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“Permita que eu fale
Não as minhas cicatrizes
Elas são coadjuvantes.
Não… melhor… Figurantes que nem deviam estar aqui
Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Tanta dor rouba a nossa voz
Sabe o que resta de nós?
Alvos passeando por aí.
Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência
É roubar o pouco de bom que vivi.
Por fim, permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Achar que essas mazelas me definem
É o pior dos crimes
É dar o troféu para o nosso algoz, e fazer nós sumir.”

Eu passei os últimos 12 meses batendo os meus atabaques. De tempos em tempos, aumentei o volume para ser ouvido. Para isso, minhas mãos bateram mais forte no couro do instrumento. Hoje, eu olho para as marcas de sangue estampadas no couro e me pergunto: do que valeu?

Crimes não solucionados, jovens negros mortos por policiais corruptos e milicianos, atletas profissionais discriminados por torcedores, juízes entendendo que publicidade nazista é algo normal. A violência urbana. Todas as vezes que me perguntaram se eu era o garçom daquele restaurante. Todas as vezes que não tiveram a dignidade em olhar para a minha cara na hora de me responder perguntas.

Até quando eu vou precisar bater mais forte no atabaque para ser ouvido?

Nos últimos 12 meses, eu identifiquei algo que a minha boa vontade, inocência e até mesmo o desejo desesperado em despertar empatia no próximo não conseguia ver. Identifiquei em amigos, conhecidos, desafetos e desconhecidos a ignorância e até o descaso por um olhar mais inteligente e racional para um problema que não foi criado pelos negros, mas sim pelos brancos.

O homem branco dito “cidadão de bem” aprendeu a relativizar. Para ele, não existe essa coisa de “raça”. Existe a raça humana. Uma fala até bonitinha para pessoas que fingem acreditar que somos todos iguais aos olhos de Deus (não discordo dessa afirmação, mas ela é muito conveniente para esconder o preconceito alheio), mas que não quer que a sua filha loira de 16 anos de idade namore o cara negro com black power cantor de rap. O povo que defende a raça humana é o mesmo que não coloca a empregada ou a babá do seu filho para fazer as refeições junto à mesa.

Essa mesma turma que acha que “o racismo não existe no Brasil” e que essa é apenas e tão somente uma causa política e não social normalmente é a mesma que diz “não vai fazer coisa de preto, tá?”.

Relativizam a questão do racismo porque acha que é uma questão política, de militância. Bom, tudo agora virou política no Brasil, o que tem o seu lado positivo e negativo.

O lado positivo é que ao menos agora deixamos de nos importar tanto com a péssima qualidade do futebol apresentado pela seleção brasileira masculina (porque a feminina e o Sub-17 nos enchem de orgulho), para prestar mais atenção nas mecânicas adotadas pelos políticos para sacanear a todos nós, independente da cor da pele.

O lado negativo é que o negro continua sendo estigmatizado por visões que bem sabemos que são parciais e convenientes para apenas um grupo de pessoas que finge se importar com o diferente. Torna menor uma causa porque essa causa não atinge aquele que, no fundo, acredita ser superior por algo ínfimo e insignificante.

As pessoas não se dão conta que ser negro no Brasil está bem longe de materializar o “raça humana” na prática. Os negros contam com um salário médio 45% menor que os brancos, possuem oportunidades menores para trabalhar e são os principais alvos das mortes por policiais. Mulheres negras são diariamente humilhadas pelos seus patrões e chefes, passando por jornadas de trabalho que lembram sim a escravidão.

Aliás, não lembram. É uma escravidão institucionalizada.

Ou você acha que a galera branca da classe média ficou feliz quando a empregada doméstica brasileira conquistou direitos trabalhistas?

Não. Não foi pelos 20 centavos.

O homem branco dito “cidadão de bem” aprendeu a descontextualizar. É uma palavra difícil de escrever e mais difícil ainda para falar. Mas ele aprendeu.

Aprendeu também a trabalhar com editores de foto e vídeo para retirar uma frase isolada de uma fala de Morgan Freeman para jogar na cara da sociedade que “é uma bobagem ficar se importando com a questão do racismo”. Ou seja, usam o negro até para vender suas mentiras.

Para começar, a questão do racismo não pode ser discutida pelos brancos. Não me entenda mal, mas… como você pode falar sobre uma coisa que você não compreende o que é? Nenhuma pessoa branca que eu conheço passou pela humilhação de ser branco. Pelo contrário: entram sem problemas nas festas badaladas. Já eu tenho que explicar que consegui o convite porque sou jornalista, e não porque fui contratado como segurança.

Não é tão legal assim você perceber que o coletivo acha que você tem cara de segurança. Seria mais legal se eles percebessem que eu tenho cara de advogado. O estereótipo seria mais edificante.

Você, homem branco dito “cidadão de bem”… não pode falar sobre o que você não vive ou viveu.

Não pode falar sobre os 80 tiros que um músico e sua família receberam de policiais apenas porque estavam indo para um chá de bebê e, por isso, foram considerados suspeitos.

Errado. Eles eram suspeitos porque eram negros.

O “cidadão de bem” não vai entender o que é ser chamado de preto, macaco, nego imundo, pedaço de bosta, tiziu e outros impropérios. O homem branco não entende todo o contexto histórico que essas ofensas carregam. Não conseguem enxergar o ódio transmitido de geração para geração, porque para esse tipo de gente, humilhar o diferente é algo normal.

Por trás do “preto macaco”, tem décadas de escravidão, subserviência, humilhações e violência. Não dá para chamar de “algo cultural” o racismo estrutural. Mesmo porque o termo já deixa claro de onde vem esse tipo de racismo: nos conceitos estruturais e sociais mais elementares de um indivíduo.

Descontextualizar e relativizar o racismo foram as armas adotadas por um grupo de pessoas que até podem não querer me matar, mas que certamente não me enxergam com empatia. Eu sei que muitos dos meus amigos e amigas que são brancos não vão concordar com nada do que eu escrevi nesse texto, justamente por acreditarem que não são racistas, inclusive porque são meus amigos.

Mas…

O Dia da Consciência Negra existe justamente para que pessoas minimamente inteligentes comecem a refletir sobre as posturas e comportamentos que abraçaram ao longo de toda uma vida e comecem a mudar. Você pode ter machucado o próximo sem saber e, de fato, não é culpa sua. Seus pais, tios, primos, avós, bisavós e derivados aprenderam em tempos muito mais rudimentares do que esse que era correto ofender e humilhar o diferente, apenas porque o diferente tem uma cor da pele diferente que a sua.

Apesar de acreditar que todo e qualquer ser humano é dotado da capacidade de desenvolver de forma independente a sua personalidade, cada vez mais eu me convenço que somos afetados pelo comportamento do coletivo.

Nesse momento, eu vivo em um coletivo que descontextualiza e relativiza o racismo, se escondendo na gentileza e falsa empatia (incrível como o filme Get Out – no Brasil, Corra! – de Jordan Peele fica ainda mais perfeito com o passar do tempo, como se isso fosse possível). Para algumas pessoas, eu sou aceitou ou tolerado porque canto bem, porque escrevo bem ou me expresso bem. Tudo bem, podem ser virtudes que eu aprendi a desenvolver ao longo do tempo e que me tornam diferente da maioria dos negros no Brasil.

Mas acredito que, se eu fosse um entregador de pizza ou um lixeiro, eu jamais teria a empatia de alguns dos meus amigos.

Se você se sensibilizou com alguma coisa que eu escrevi nesse texto, eu peço. Não. Na verdade, eu imploro. Eu sei que eu não deveria implorar, mas depois de passar boa parte da minha vida buscando o respeito do próximo através da empatia e recebendo de volta o relativizar e o descontextualizar de uma causa que não afeta a todos, só me resta implorar.

Me ajuda! Pelo amor de Deus! Ou melhor, pelo amor que você tem aos seus filhos, netos, pais (já que nem todos acreditam em Deus).

Procure despertar no seu interior o consciente racional. Faça o seu cérebro trabalhar, justifique um eventual bom teste de QI e reflita, de coração aberto, se em algum momento você não cometeu o racismo estrutural, se você nunca estigmatizou ninguém, ou se você nunca confundiu um jovem negro com um funcionário do supermercado, quando na verdade ele era apenas uma pessoa como outra qualquer passando por ali.

Se você entender que fez algo desse tipo em algum momento da sua vida, não precisa me contar. Não precisa se desculpar comigo. Apenas mude. Internamente. E, se possível, leve essa visão de reforma íntima e melhora do coletivo para mais pessoas. Desenvolva esse tipo de discussão com aqueles que estão ao seu redor. Muitas pessoas que você conhece estão mais propensas a ouvir você do que a me ouvir.

E… o mais importante.

Denuncie atos racistas.

Eu sei. É difícil. Você cria vínculos de longa data com as pessoas, e é mais cômodo não se envolver com problemas que não atingem você de forma direta. Mas enquanto os bons se calarem, os tais “cidadãos de bem” vão continuar a vomitar a sua verborragia e explicitar a violência contra mim e aos muitos tantos iguais a mim, que não contam com um blog para expressar o que pensa e sente. Muitas crianças negras sofrem de mazelas muito piores do que ser confundido com um bandido em um shopping center. Muitas mulheres negras sofrem barbaridades nas mãos de madames inescrupulosas.

Tem muito negro sem voz por aí. Eu ainda estou usando a minha para denunciar o que está errado.

Por fim, um recado final para os racistas declarados, neo-nazistas e seres irracionais falantes que me transformaram em alvo pelo ódio ao diferente.

Eu não ia escrever um texto sobre o Dia da Consciência Negra em 2019. Mas viver em Santa Catarina praticamente me obrigou a lembrar ao coletivo que me cerca sobre o quanto está errado manter esse pensamento atrasado sobre quem é diferente do perfil padrão. Ser negro é lindo. Minhas tradições históricas são incríveis, e nossas contribuições culturais são irretocáveis. Nos esportes, somos os melhores atletas. Na música, os melhores cantores. No sexo, os melhores amantes (sou suspeito pra falar). E no Brasil, somos a maioria, de acordo com o IBGE.

Vocês, racistas, me obrigaram a começar um texto. Mas não vão me obrigar a escrever um fim.

Vou voltar a bater forte os meus atabaques, mas vou repetir trechos do que já escrevi para acertar vocês. Não espero que vocês, seres que se acham melhores do que eu por causa da cor da pele, entendam o que eu quero dizer com a repetição. Não acredito no QI de vocês.

Mas ao menos marcas eu vou deixar.

Segue.

 

 

Hoje, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, eu continuo a bater os meus atabaques. Aliás, como você não sabe o que se passa dentro do meu corpo, eu preciso falar: o meu coração bate como um atabaque barulhento e ensurdecedor, tal e como aqueles que vibravam dentro dos navios negreiros que trouxeram os meus irmãos no passado. Hoje, as minhas mãos batem mais firmes no couro do instrumento. Com toda a força e energia que carrego nos braços. Minhas mãos vão sangrar. E que sangrem! Quero testemunhar o sangue na pele do atabaque, para que eu me certifique que deixei o melhor de mim.

Que ao levantar o meu punho banhado em sangue, que o mundo possa constatar a minha entrega total às causas que eu defendo. Mesmo que tentem me calar com um hipócrita discurso do “a melhor forma de combater o racismo é não falar sobre ele”, a minha imagem com o punho cerrado, banhado em sangue e levantado para o céu ficará marcada na mente daqueles que se sensibilizarem.

Mas hoje e sempre… eu somo a minha voz à voz dos diferentes. Dos marginalizados por assumirem escolhas que fogem ao senso comum. Meu discurso agora é em uníssono com aqueles que decidiram assumir escolhas complexas e conflitantes em nome da felicidade. E o mais importante: abraço fraternalmente a todo e qualquer ser que é diminuído por práticas nefastas dos chamados “bons cidadãos”* ou “cidadãos de bem”*, que na verdade discriminam outros seres humanos por características que não podem mudar.

A minha raça conseguiu o microfone na mão, e na falta desse, usa o megafone ou grita para as multidões. Agora, é preciso dar voz para aqueles que mal conseguem sussurrar, com medo de violências piores caso manifestem a sua real essência.

Eu não desisti. Eu não vou desistir. Eu vou seguir batendo o meu atabaque, erguendo o meu punho cerrado, e cantando para quem quiser ouvir as belezas da minha negritude. Em meu nome, e em nome de todos os meus iguais.

Custe o que custar.

 

P.S.: A título de curiosidade, “Good Citizen” (bom cidadão) era o nome de um periódico publicado nos EUA, entre 1913 e 1933, pela líder religiosa Alma White, que apoiava o grupo supremacista Ku Klux Klan. No livro “The Second Coming of The KKK: The Ku Klux Klan of the 1920s and the American Political Tradition” (A Segunda Vinda da KKK: a Ku Klux Klan de 1920 e a Tradição Política Americana, em tradução livre), a historiadora Linda Gordon, da Universidade de Nova York (EUA), afirma que o periódico se destinava exclusivamente à KKK. Um grupo “divinamente ordenado”, na visão da influente reverenda. Ou seja, eu recomendo que você pense umas dez vezes antes de se auto proclamar um “bom cidadão” ou um “cidadão de bem”, pois é uma expressão com origem explicitamente racista. A história está aí para mostrar.


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