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Não é a melhor música para começar. E está bem longe de ser a melhor composição de Michael Jackson. Mas é perfeita para iniciar os relatos da trilha sonora da minha vida.

Essa música é de 1979. Ano do meu nascimento. Logo, a conexão passa a ser bem pessoal.

Apesar de eu mesmo acreditar que uma boa música é atemporal, o registo deste que é o primeiro single comercial da nova fase da carreira solo de Michael Jackson tem uma sonoridade típica do final dos anos 70, com os últimos ecos da disco music soando nas pistas de dança. A assinatura musical daquele que seria conhecido por todos como “rei do pop” é clara, principalmente porque esta é uma de suas primeiras parcerias com aquele que mudaria a sua carreira para sempre, no que se refere às suas próprias referências musicais e identidade sonora futura: Quincy Jones.

Se considero Michael Jackson um gênio da música no mesmo nível que Mozart e Beethoven (e isso não é nenhum exagero, se olharmos para as características musicais dos três), muito tem a ver com a influência de Quincy Jones como produtor musical. Por causa desse cara, “Thriller” foi o álbum que foi – o mais vendido de todos os tempos.

Mas isso é outra história.

Apesar da maioria das pessoas se lembrarem dessa música mais como o tema de abertura do Vídeo Show (Rede Globo) por quase três décadas, eu me lembro de ouvir essa música de forma incessante quando criança, e nos anos que se seguiram. Essa música tem uma sonoridade envolvente, dançante, animada…

É como se essa música fosse ditar o ritmo da minha vida.

Eu sou assim. Eu realmente me sinto assim. Minha vida hoje está literalmente pautada nesse ritmo. Ok, hoje é influenciada por vários ritmos, estilos e momentos. Mas “Don’t Stop ‘Til You Get Enough” parece que foi composta no momento certo. E eu sempre ouvi essa música no momento certo da minha vida.

Sempre me vi como alguém que gostava das coisas vibrantes, ritmadas, elaboradas. Essa canção passa tudo isso, em uma sonoridade espetacular. É algo que ficou gravado na minha memória de forma definitiva. É o tipo de música que a gente se pega em casa dançando animadamente, sem uma coreografia definida. Apenas sentindo o ritmo.

Ou o groove que ela sugere.

Como disse antes, não é uma das melhores letras de Michael Jackson. E, apesar do próprio jurar de pé junto que essa música não fala de sexo… convenhamos: não precisa ser nenhum especialista na língua inglesa para entender a canção proposta exatamente dessa forma.

E, do mais… o que tem de mais? Sexo é bom. Sexo é vida. Sexo é saudável. Mas falo de sexo e música mais adiante.

Ainda não é a hora.

Eu vejo “Don’t Stop ‘Til You Get Enough” (e não estranhe quando eu digo que eu “vejo” música… vou usar essa expressão várias vezes no futuro) como uma daquelas músicas para colocar para cima. Sabe, é muito bom ter canções na vida que podem levantar o seu astral. Não exatamente quando você está em baixa, mas também quando você está bem o suficiente para ficar ainda melhor.

Também é muito bom ter músicas que vão nos acompanhar pela vida toda. Compreender e identificar nossas referências musicais, e ver como elas vão se alinhar com a nossa personalidade.

Trazer a música no nosso baú da memória não é um atestado de nostalgia como muitos pensam. É uma prova clara que você tem motivos de sobra para remexer nessas memórias e trilhar esses momentos com as músicas que você mais gosta. Isso é incrível. Só o ser humano pode fazer isso.

Só quem é muito ligado em música pode realmente fazer isso com paixão. Gostar de música não é o suficiente. Você precisa amar intensamente para registrar todos esses momentos com melodias que marcam profundamente. Que entram em nosso DNA.

Ter uma trilha sonora da vida é uma das formas de projetarmos como seremos no nosso futuro. E nesse futuro, é como olhamos para o passado, e dizemos para nós mesmos: “cara, você era bem feliz nesse tempo, não?”.

E responder para você mesmo: “e é por isso que você é feliz pra caramba hoje”.

 

 

“Don’t Stop ‘Til You Get Enough”
(Michael Jackson)
Michael Jackson, 1979

 


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