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Do Jeito que Elas Querem (2018) | Cinema em Review

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Um retrato da mulher madura de 2018, e como ela pode mudar através de um dos livros mais nefastos da história: Cinquenta Tons de Cinza.

Do Jeito que Elas Querem é muito mais próximo da mulher madura do que se imagina. Mesmo utilizando a metáfora da “mudança de comportamento” através do péssimo Cinquenta Tons de Cinza (e o filme sabe brincar com isso de forma bem inteligente), vemos aqui o cenário atual das mulheres que estão na melhor idade, que procuram se atualizar e se conectar com o mundo atual, mas enfrentam os desafios mais comuns que as mulheres maduras enfrentam nesse exato momento, em 2018, nos aspectos sociais, morais e comportamentais.

E tudo isso acontece a partir de um tema considerado tabu para muita gente, em qualquer momento da vida: o sexo.

Cinquenta Tons de Cinza é o tipo de livor que mirou no peixe e acertou no gato. E. L. James pensou em uma história para o público adolescente-adulto (até 25 anos), especialmente por ser uma fan-fic de Crepúsculo (sob a alegação que não havia sexo na história de vampiros). Mas a história de Christian Grey e Anastasia Steele acertou o público adulto (35 anos ou mais). Era comum ver as mulheres com mais de 50 anos lendo o livro, e se empolgando com o que estava nele.

De forma ainda não explicada, as mulheres maduras se interessaram pela história do sexo sadomasoquista, com práticas até então inéditas para essas mulheres ditas experientes. Mais: elas se empolgaram com o fato de Christian ter se apaixonado, algo surreal em efeitos práticos, mas que é basicamente o sonho de consumo das mulheres que hoje tem 60 anos ou mais: mudar o homem que ama através do amor. Mesmo que essa seja uma premissa machista e nada funcional no mundo real. Mas isso é outra história.

 

 

Fato é que quatro mulheres com mais de 60 anos redescobrem que podem voltar a viver com as cenas de sexo textualmente descritas em Cinquenta Tons de Cinza, e se valem da excitação gerada pela obra literária para repaginarem suas vidas como um todo. Aliás, esse é o primeiro grande ponto positivo de Do Jeito que Elas Querem: falar de sexo sem rodeios, de forma aberta e franca. Ao mesmo tempo, algumas metáforas diretamente conectadas à personalidade das personagens são apresentadas, mostrando o que elas sentem nos seus corpos, mentes e corações, deixando o enredo da trama mais envolvente e interessante.

Quatro mulheres com personalidades bem diferentes e definidas, mas que representam em linhas gerais todas as mulheres maduras que conhecemos. A viúva, que tenta reconstruir sua vida afetiva, mas que tem filhos controladores; a independente e bem sucedida, que não consegue se apegar a ninguém; a casada, com o casamento em crise; e a setentona divorciada, falsa moralista, que não demonstra ter mais interesse por sexo.

Todas elas são afetadas pela proposta de ler Cinquenta Tons de Cinza como tarefa do clube do livro, e são diretamente afetadas pela nova forma de ver o sexo e relacionamentos que o livro propõe. Ao longo do filme, as mudanças de comportamento e filosofias de vida são, em alguns casos, radicais, onde cada uma delas decide jogar fora as velhas convicções para abraçar novas possibilidades.

A melhor parte de Do Jeito que Elas Querem é que sua trama e narrativa conversam diretamente com a mulher madura. É o filme perfeito para quem hoje tem mais de 60 anos e quer recomeçar a viver. Ao longo de 97 minutos, a história deixa lições claras sobre a necessidade de se reinventar para encontrar o amor e a felicidade. É um filme que começa falando sobre o comportamento sexual, mas que termina falando sobre a transformação do ‘eu’ interior, a reinvenção do personagem. Abraçar novas ideias e convicções na vida é fundamental para essa reinvenção, e isso as personagens conseguem fazer com maestria.

Também conseguimos identificar as diversas situações que a mulher madura vive hoje, como por exemplo: dependência dos filhos, sentimento matriarcal em demasia, pré-conceito (por parte dos mais jovens e dos mais velhos também), a mudança de comportamento sexual, a perspectiva de futuro limitante, os desafios de relacionamento com as diferenças, e tantos outros temas que estão mais próximos da realidade dessa geração que imaginamos. Quem estiver com olhos e mentes abertos para perceber tudo isso poderá aproveitar ao filme de forma singular.

 

 

Por outro lado, devo reconhecer que a narrativa de Do Jeito que Elas Querem não vai agradar a todos. Por ser um filme voltado para a mulher madura, ele tende a ser mais romantizado do que precisa, com algumas situações que beiram ao exagero. É claro que alguns cenários são criados para dar o clima de comédia romântica pelo qual o filme se vende, mas certas situações fogem da realidade do mundo prático, e seriam desnecessárias. Os mais jovens vão achar esse filme lento e bobinho, o que, de fato, é uma realidade. Porém, como disse antes, é um longa com público alvo bem definido, e não podemos julgar esse aspecto.

Do mais, estamos diante de um elenco simplesmente excelente, com nomes de peso. Faço destaque para Candice Bergen que, apesar dos sérios problemas de saúde que enfrenta, interpretou sua setentona megera/hipócrita de forma excelente. E que sorte a nossa em poder conferir o seu talento novamente, especialmente agora que Murphy Brown voltou ao ar.

Por fim, Do Jeito que Elas Querem é o filme certo para a mulher madura de 2018. A reinvenção que elas fazem em função da redescoberta sexual é notável. Aliás, o filme se sai bem em fazer a crítica velada ao próprio Cinquenta Tons de Cinza. No final das contas, elas não precisam do livro para mudar tudo em suas vidas. Só precisam delas mesmas, e de vontade em mudar tudo.

Para a mulher com mais de 60 anos, é um filme obrigatório. Os recados para a maturidade são bem claros. Basta assistir a tudo com atenção.

 

 


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Publicado emResenhas e Reviews