio de 2018.

Eu pergunto: Maria da Penha e essas mulheres assassinadas… elas não merecem respeito?

Eu me alonguei demais. Vou concluir.

Quem pratica o Mansplaning me enoja. Quer uma forma de ajudar as mulheres que são sim vítimas dos “machos alfa sem noção topzera em posição dominante que acha que toda mulher é puta pra ele”? Primeiro, ouça. Calado. A fala não é sua. É da vítima. Depois que ela falar tudo o que tem para dizer, seja ao menos gentil e ofereça o seu ombro para ela chorar. Então, segure na mão dela e a incentive a denunciar o assédio ou a agressão.

Um dos grandes problemas da sociedade como um todo na questão do assédio é justamente o fato das vítimas não serem ouvidas. É claro que, no final das contas, essa briga é das mulheres, e esse texto não tem o objetivo em dizer o que elas devem fazer para se defender dos imbecis que acreditam que toda mulher deve se submeter às “cantadas” dos homens. Esse texto é direcionado aos homens que realmente acreditam que toda a problemática se resolve apenas e tão somente com a denúncia das mulheres.

Não. Falta algo.

Eu sei que não vou conseguir a re-educação de pessoas que viveram uma vida achando a cantada e o assédio como algo normal, e não uma falta de caráter institucionalizada. Mas podemos educar as novas gerações sobre o quanto isso é ruim e inaceitável no mundo de hoje. De forma tola, eu acredito que é a nossa responsabilidade apontar para as próximas gerações os caminhos para um melhor convívio de coletivo, mas sem diminuir as mulheres.

Toda mulher merece respeito. É obrigação do homem entender isso.

E mais uma vez vou me apropriar de algumas palavras do texto original, modificando algumas coisas para que a frase se alinhe melhor com o meu pensamento sobre tudo isso.

“E para terminar, o homem (ou macho alfa topzera) que passou décadas encarando cantada como algo normal, aceitando o estereótipo de ‘pegador’, querer cagar regras na cabeça das mulheres, tentando dizer o que elas devem ou não fazer em uma situação onde ele não faz a menor ideia do que é ser uma mulher que passa uma vida toda reduzida às humilhações de uma sociedade machista… é ser muito nojento. Esse tipo de homem não merece qualquer respeito.”

Essa é apenas a minha opinião, tá? Não adianta ficar bravinho comigo, beleza?


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